6 discos para ouvir hoje: Annahstasia, Sorry Girls, Buscabulla, Patrick Wolf e mais

Annahstasia / Divulgação

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Annahstasia, Sorry Girls, Buscabulla, Patrick Wolf, LSDXOXO e Folamour.

AnnahstasiaTether
(drink sum wtr)

Aos 17 anos, a cantora e compositora nigeriana-americana Annahstasia Enuke, que assina apenas como Annahstasia, começou sua jornada na música, mas logo enfrentou resistência de executivos que tentaram encaixá-la no molde pop, afastando-a do estilo que desejava explorar. Agora, aos 30, ela finalmente lança seu primeiro álbum, resultado de anos de amadurecimento artístico e experiências pessoais, com uma sonoridade que une folk, soul e jazz que sempre imaginou. Para concretizar essa visão, contou com a colaboração dos produtores Jason Lader (ANOHNI and the Johnsons, James Blake), Andrew Lappin (Cassandra Jenkins, Lucy Dacus) e Aaron Liao (Raveena, Moses Sumney).

“Be Kind” é uma balada folk soul delicada, construída sobre acordes suaves de violão e a voz emotiva de Annahstasia, que bebe da influência de ícones como Nina Simone, Janis Joplin e Tracy Chapman. A música navega pela vulnerabilidade da maturidade emocional, as marcas de relacionamentos passados e um sincero anseio por conexões mais profundas. Já “Villain”, com seu violão marcante e uma instrumentação calorosa contrastando com a voz amargurada da artista, traz uma mensagem de superação, num convite a libertar-se das emoções negativas e das críticas internas que distorcem a visão que temos de nós mesmos.

Em “Unrest”, a simplicidade folk ganha camadas com pianos e instrumentos de sopro, reflete sobre a futilidade da ansiedade diante das certezas cotidianas, assim como “Take Care of Me”, onde traz um apelo comovente por cuidado e afeto toma forma. “Slow” destaca-se pela participação do nigeriano Obongjayar, criando uma atmosfera encantadora enquanto questiona a passagem do tempo e como a violência gera opressão, não mudança. Esse mesmo tom poético reverbera em “All Is. Will Be. As It Was.”, com versos da poeta aja monet brilhando sob o arranjo elegante da artista.

“Waiting”, eleva-se com teclados e vocais intensos, pintando um retrato de diálogos frustrados entre expectativa e evasão. Enquanto isso, “Overflow” traz uma qualidade pop envolvente, explorando a dualidade entre fé e desapego. Um dos pontos altos do disco, “Silk And Velvet”, começa minimalista, com guitarras delicadas e a voz aveludada de Annahstasia, mas gradualmente se transforma em uma teia de tensão, com violoncelos dissonantes e pianos sombrios, enquanto a letra critica a contradição entre ideais revolucionários e o consumismo.

“Satisfy Me” combina batidas discretas e violão agradável para tecer críticas sociais e introspecção, usando metáforas da natureza. Por fim, “Believer” explode em soul e rock, capturando as turbulências de um relacionamento. Com Tether, Annahstasia rompe as amarras das expectativas alheias e oferece um trabalho que é, acima de tudo, a expressão pura de sua verdade.

Sorry GirlsDreamwalker
(Arbutus Records)

A dupla canadense Sorry Girls, composta por Heather Foster Kirkpatrick e Dylan Konrad Obront, lança seu terceiro álbum de estúdio, Dreamwalker. Inspirado na era Tusk do Fleetwood Mac, o disco combina a grandiosidade nostálgica das baladas dos anos 70 com a ingenuidade cativante do pop dos anos 80, explorando letras que flertam com idealizações do amor, fantasias de futuros utópicos e um anseio por recomeços cheios de esperança.

“Falling Down Stairs” apresenta um pop luminoso nostálgico que retrata desorientação e fragilidade, equilibrando saudade de um romance perdido com a insegurança diante do amanhã. Em “Hush Baby”, uma balada delicada, sintetizadores reluzentes e guitarras melódicas se entrelaçam à voz doce de Heather. Já “Quiet Hands” combina elementos de americana e soul pop, influenciado pelas experiências da banda em turnês pelos EUA e Canadá. A encantadora “Ricochet” captura a essência dos anos 80, com influências marcantes do Fleetwood Mac, com sintetizadores brilhantes, guitarras envolventes, linhas de baixo incisivas e o canto frágil de Heather, que transmite a dor de um amor efêmero e a força para seguir adiante.

“My Utopia”, um synth rock que poderia facilmente integrar um dos primeiros álbuns do HAIM, fala de um amor intenso e idealizado. “Holding Onto Me” é uma balada pop melancólica, com arranjos simples e harmonias vocais que evocam saudade e a impossibilidade de reviver o passado. Enquanto isso, “Music For Rats” expressa solidão e desamparo diante do abandono. O álbum encerra com “Great White”, onde um piano minimalista traduz o retorno doloroso de amores fracassados e sonhos não realizados, como fantasmas que insistem em assombrar.

Dreamwalker é uma jornada musical sonhadora e sentimental por amores perdidos e futuros imaginados, tudo envolto em uma sensibilidade pop que ressoa como um eco terno e melancólico.

BuscabullaSe Amaba Así
(Domino)

Buscabulla, a dupla porto-riquenha de indie pop formada por Raquel Berrios e Luis Alfredo Del Valle, lança seu aguardado segundo álbum de estúdio, Se Amaba Así. Combinando tradição e modernidade em suas reflexões sobre o amor, o trabalho oferece uma experiência musical catártica e introspectiva, revisitando sonoridades latinas e tropicais com uma roupagem contemporânea.

A abertura do álbum fica por conta de “El Camino”, uma faixa disco embalada por guitarras dramáticas e batidas pulsantes, que retrata o momento decisivo de um relacionamento e a incerteza de seguir por caminhos desconhecidos. A música introduz o tom emocional e reflexivo que permeia o registro.

Em “Miraverahí”, a dupla critica um amor passado pela sua frieza, mesclando groove, melancolia e elementos de pop latino. Já “El Empuje” traz uma atmosfera de bolero, com os vocais calmos de Luis Alfredo conduzindo a narrativa. “Te Fuiste”, por sua vez, é uma canção pop doce e pulsante, com sintetizadores etéreos e a voz suave de Berrios, que fala sobre um romance inicialmente intenso e bonito, mas marcado por desentendimentos no fim.

A faixa-título apresenta um diálogo melancólico entre os dois artistas, enquanto “Incrédula” mergulha em um pop introspectivo, com arranjos de cordas e versos que expressam a dificuldade de lidar com a dor da perda. “Mi Marido” começa como uma cumbia e se transforma em uma balada doo wop com raízes caribenhas, celebrando um amor puro. “Mortal” mistura dream pop, guitarras exageradas que flertam com o rock dos anos 80 e versos que revelam um conflito passional. Por fim, “De Lejito” traz uma salsa com toques indie pop, na qual Berrios canta sobre a importância de dar espaço a um relacionamento para reacender a chama.

Se Amaba Así é um álbum que equilibra dor e delicadeza, transformando despedidas em canções que ressoam como saudades reinventadas.

Patrick WolfCrying The Neck
(Apport)

O artista britânico Patrick Wolf, conhecido por sua versatilidade como cantor, compositor e multi-instrumentista, está de volta com Crying The Neck, seu primeiro álbum completo em mais de uma década. Este trabalho marca o início de uma série de quatro discos que Wolf planeja lançar nos próximos anos. Nele, o músico revisita instrumentos tradicionais, como a viola, o dulcimer dos Apalaches, o ukulele barítono, o kântele e até mesmo um antigo Atari que ele mesmo programava na juventude

Crying The Neck explora temas como luto, esperança e pertencimento – questões que se tornaram ainda mais significativas para Wolf ao longo dos anos. Musicalmente, o álbum mescla sua característica grandiosidade cinematográfica com nuances do country, inspirado em rituais pagãos de colheita, como demonstra a faixa “Jupiter”. O projeto ainda conta com colaborações especiais de Zola Jesus (em “Limbo”) e Serafina Steer (em “Laughnasa”).

Apesar de trazer novas reflexões, o álbum está em produção há quase uma década. Wolf evita cair na nostalgia fácil, optando por reinventar suas raízes. A faixa de abertura, “Reculver”, foi composta quando ele tinha 16 anos, mas ganhou novos significados após sua mudança para Kent, onde as torres de Reculver serviram de inspiração. As batidas originais foram preservadas, mas a canção foi reimaginada no contexto atual.

Em “Better Or Worse”, Wolf aborda forças transformadoras por meio da metáfora de um cavalo de brinquedo com poderes mágicos – símbolo de ressurreição e da presença espiritual daqueles que já se foram. Já “Hymn Of The Haar” surge de um encontro impactante: durante suas composições em um banco à beira-mar na Inglaterra, Wolf deparou-se com o corpo de um jovem refugiado. A ausência de notícias sobre o caso na imprensa o levou a refletir sobre o apagamento de vidas marginalizadas.

Em “Better Or Worse”, Wolf fala sobre forças transformadoras que trazem de volta um cavalo de brinquedo com poderes mágicos – uma metáfora para a ressurreição e a maneira como os que partem retornam, em memória, como guias sobrenaturais.

“Hymn Of The Haar” foi influenciado por um encontro marcante com a morte. Em seu local habitual de composição, um banco à beira-mar na costa inglesa, Wolf deparou-se com o corpo sem vida de um jovem refugiado. A ausência de qualquer menção ao ocorrido na imprensa o fez refletir sobre o apagamento e a desumanização daquela existência. Por sua vez, “Dies Irae”, cujo significado em latim é “o dia da ira”, aborda temas como a proximidade do tempo e da mortalidade, transmitindo uma mensagem de amor, esperança e a importância de valorizar o presente como forma de enfrentar a passagem inevitável do tempo.

A estrutura do álbum é profundamente influenciada pela paisagem de sua terra natal. Wolf não idealiza sua cidade, mas a retrata através das crises econômicas e migratórias que presenciou. Em “The Last Of England”, ele constrói um retrato multifacetado da Inglaterra, longe de simplificações. O álbum atinge seu ápice na faixa-título, “Crying The Neck”, que transporta o ouvinte para a península de Foreland, no litoral do Mar do Norte – onde o artista medita sobre a fugacidade do tempo e os eternos ciclos da vida.

O resultado é uma síntese entre passado e presente, em que a nostalgia dialoga com a reinvenção. Uma prova contundente de que Wolf ainda tem histórias para contar – e de maneiras que continuam a surpreender.

LSDXOXODGTL ANML
(F.A.G. / Because Music)

O DJ e produtor Raushaan Glasgow (a.k.a. LSDXOXO) lança a mixtape DGTL ANML, um convite para mergulhar no universo do artista. Com batidas intensas e letras incisivas, o projeto transita entre a energia da noite e reflexões sobre questões sociais.

LSDXOXO cria uma mistura única, onde ecletismo e mensagem se fundem em uma explosão de ritmos e cores. DGTL ANML funciona como um caleidoscópio de influências, desde o funk com groove melódico à la Prince em “RED” (em colaboração com Boys Noize e VTSS) até as participações marcantes da britânica Shygirl na ousada “SATISFY”, da rapper Kilo Kush em “TN” e da sueca COBRAH em “QT”.

Mais do que uma simples coletânea, DGTL ANML é um reflexo da criatividade versátil de LSDXOXO, com cada faixa revelando novas camadas de seu trabalho em constante transformação. O produtor não apenas captura, mas vive a essência das pistas de dança que o inspiram, criando produções que ecoam no público por traduzir experiências reais – especialmente das vozes marginalizadas.

FolamourMovement Therapy
(FHUO / Believe)

O DJ e produtor francês Folamour marca seu aguardado retorno com Movement Therapy, um álbum de 14 faixas que se revela como uma emocionante ode à existência e aos laços que nos unem. Lançado após o sucesso do single “Pressure Makes Diamonds”, o projeto mistura a energia contagiante das pistas de dança com reflexões introspectivas, tudo envolto no house, disco, funk e soul que definem a identidade do artista.

Em Movement Therapy, Folamour transforma sua música em um manifesto pela liberdade de viver com autenticidade. Os singles “Easy To Love” e “Ça Va Aller” já antecipavam essa proposta eclética: o primeiro, uma construção house enriquecida pelos vocais celestial do Kabusa Oriental Choir; o segundo, um hino soul que transforma otimismo em groove irresistível.

Com “All Dancing Under The Same Sky”, o artista reverencia sua paixão pela house music, celebrando momentos em que as diferenças se apagam, deixando espaço apenas para a união e a arte. Já “Naarm’s Sunset” é uma homenagem à Austrália, mais precisamente a Melbourne (conhecida carinhosamente como “Naarm”), combinando batidas pulsantes com influências house e disco em uma jornada sonora luminosa.

No conjunto, Movement Therapy funciona como uma verdadeira terapia em movimento, conduzindo o ouvinte a um estado de presença total, onde as barreiras sociais se desfazem no ritual coletivo da dança. A música, aqui, é tanto um caminho para a catarse pessoal quanto uma linguagem universal que traduz em ritmos o que as palavras muitas vezes não conseguem expressar.