Entrevista: DESAMPA

sexta-feira, março 21st, 2014

Desampa

A real identidade do cantor/compositor DESAMPA é um mistério. Revela-se em suas texturas eletrônicas calculadas, acordes de piano compassivos, cordas astutas e vocal versátil que guiam suas composições sentimentais confortadas por uma eletrônica soul experimental.

Remetendo nomes como James Blake, SBTRKT e The Weeknd, o enigmático músico paulista prepara-se para o lançamento do EP Hue, o sucessor do compacto de estreia Err (2013), e conversa com o teco apple sobre identidade, influências, comparações com outros músicos, discos favoritos, o processo de produção de Hue e nossa faixa favorita do trabalho.


Quem é o “misterioso” DESAMPA? A identidade secreta ajuda ou atrapalha na divulgação?

DESAMPA: Ele é um cara legal, acho! Eu acredito que ajuda, as pessoas gostam de mistério, gostam de tentar adivinhar quem está por trás. E ao mesmo tempo faz com que foquem no que está explicito para elas, ou seja, não o meu rosto, mas sim a minha música.


De onde vem a inspiração de sua música e como a descreve?

DESAMPA: Minha inspiração vem de diversos lugares. Não sei direito dizer, é complicado. Ela pode vir quando estou estudando uma música clássica no piano, ou de alguma coisa inovadora que eu escuto, ou um quadro, foto, desenho. Raiva de alguma coisa. Eu tenho o poder de manipular a fonte da minha inspiração. Eu não consigo descrever minha música, eu acho que ela não se encaixa em nada, e é isso que eu gosto.


Comparações como o “The Weeknd brasileiro” ou “o SBTRKT tupiniquim” incomodam?

DESAMPA: Nem um pouco, eu gosto de ambos artistas pra caramba! Mas não tento ser eles, ou ninguém na verdade. Até porque as minhas composições vem de dentro, e quem criou o meu “dentro” foram meus pais, a não ser que o The Weeknd e o SBTRKT sejam meus irmãos.


O piano é o seu melhor amigo nas horas de compor?

DESAMPA: Super! Eu tenho uma relação bem estranha com o piano, não dá para explicar. As minhas músicas sempre saem dele.


Suas músicas soam como mantras (como os versos “love me deep down, don’t turn me down” em “Love?”). Acredita nisso? E o quanto a sua obra é ficcional e pessoal?

DESAMPA: Sim, eu acredito que minhas músicas estão aí para passar uma mensagem, fazer uma mudança nas pessoas. E não para serem um “hype” que as pessoas não vão mais se relacionar dentro de alguns meses. Minhas obras são pessoais.




Quais as influências na música e fora dela?

DESAMPA: Eu me influencio por tudo que me “tira do Terra”, que não seja comum. Eu quero ser único, tento trazer inovação. Eu tento ser o melhor. E isso me influencia muito fora e dentro das músicas. Em “Love?”, por exemplo, eu estava escutando bastante Etta James e Purity Ring, e a mistura dos dois, foi algo que me inspirou a compô-la. Assim como simetria e arquitetura me inspiraram também para esta e outras faixas.


Desampa


Como funciona o seu processo criativo e quando sabe que uma música está finalizada?

DESAMPA: Quando assisto a um filme ou escuto uma música e me sinto inspirado, sinto um “calor interno”, eu vou para o piano e começo a tocar alguma peça de algum compositor como: Chopin ou Beethoven, e depois sequencias de acordes. Eu sinto que a música está começando a tomar forma quando meu coração começa a bater diferente. E nunca sei quando está finalizada. Acho que chega uma hora que não dá mais para mexer.


E o processo do EP ‘Hue’?

DESAMPA: Foi bem mais intenso que o processo do primeiro EP Err. Eu tinha acabado de me demitir do meu ex-emprego, então foquei 100% na música. Me alimentei de arte todos os dias, e começava a compor às 10 da manhã e só acabava umas 5 da tarde. E a noite assistia filmes que me inspirariam no dia seguinte. Ouvi bastante experimental e música eletrônica pesada. Fiquei inspiradíssimo com Yeezus. E óbvio, cores, é daí que saem as nuances de cada música e do nome do EP.


Já escutamos Hue e as canções percorrem por trilhas obscuras como se estivessem num processo de redenção. No entanto, há uma delas, “Not Afraid to Fail”, nossa favorita, que se mantêm neste caminho num apelo mais pop em seu clima sombrio eletrônico futurista com elementos do house. Poderia falar mais sobre ela em específico?

DESAMPA: Bem notado. Hue é composta por três cores diferentes que se traduzem em música para os ouvidos. Cada uma tem uma pegada diferente e transmite uma ideia diferente. No caso de “Not Afraid To Fail”, é uma cor mais quente que fala sobre não ligar para que os outros pensam e seguir seu próprio caminho, e também fala sobre poder e força. Na época, fiz uma pesquisa enorme de sonoridades eletrônicas que passariam a sensação de poder às pessoas.


Que efeito você gostaria que sua música causasse nas pessoas?

DESAMPA: Muitas pessoas dizem que minha música acalma e que faz com que reflitam sobre coisas. Mas eu não me preocupo muito com o efeito que ela causa. Espero que cada pessoa tenha uma relação distinta com minhas músicas. Sem explicação do sentido ou meu ponto de vista.


Desampa


O que anda escutando ultimamente? Quais os seus discos favoritos da temporada passada e um guilty pleasure que poderia deixar de ser segredo?

DESAMPA: Escuto muita coisa, mas o que tem me “tocado” lá dentro, ultimamente, é Kelela e Blood Orange. Meus discos favoritos do ano passado são, como falei anteriormente, Yeezus do Kanye West, Reflektor do Arcade Fire, Apocalypse do Thundercat e os álbuns dos dois artistas que mencionei acima que tenho escutado. Não tenho guilty pleasures, não tenho vergonha de gostar de nenhuma música em específico.


Mais informações sobre DESAMPA podem ser encontradas na página do Facebook.

Entrevista: Is Tropical

quarta-feira, julho 20th, 2011

Antes de tudo, o trio londrino do Is Tropical não revela o nome de seus integrantes. Sem enquadrar-se num gênero musical – exploram disco, synth, pop, dance, sons tropicais, etc. -, o mistério de suas reais identidades beneficia a divulgação do disco de estreia Native To no cenário indie, chamando a atenção dos blogs/sites de música.

Com um videoclipe eleito como ‘um dos melhores do ano’, assim como seu single “The Greeks”, o grupo topou fazer uma entrevista exclusiva para o tecoapple.com:

Is Tropical

Em primeiro lugar: o nome da banda. De onde vem Is Tropical?

Is Tropical: Quando começamos a banda estávamos num porão escuro e úmido em Londres. Era inverno, então o meio não poderia ser descrito como “tropical”. Achamos também que seria uma boa palavra. Nosso amigo Scouse Chris fez o resto.

E as máscaras? Como surgiu ideia?

Is Tropical: Não é algo que discutimos no início. Era uma espécie de instinto para fazer os shows e se esconder de alguma forma. Era pura timidez, mas acabou sendo uma energia divertida para nos manter no palco.

Além disso, não acredito que somos o tipo de banda que coloca maquiagem e dança na frente dos fotógrafos – há coisas melhores para se fazer num concerto do que pensar “o meu cabelo está ok?”.

O que aconteceria se vocês tirassem as máscaras? Seria como se a mágica desaparecesse?

Is Tropical: Sim, provavelmente.

Sua música tem diversas influências, certo? O que realmente inspirou vocês? O som de vocês não é enquadrado em um gênero.

Is Tropical: É muito bom você dizer que nosso som não se enquadra em nenhum gênero. Quando estávamos fazendo o disco, só tínhamos consciência em fazer um álbum pop. Somos influenciados por vários estilos – de Ratatat, Daft Punk, e Clark … The Strokes, Tom Petty… até Wu Tang, Gang Starr, e até rap tem seu lugar em nossos laptops. É interessante, porque você faz música constantemente e experimenta outros estilos sem ficar preso a ideia de “preciso utilizar as mesmas batidas e melodias para uma nova canção”.

Como vocês descrevem a banda e a música que produzem?

Is Tropical: Apesar de termos assinado com a Kitsuné e tudo mais, relativamente somos underground, o que é bom. Não ser tão ‘hype’ significa que você pode fazer as coisas do seu jeito e se concentrar em sua música sem viver de expectativas.

Nós fazemos música pop. Às vezes dance para à noite ou algo divertido, com um pegada pop, e às vezes é algo que não tenho ideia de como descrever.


Clipe de “The Greeks”

De acordo com vários blogs de música, o videoclipe de “The Greeks” é digno do título de um dos melhores do ano. Como vocês reagiram com quase um milhão de visualizações em apenas cinco dias?

Is Tropical: Não foi uma surpresa. Quando assistimos o resultado criado pelo coletivo Megaforce, sabíamos que era algo especial. Ganhamos mais de 2.5 milhões de acessos até o YouTube restringir o material ou algo do tipo. Acabou sendo ruim da parte deles, mas os comentários das pessoas era positivo; falam que se lembram de quando eram crianças e muitos gostam da música. Outros nem perceberam que se tratava de um videoclipe.

Qual o próximo passo para um (excelente) clipe e single?

Is Tropical: Um bem melhor (esperamos) vídeo e single. Não tentaremos a mesma coisa no próximo – será uma história com uma estética muito bonita. Assim como “The Greeks” ou “South Pacific” (vídeo), o trabalho será uma extensão da música, com um enredo um pouco diferente e aludindo a ideia geral.

O single e clipe de “Lies” será lançado por setembro, então fiquem de olhos e (ouvidos) preparados.

O que sabem sobre música brasileira? Por sinal, o Brasil é um lugar muito ‘tropical’.

Is Tropical: Ano passado, estava numa fase Bossa Nova, Astrud Gilberto e todos os clássicos. Se tivéssemos tempo, gostaríamos de visitar Ipanema, lugares com a arquitetura art déco e bares que devem ter um visual incrível durante o dia. Seria um deleite ser levado a um bar e assistir seus semideuses bronzeados dançando como a natureza sugere.

Is Tropical

Com o lançamento de Native to, quais são os próximos planos? Uma visita ao Brasil? Já ofereceram algum convite pra tocarem no país?

Is Tropical: Definitivamente, está nos planos. Fomos à Venezuela e foi uma experiência incrível – estamos interessado em tocar em lugares que não é normal uma banda como a gente se apresentar. Não queremos ficar presos ao “status indie” de Londres – a parte de viajar e conhecer lugares diferentes é a melhor parte de ter um álbum lançado. Espero que os jovens do Brasil estejam preparados para nós.

O que vocês escutam ultimamente? E quais os seus discos favoritos, além do de vocês?

Is Tropical: Esse ano, muitos trabalhos bons foram lançados. Tem o Cults, o novo do Metronomy, da Beyoncé… também estamos escutando muito Crystal Fighters, Washed Out, DOM, entre outras coisas.

Mais informações sobre o Is Tropical podem ser encontradas na página do Facebook do grupo.

Entrevista: My Gold Mask

quarta-feira, março 31st, 2010

O My Gold Mask, duo de Chicago para ficar de olho, é formado por Gretta Rochelle (voz / percussão) e Jack Armondo (guitarra). Com alguns canções circulando pela Internet e dois EPs lançados, produzem um rock de arte com traços sombrios e influenciado pela cena alternativa dos anos 90.

My Gold Mask

Essa semana, o clipe de “Violet Eyes” (assista) estreia na programação da MTV Brasil, no MTV Lab teco apple, e os músicos tiraram um tempo para falar com o blog:

O que vocês andam fazendo?

Gretta Rochelle: Estamos num processo de escrever novas músicas para o nosso set. Em julho, ficaremos 3 dias no Canadá e vamos tocar no Sled Island Music.

Jack Armondo: Antes disso, temos algumas apresentações em Nova Iorque. Vamos abrir os shows do The New Pornographers.

Como vocês se conhecerem e começaram a fazer música juntos?

Gretta Rochelle: Há aproximadamente uns oito anos, Jack e eu fazemos música juntos. Nos conhecemos numa festa, no terraço de um prédio, e imediatamente começamos a conversar sobre o assunto.

Jack Armondo: Nós tocávamos em bandas antes, mas aquela havia sido a primeira vez que decidimos apenas nós dois trabalhar em algo.

Quem fica responsável pelas melodias e letras?

Gretta Rochelle: Ambos.

Jack Armondo: É um processo 50/50 quando escrevemos. Ambos contribuem com todos os aspectos das canções.

Lembram quando foi a primeira vez que tiveram contato com o palco?

Gretta Rochelle: Eu estava na quarta série. Era um recital de violino e eu estava emocionada. Quando fomos para o palco, tive um ataque e as notas da minha partitura ficaram todas embaralhadas. Não sabia se poderia fazer aquilo de novo, mas assim que começamos a tocar juntos, as coisas fizeram mais sentido. Foi dessa maneira, que me tornei uma viciada em estar em frente ao público.

Penso nos meus antigos recitais e hoje. São sensações bem parecidas. Sempre fico nervosa antes de começar a tocar, mas logo passa e me sinto confortável. É uma sensação maravilhosa.

Jack Armondo: Em um show do David Copperfield durante uma viagem para Las Vegas com minha família. Ele estava fazendo uma mágica comigo no palco e começou a fazer piadas. Eu não estava nervoso, apenas animado. No dia seguinte, uma mulher na piscina disse: “Vejam! É o menino do show de mágica da noite passada”. Isso é muito excitante quando você está na quinta série.

My Gold Mask

E atualmente? Como foi a experiência de tocar, esse ano, num festival tão importante como o SXSW?

Jack Armondo: Foi incrível. Aquilo é uma grande bola de energia. Muitos shows em apenas um lugar, nunca vi algo desse tipo. Definitivamente, um bom lugar para conhecer pessoas novas também.

Gretta Rochelle: SXSW foi uma experiência maravilhosa. Agora, sabemos o que temos que fazer diferente e o que manter em nossos próximos shows lá. Sei que parece loucura, mas eu não estava preparada para a intensidade do lugar. Era como uma turnê, mas 100 vezes mais intensa.

E a sensação de saber que o vídeo de “Violet Eyes” vai estrear no programa MTV Lab teco apple da MTV Brasil?

Jack Armondo: Muito emocionante!

Gretta Rochelle: É uma sensação incrível. Fico feliz de que o Brasil aceita o nosso trabalho.

Por sinal, a música tem um clima extremamente sombrio em sua melodia e letra. De onde ela veio?

Gretta Rochelle: Eu tenho uma lado negro. Amo criar ambientes e escrever sobre esses lugares nas minhas canções. Estou feliz que tenha sido o caso de “Violet Eyes”.

Jack Armondo: Para mim, a canção é quase como uma antiga amante que te deixa louco, mas você ainda tem uma parte sua que pertece à ela.

Já começaram a pensar num disco de estreia?

Jack Armondo: Estamos escrevendo e tocando no momento. Sem muito tempo para pensar num trabalho completo. Nossa filosofia é trilhar o nosso caminho. É bem provável que vamos lançar pequenos trabalhos com mais frequência.

Gretta Rochelle: Sem planos ainda. Apenas queremos cair na estrada.

My Gold Mask

Quem são os músicos que inspiram o trabalho e as músicas de vocês?

Gretta Rochelle: Somos influenciados por várias artes diferentes, não apenas música. Amo cinema indiano e animação. Aprecio culturas diferentes. Respeito muito a sabedoria musical de Klaus Nomi por sua coragem e espectáculos teatrais.

Jack Armondo: Escuto muita música diferente que seria difícil especificar certos artistas. Gosto de vários estilos, como hip hop, rock, dance ou qualquer coisa. Meu estilo de tocar guitarra foi muito influenciado por Joey Santiago e Dick Dale. E recentemente, tenho escutado muita música árabe. Mas é engraçado, tento não pensar em música quando escrevo as nossas canções.

Conhecem alguma coisa de música brasileira?

Gretta Rochelle: Eu amo Bossa Nova.

Jack Armondo: Preciso aprender mais, mas aprecio o trabalho dos Mutantes, CSS e, realmente gosto, de As Mercenárias.

E se surgisse o convite para tocar no Brasil?

Gretta Rochelle: Adoraria! Se tiverem planos de nos levar para aí, vamos amar nos apresentar para vocês!

Jack Armondo: Isso. Se alguém quiser nos chamar para uma viagem ao Brasil, estaremos no primeiro avião.

Mais informações em myspace.com/mygoldmask

Entrevista: Volantes

terça-feira, outubro 27th, 2009

Direto de Porto Alegre (RS), a Volantes é formada por Arthur Teixeira (voz / guitarra), João Augusto (guitarra / voz / sintetizador / tambor), Rodrigo Mello (bateria), Otávio Mastroberti (kaossilator, sintetizador, programações e kaos pad) e Bernard Simon (baixo).

Volantes

Com o EP Sobre Gostar e Esperar (escute aqui) recém lançado, essa gurizada já coleciona elogios de músicos (Frank Jorge) e produtores (Rafael Ramos) conhecidos na indústria fonográfica. Além disso, foram escolhidos – através de votação popular – para serem uma das bandas para abrir os shows do Maquinaria Festival – evento que traz nomes como Faith No More, Panic at The Disco, Evanescence, Danko Jones, entre outros – no dia 08 de novembro em São Paulo.

Carregando uma combinação de estilos e referências musicais – o pop rock alternativo confrontando com o eletrônico, o folk e o post punk -, trabalham suas composições de forma extremamente homogênea. Diante de tanta inspiração, contrastam e equilibram o trabalho entre melodias grandiosas (“Vitória” / “Meu Samba”) e momentos intimistas (“OK#54” / “No Corredor, Ali”) fazendo de Sobre Gostar e Esperar um belo e promissor cartão de visita.

Como a Volantes se conheceu?

Arthur: Em uma festa. Vi alguém falar mais alto a palavra “Wilco” [era o João, sentado no chão dando em cima de umas indies], então fui falar com ele pra tocar comigo e com o Rodrigo, com quem eu tinha uma outra banda. O Ota entrou um pouco depois, por indicação de que ele seria o maior fã de The Cure, em Porto Alegre. O Bernard ficava me mandando SMS na madrugada reclamando que não tinha banda. Então, semana passada liguei pra ele e falei que tinha vaga. Mas, já fazemos shows desde o início de 2008.

Quais são as principais influências? E os heróis na música?

Arthur: Meu herói é, sem dúvida, o Caetano Veloso. Depois tem Kraftwerk, Pulp, R.E.M., U2. Das mais recentes, gosto muito de Guillemots, Cut Copy, Bloc Party, do Albert Hammond, Jr. e do Justice.

João: O pós-punk é uma influência fortíssima. Artistas como LCD Soundsystem, Hot Chip e Radiohead. Quando aparece esse termo “heróis” na música, a gente relaciona a artistas como David Bowie, um cara que “se permitiu” fazer o que bem entendesse. Foi Glam, foi “oitentêro”, fez trabalhos super peculiares com Brian Eno. Brian Eno também é outro herói pelo mesmo motivo do Bowie.

Rodrigo: Bowie, Jeff Buckley, Michael Stipe..

Otávio: Gosto muito do pos-punk (The Cure, Echo), das bandas do synth pop do início dos oitenta (Depeche Mode, Yazzo, New Order) e DJs e produtores que deram um “boom” na música das pistas no início dos anos 90 (Basement Jaxx, Moby, Deep Dish).

Volantes - Sobre Gostar e Esperar
Capa do EP Sobre Gostar e Esperar (escute o disco na íntegra)

Como ocorreram as gravações do EP Sobre Gostar e Esperar?

Arthur: Foi uma novela. O EP estava pronto na nossa cabeça em março de 2008. Mas, problemas de todos os tipos, de fechamento do estúdio, perda de arquivos e cirurgias aconteceram. Mas, felizmente temos um amigo muito talentoso (Eduardo Suwa), que gravou o disco e conseguiu manter a coesão em um trabalho feito em tantas etapas. Acho que todo mundo passa trabalho às vezes. Lembra o terror que foi a gravação do Kid A?

E a recepção do trabalho no MySpace?

Arthur: Faz uma semana que as músicas estão no site. No segundo dia, um cara muito importante de uma gravadora muito quente veio falar conosco. O Frank Jorge postou no Twitter que gostou mesmo de nós. Eu me emociono com isso. São coisas que fazem você pensar que está no caminho certo. Não tenho conseguido dormir, só trabalho. E eu quero muito mais trabalho. Não estou nessa pra quebrar quarto de hotel.

Como funciona o processo criativo das canções? Alguém fica responsável pelas melodias e outro pelas letras? E o que nasce primeiro?

Arthur: Até agora eu trazia a canção (letra e música) pronta e construíamos os arranjos juntos. Já estávamos mixando o disco quando o João chegou com “OK#54”. E é impressionante como ela funcionou em conjunto com as músicas que escrevi. Espero que todos se empolguem e tragam mais músicas. Assim, posso curtir mais os shows enquanto alguém canta!

Quanto do trabalho consideram ficcional? E pessoal?

Arthur: Mmmmm… Essa é a parte em que digo que escrevo as minhas músicas sobre os relacionamentos que o João já teve. Não posso me comprometer em rede nacional. Na verdade, cada música podia ter um nome de mulher. Quem sabe role um álbum só com nomes de faixas tipo: Bianca, Cristina, Valéria…

Volantes

Como vocês veem o atual cenário musical do Rio Grande do Sul?

Arthur: Conheço umas dez bandas ótimas daqui. Em contraponto, há algumas precoces e fracas empatando a cena. Mas, se você quiser fazer um festival somente de bandas boas que ainda residem em Porto Alegre, pode levar Bidê ou Balde, Superguidis, Hotel Santa Clara, L.A.B., Apanhador, Pública, o Frank, a Pata…

O que escutam geralmente? E qual é aquele CD que vocês têm escondido na prateleira e não contam para ninguém?

Arthur: Ouço muitas coisas. Atualmente, não tem como não baixar pelo menos uns 3 discos por dia. A música pop é muito generosa. Essa semana ouvi bastante Air, Passion Pit, The xx e o Stan Getz & João Gilberto. Não que eu esconda, mas pegam no meu pé porque me empolgo muito com o primeiro disco do Kid Abelha.

João: Ando ouvindo muito Passion Pit, o último do Phoenix, Bat For Lashes. Sobre o álbum que tenho escondido na prateleira, vou escancarar agora: é o álbum homônimo do Sublime.

Rodrigo: Editors, The Killers, Okkervil River, The Cure, Jeff Buckley.

Otávio: O último do Depecho Mode (Sounds of the Universe), os caras ainda são mestres. La Roux – pela diversão, MGMT e Passion Pit – pela sonoridade e bom gosto que misturam synhts com guitarras.

Onde vocês querem estar daqui a um ano?

Arthur: Na estrada, trabalhando muito, tocando, divulgando, depois de ter gravado o primeiro álbum grande, com todos os hits que temos escondido, como disse o Rafael Ramos. Seria ótimo estar concorrendo ao VMB.

Rodrigo: No VMB.

João: Quero estar na Alemanha e com muito dinheiro, porque lá os instrumentos são baratos.

Otávio: Isso, Alemanha, de onde vêm os melhores synths. Daí, já compro o meu Virus T1 Polar da Access.

Mais informações em myspace.com/volantesvolantes

Entrevista: Erene Stergiopoulos

terça-feira, junho 17th, 2008

Erene Stergiopoulos - Entrevista
Erene Stergiopoulos

Erene Stergiopoulos é uma das milhares de artistas independentes da Internet que quer que você baixe e escute suas composições no MySpace ou no Last.fm. Aos 19 anos, a canadense apresenta maturidade e consistência musical invejáveis em seu disco digital (demo) The General, baseado em voz e piano. Definido pela autora como um trabalho com canções inspiradas desde acontecimentos rotineiros até Napoleão Bonaparte, a pergunta que fica é: poderá ser Stergiopoulos uma futura sensação da música independente?

Na entrevista, ela diz amar história, dançar ao som de Cansei de Ser Sexy e pede para que todos façam o download de seu disco.

Okay. Quem é Erene Stergiopoulos?

Erene Stergiopoulos: Erene Stergiopoulos é… essa é uma pergunta difícil! Eu sou… uma cantora-compositora que mora nos arredores de Toronto, no Canadá. Não tenho uma cor favorita, e o último livro que li foi Os Anos Sem Perdão (“Les Années sans pardon”), de Victor Serge. Essa é uma boa resposta?

Quando você começou a se interessar em compor / escrever música?

Erene Stergiopoulos: É difícil apontar exatamente quando aconteceu, já que foi um processo gradual – e escrever continua sendo um processo gradual para mim. Eu tive aulas de piano clássico desde criança, mas parei com o treinamento clássico em 2003, após sete anos. Foi por volta dessa época que comecei a escrever minhas próprias músicas. Foi uma transição bastante natural. Na verdade, aconteceu sem que eu sequer notasse.

Influências?

Erene Stergiopoulos: Todas imagináveis! O engraçado é que provavelmente não dá para ouvir a maioria das minhas influências nas músicas que componho. The Strokes estão com certeza no topo da lista. Pra mim, eles sempre foram a banda que me fizeram querer compor música. E Yann Tiersen: ele é um gênio! O que ele faz com o piano é incrível. Já em relação à minha maior influência não-musical, seria Napoleão Bonaparte. Ele simplesmente me fascina.

Quando você gravou The General?

Erene Stergiopoulos: Gravei The General em dois períodos: agosto de 2006 e depois no verão de 2007 (entre junho e setembro).

Como está sendo a reação ao disco na Internet?

Erene Stergiopoulos: Muito boa, tanto no MySpace quanto no Last.fm. Eu adoro a sensação de achar um músico/banda desconhecidos na Internet e descobrir que a música é incrível – então espero que eu consiga provocar esse efeito em alguém, também.

Você deixou demos em rádios? Gravadoras?

Erene Stergiopoulos: Ainda não. Nos dias de hoje, é tão fácil conseguir que sua música seja ouvida sem a ajuda de uma gravadora. Para mim, “assinar” com um selo nunca foi uma prioridade.

Erene Stergiopoulos - The GeneralVocê descreve seu disco como “música inspirada por tudo, desde acontecimentos rotineiros até Napoleão Bonaparte”. Você era muito interessada nas aulas de história?

Erene Stergiopoulos: Haha, muito. Eu adorava as aulas de história na escola – e como freqüentei uma escola francesa, nós estudamos a Revolução Francesa pelo menos três vezes em seis anos. E, é claro, a Revolução foi imediatamente anterior a Napoleão!

Como você se sente sendo uma artista na época da Internet? Você acha que algum dia pode se tornar uma artista conhecida e começar a se importar com a questão das vendas versus MP3?

Erene Stergiopoulos: Sim, já pensei no assunto. Tenho tentado fazer uma coisa de cada vez. Compor música nos dias de hoje é tão diferente do que era há dez anos atrás – há um lado bom e um lado ruim nisso. A Internet é fantástica porque permite que sua música seja ouvida sem o apoio de uma gravadora.

Um artista pode facilmente lançar seu trabalho de forma independente. Por outro lado, a indústria musical obviamente pagou um preço por isso. Dá-se menos valor à parte física da música – o encarte que acompanha um CD, por exemplo. Eu sempre adorei observar os encartes dos meus discos favoritos; eles fornecem um visual para a música que você ouve. Dessa forma, a música adquire camadas múltiplas de sentidos e experiências sensoriais. E isso é algo que não dá pra obter quando se baixa arquivos de MP3.

Enquanto artista, a questão dos downloads é algo que inevitavelmente vou ter que considerar. Se algum dia eu me tornar uma artista estabelecida e respeitada, com certeza vou ter que pensar no assunto – principalmente quando eu for pensar no limite entre tornar minha música acessível a todos e, ao mesmo tempo, viver dela. Quando se trata de vender discos, meu foco sempre será na arte do álbum, no encarte – todos os detalhes que você não consegue por meio do download. Esses detalhes são uma chance de expressar outro lado meu.

O mundo inteiro já sabe como a cena musical canadense é forte. Feist, Arcade Fire, Céline Dion (brincadeira!). Podemos dizer que Erene Stergiopoulos é a “próxima grande sensação” a surgir do Canadá?

Erene Stergiopoulos: Haha, o engraçado é que eu costumava ouvir Céline Dion quando era mais nova! É difícil de dizer… Espero que sim! O Canadá realmente tem sua cota de grandes cantoras indie – Feist e Emily Haines, por exemplo -, então espero que haja espaço para mais uma.

O que você tem no seu iPod? Quais seus discos favoritos do ano?

Erene Stergiopoulos: Eu não tenho um iPod. Mas eu ainda ouço música, claro! E ouço muita coisa variada… De Libertines a Beirut, de compositores franceses do século passado a Crystal Castles (eles são de Toronto!), e também jazz antigo e as grandes vozes – Herbie Hancock, Peggy Lee e Julie London. E Erene Stergiopoulos, é claro.

Discos favoritos do ano? Do que eu já ouvi do álbum novo do Coldplay, parece excelente. O single “Violet Hill” é incrível, parece que o som deles amadureceu bastante. Também fiquei muito impressionada com o debut do Crystal Castles.

O que você conhece de música brasileira? Há algo que você goste?

Erene Stergiopoulos: Cansei de Ser Sexy! Eu me lembro quando ouvi a banda pela primeira vez, eu não conseguia parar de dançar. Este é um bom sinal quando se ouve música – você sabe que é bom quando você não consegue controlar seu corpo.

Falando nisso, você já notou que vários dos seus ouvintes no Last.FM são brasileiros? Podemos dizer a todos os brasileiros que lêem tecoapple.com para fazer o download de seu disco?

Erene Stergiopoulos: Sim, eu percebi! Isso é muito legal – eu adoro ter ouvintes fora do Canadá. Portanto, meu recado pessoal a todos lendo essa entrevista é: vão ouvir The General agora!

Entrevista: Hello Saferide

sexta-feira, agosto 10th, 2007

Hello Saferide - Entrevista
Annika Norlin, do Hello Saferide

Em setembro, o indie pop das suecas do Hello Saferide – Annika Norlin e Maia Hirasawa (já falei dela), invade as terras brasileiras em uma turnê que começa pelo Recife e termina em terras gaúchas. O grupo ficou conhecido pelo hit instântaneo via Internet – “Highschool Stalker” – o que lhe rendeu um disco no mesmo ano (2005).

Aproveitando a animação das garotas por conhecer o país, conversei com elas sobre suas carreiras, projetos solos, discos bacanas do ano passado, ABBA e o que esperar dessa passagem pelo Brasil.

O que vocês estão fazendo no momento?

Annika Norlin: Estou terminando minha turnê com a minha banda, Säkert! Além, de estar bastante ocupada escrevendo novas canções para o próximo álbum do Hello Saferide. Mais do que isso, estou estudando português. A única coisa que sei até agora é o que aprendi assistindo um milhão de episódios de Sinhá Moça quando era mais nova. Ainda lembro de algumas palavras daquele programa.

Maia Hirasawa: Estou excursionando com meu projeto solo. Desculpe, sem tempo para aprender português,…

A música escandinava é mundialmente conhecida pelo fenômeno ABBA. Vocês consideram isso uma barreira para a nova geração fazer o seu próprio caminho ou um fator que cria interesse pela música de seu país?

Annika: Acredito que grande parte dos suecos estão orgulhosos do ABBA. Eu especialmente amo as melodias em suas canções. A nova geração indie pop não é ligada ao ABBA – mesmo que Maia e eu fomos comparadas diversas vezes com Agnetha e Frida. Com Maia sendo Agnetha!

Vocês são conhecidas no cenário indie pop e o trabalho solo de Maia Hirasawa tem grande potencial de se tornar grande. Quando o click de “nós somos uma boa banda” aconteceu?

Annika: Você quer dizer quando nós nos demos conta de que éramos bons? Começamos a tocar juntos (geralmente somos 5-7 pessoas no palco, mas no Brasil será apenas Maia e eu) após o lançamento do álbum Introducing, há dois anos, e parece que deu certo logo de cara. Depois de um tempo, todos começaram a aparecer com suas próprias idéias para arranjar e trabalhar em nossa música. Isso foi funcionando.

Como a banda se conheceu?

Annika: Versão curta. Andreas Söderlund produziu “Introducing”. Ele conhecia Fredrik Hultgren (bateria) e Jens Lagergren (baixo) é uma antiga aminha minha. Maia era amiga de uma amiga, e escutei-a tocando e realmente gostei de sua voz e presença no palco. Pedi para ela nos ajudar fazendo backing vocal nos shows… e depois daqueles shows, conclui que nunca quero tocar sem ela.

Qual foi a grande realização deste ano até agora para vocês?

Annika: Viajar para o Japão com o Hello Saferide, lançar o meu disco solo (Säkert!), e saber que vamos conhecer o Brasil!

Maia: Lançar o meu disco de estréia Though I´m Just Me. Sonhei a minha vida toda em conhecer o Brasil, então estou bastante empolgada!


Clipe de “My Best Friend”, do Hello Saferide

Vocês são uma dupla, mas que com seus respectivos trabalhos individuais. Vocês colaboram uma com o trabalho da outra ou preferem colocar um limite no processo de cada uma.

Annika: Não tenho nenhuma participação na música de Maia a não ser amar. Mas, ela costuma ter grande contribuição em fazer os arranjos para as músicas que escrevo para o Hello Saferide.

O quanto do seu trabalho vocês consideram ficcional? E o quanto é pessoal?

Annika: Para mim, é tudo uma montagem. Alguns fatos são verdadeiros – como quando falo que sou insegura em certas circunstâncias – mas grande parte é ficção. Escrever canções para mim é como escrever romances.

Qual foi a música mais divertida de fazer, por outro lado qual foi a mais cruel?

Annika: A mais divertida provavelmente foi “2006”, escrita rapidamente em um dia, com Maia adicionando a melodia, e o resto da banda trabalhando nos arranjos – depois de gravá-la, a música tocou bastante na rádio. No entanto, muitas canções são dolorosas de escrever, porque temos que procurar por sentimentos para fazer algo que as pessoas consigam se identificar. “Leaving You Behind” é uma dessas.

Hello Saferide - Entrevista
Maia Hirasawa, do Hello Saferide

Para Maia Hirasawa. Que tipo de afirmação você sugere no título do seu disco solo Though, I’m Just Me?

Maia: Na verdade, é uma das canções que escrevi, mas não entrou no álbum. Gravei, coloquei os arranjos, produzi e escrevi todas as canções. Então percebi que o título caberia muito bem ao trabalho…

Li um artigo que dizem que sua voz soa uma versão pop jazz de Regina Spektor. O que você acha dessa afirmação? Você conhece o trabalho de Spektor?

Maia: Eu não ligo. Todos querem colocar novos artistas dentro de uma caixa e eu estou na “caixa-Regina Spektor”. Nunca havia escutado as músicas dela até todos começarem a dizer que eu tinha algo dela, então tive que escutá-la. Acho ela boa, mas não é minha inspiração.

Expectativas sobre a turnê pelo Brasil? Vocês imaginaram algum dia fazer shows por aqui?

Annika: Estou muito, muito contente. Tenho amigos que dizem que é o país mais incrível que estiveram.

Maia: Sempre sonhei em conhecer o Brasil, mas nunca sonhei em excursionar por aí. Estou contando os dias.

O que vocês conhecem do Brasil? Com exceção de Carnaval, Samba e Caipirinha?

Annika: Eu sei que vocês amam futebol. Sei que tem uma cena musical incrível também. E sei muito sobre “Sinhá Moça”.

Quando vocês conhecem cidades diferentes, costumam pegar discos, livros e coisas do tipo como lembrança?

Annika: Geralmente, não temos muito tempo para passear pelas cidades. Mas, sempre procuramos encontrar uma loja de antiguidades para conhecer.

Quais são seus discos favoritos do ano passado?

Annika: Realmente, gosto do Blow, The Sprites, Herman Düne, Shugo Tokumaro – e é claro, Cansei de Ser Sexy!

Maia: Annika é a nerd musical de nós. Eu não encontrei tanta coisa nova ultimamente, exceto o disco solo de Annika, Säkert!. É o melhor disco feito na Suécia em anos…

O que o público brasileiro pode esperar dos shows? Canções do Hello Saferide e dos seus projetos solos também?

Annika: Nós vamos como Hello Saferide, então vai ser muitas canções do grupo, novas e antigas. Porque estamos indo como um duo, então será calmo e acústico. Vocês irão gostar.

Alguma mensagem para o público brasileiro?

Annika: Eu já queria estar aí.

Maia: Eu também. Ainda não vi o sol durante todo o verão na Suécia. Espero muito isso do Brasil.


+ Obrigado ao Trent pela ajuda na entrevista e elaboração das perguntas e a Fredrik Bergström, da Razzia Records, por conseguir agendar a entrevista.