TOP 50 de discos de 2012 – # 01-10

#01. Fiona Apple
(The Idler Wheel…)

Foram necessários sete anos para Fiona Apple voltar com o sucessor de Extrarodinary Machine. Com a espera, veio uma obra prima distinta de seus lançamentos anteriores. Em melodias minimalistas, carregadas pelo piano e influenciadas pelo jazz, a artista revela seus medos, desilusões, fracassos amorosos (“Jonathan”) de forma visceral e sem colocar-se no papel de vítima, por exemplo quando assume que teme a solidão em “Left Alone” e rasga-se ao cantar “How can I ask anyone to love me when all I do is beg to be left alone”.

Na frágil “Every Single Night”, com sua sonoridade de caixinha de música, ou na paranóia amorosa de “Werewolf” (com sua revolução nos gritos de um grupo de crianças no final da canção e frases como “nothing wrong when a song ends in the minor key”), Apple revela o peso de seus conflitos com uma aversão controlada e que explode em fúria em “Regret” com sua atmosfera sombria de “Something I Can Never Have” do Nine Inch Nails.

Grande parte do trabalho flerta com peças do jazz na companhia do percussionista Charley Drayton. O ápice de exaltação é em “Hot Knife”, um dueto vertiginoso com a cantora (e irmã) Maude Maggart, com seu clima “cabaret tribal” e que finaliza com os vocais a cappela.

The Idler Wheel… é uma neurose emocional do início ao fim, na qual Fiona diz em umas das faixas “I want to feel everything”, mas nós também estamos sentindo por ela.

Dica de download: “Hot Knife” (), “Werewolf” () e “Daredevil” ()

#02. Frank Ocean
(Channel Orange)

Depois de sua mixtape Nostalgia, Ultra, era hora de Frank Ocean lançar o seu primeiro registro oficial. Como um moderno Stevie Wonder (“Sweet Life” / “Fertilizer”) com o jogo sedutor de Marvin Gaye, o músico entrega um clássico de bandeja. Suas canções de amor são regadas de emoção em seus falsetes (“Thinkin’ ‘Bout You”) e riqueza sentimental em suas histórias como quando canta “I could never make him love me” na gospel “Bad Religion” encenando uma conversa com um taxista que poderia ser interpretada por Jeff Buckley. A mente de Ocean não descansa ao trazer à tona seus contos, revelações espirituais, abuso de drogas, lares desestruturados (“Crack Rock”) e cotidiano como um J.D. Salinger do R&B contemporâneo.

Dica de download: “Thinkin’ ‘Bout You” (), “Pyramids” () e “Crack Rock” ()

#03. Grimes
(Visions)

Claire Boucher (a.k.a. Grimes) é uma Enya no ácido com traços de Minnie Riperton. Com suas esquisitices sonoras, inclinadas ao eletropop, Visions é uma aventura sônica através do pop futurista. A voz doce e acrobática de Boucher flutua entre as melodias de loops hipnóticos (“Oblivion”), texturas digitais (“Skin”) que flertam com a música dance (“Be a Body”) e a pop (“Colour of Moonlight (Antiochus)” tem a batida infectuosa de “When Doves Cry” de Prince). O resultado é um trabalho conceitual e sobrenatural através do olhar “cyberpop” da garota.

Dica de download: “Circumambient” (), “Oblivion” () e “Genesis” ()

#04. Jack White
(Blunderbuss)

Depois de tomar frente do The White Stripes, dividir atenções no The Raconteurs e no The Dead Weather, produzir discos de outros artistas e lançar o seu próprio selo, Jack White assume sua identidade em Blunderbuss. Com seu toque de Midas, abusa de todas as experiências sonoras ao longo dos anos para uma compilação própria de todo o aprendizado – como, por exemplo, o climão anos 50 de “Trash Tongue Talker” e “I’m Shakin'” (um cover de Little Willie Johnson) que remetem à produção do disco de Wanda Jackson – e a forma em que moldou o rock em sua carreira (“Sixteen Saltines”). Estabelecendo um conjunto de sonoridades familiares, White apresenta suas melhores canções quando aborda sua relação com o amor e as mulheres. “I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me anymore” como canta em “Love Interruption”, uma carta aberta para sua ex-mulher, a modelo/cantora Karen Elson. Em carreira solo, o músico garante um rock extraordinário, assim como tudo que toca.

Dica de download: “I’m Shakin'” (), “Love Interruption” () e “Hip (Eponymous) Poor Boy” ()

#05. Sharon Van Etten
(Tramp)

O folk pop de Sharon Van Etten é do tipo que carrega todos os problemas do mundo em suas melodias frágeis conduzidas essencialmente por guitarras acústicas. Com a produção cuidadosa de Aaron Dessner (do The National), as melodias leves e tranquilas permitem a cantora explorar suas angústias (“Serpent”) e anseios (“Give Out”) sob uma perspectiva negativa e no peso do seu vocal sem perder a elegância e a sensualidade (“Magic Chords”). O equilíbrio emocional de Tramp encontra-se em “We Are Fine”, uma parceria com Zach Condon do Beirut, em que um casal apenas encontra-se “bem”. Com suas revelações carregadas de aflições, Van Etten cria um álbum simples e denso.

Dica de download: “Warsaw” (), “Serpents” () e “We Are Fine” ()

#06. The Mynabirds
(Generals)

No segundo disco do The Mynabirds, projeto de Laura Burhenn, as melodias são irresístiveis com sua fórmula contagiante de percussões vibrantes num universo em que Florence (and the Machine) Welch soaria mais controlada. Suas composições misteriosas (“Karma Debt”) e calorosas (“Generals”) exalam instrumentações extasiantes como uma PJ Harvey militarista (“Wolf Mother”). Generals foca-se numa proposta política que nos resta dançar e pensar que a revolução está por vir em cada uma de suas composições.

Dica de download: “Body of Work” (), “Generals” () e “Wolf Mother” ()

#07. Alt-J
(An Awesome Wave)

O debut An Awesome Wave do quarteto Alt-J (ou ∆) é uma combinação calculada de rock, indie, folk e trip hop para produzir um som autêntico. Há fases em que soam como se o Fleet Foxes (“Fitzpleasure”) estivesse numa excursão por cenários urbanos e violentos e outros que estão pela fase eletrônica do Radiohead (como na cósmica “Something Good”). Suas canções, sempre conduzidas pela voz sossegada de Joe Newman, são melodias contrastantes de serenidade (“Matilda”) e intensidade (“Breezeblocks”). Carregam um poder de mudança frequente, como se estivessemos alternando estações de rádio e captando a essência principal de um universo radiofônico.

Dica de download: “Tessellate” (), “Dissolve Me” () e “Breezeblocks” ()

#08. Jessie Ware
(Devotion)

Jessie Ware (conhecida por seus vocais nos trabalhos de produtores como o SBTRK) lança a sua estreia Devotion garantindo-se como uma poderosa sucessora de Sade. Explorando sensualidade e sonoridades artísticas influências pelo minimalismo eletrônico de James Blake, o R&B e o pop, com a natureza dos trabalhos de Annie Lennox e Lisa Stansfield no auge dos anos 80. Ware deixa de ser uma artista convidada para dar um passo gigantesco à sua própria carreira.

Dica de download: “Wildest Moments” (), “Night Light” () e “Sweet Talk” ()

#09. Cat Power
(Sun)

Se as melhores canções nascem de momentos turbulentos da vida, Cat Power está de volta ao topo com Sun. Depois de contar com músicos lendários de Memphis em The Greatest (2006) e lançar um coletânea de covers em Jukebox (2008), o fim de um relacionamento fez Chan Marshall refletir seus últimos álbuns e procurar um novo caminho para seguir sozinha – desde a produção a tocar os instrumentos – neste disco. O resultado é um pop seguro em que questiona morte versus relacionamento (em “Cherokee”) e culpa (“Peace and Love”), sem perder a confiança em sua eletrônica delicada e urgente (“Silent Machine”). São melodias cativantes, mas que ainda representam feridas abertas (“Ruin”).

Dica de download: “3,6,9” (), “Cherokee” () e “Ruin” ()

#10. Lana Del Rey
(Born to Die)

A Internet descobriu Lana Del Rey e gongou-a durante 2012. Se nos anos 80 tínhamos “Video Killed the Radio Star” podemos reformular a canção do The Buggles para “Internet Killed the Video Star”. Independente das acusações – algumas extremamente desnecessárias – culpe a Internet pela ascensão rápida da artista. Apesar do fardo, a garota tem um disco de estreia espetacular em suas mãos. Born to Die é trilha reformulada de clássicos de Hollywood, femme fatales de corações partidos e seduzidas por garotos ao estilo James Dean (“Blue Jeans”) e reduzidas a objetos sexuais (“Video Games”). Com sua sonoridade elegante, um híbrido de Portishead com o toque clássico de Nancy Sinatra, Del Rey pode não ter presença de palco ou ser a ‘cover girl’ perfeita, mas seu disco é um sustento para uma lacuna que o pop desejava e necessitava. Um buzz “fale mal, mas fale de mim” que continua dando certo e ainda vai render.

Dica de download: “Radio” (), “Summertime Sadness” () e “Blue Jeans” ()