
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Lorde, Sharpie Smile, Kevin Abstract, Isabella Lovestory, Durand Jones & the Indications, Juan Wauters e Nick León.
• Lorde – Virgin
(Universal)
Quatro anos após seu último trabalho, Lorde está de volta com Virgin, abandonando a estética luminosa de Solar Power para abraçar um processo de reinvenção criativa e pessoal. O álbum marca um retorno às raízes da artista, com composições sinceras e profundas que abordam conflitos com a autoimagem, heranças familiares dolorosas, descobertas sobre identidade e as complexidades do amor, revisitando até mesmo a inocência e as inseguranças da juventude.
“Hammer” inicia com samples fragmentados, sintetizadores expansivos e camadas eletrônicas que convergem para uma batida eufórica, evocando a atmosfera de uma rave libertadora. Liricamente, a música explora a ambiguidade entre afeto e atração física (“não sei se é amor ou se é ovulação”), a fluidez de gênero (“alguns dias sou mulher, outros sou homem”) e a busca por autenticidade em meio ao caos urbano.
“What Was That” resgata o pop de Melodrama e soa como uma sucessora de “Supercut”, ancorada em uma linha de baixo minimalista e sintetizadores que ondulam suavemente, crescendo em intensidade até um clímax catártico. A letra retrata a nostalgia e a dor de um amor passado (comparado a experiências com MDMA), mas que agora se revela insuficiente, deixando um vazio e a difícil aceitação de seu fim.
Entre batidas de garage e cordas soturnas, “Shapeshifter” aborda o conflito entre a persona pública, em constante adaptação, e o anseio por autenticidade. Já “Man Of The Year” inicia com uma base delicada de guitarra, violoncelo e sintetizadores, enquanto a voz terna de Lorde conduz a melodia. Aos poucos, a canção ganha força, explodindo em um refrão acompanhado por sons distorcidos, traduzindo uma busca por autoconhecimento em versos sobre amor, identidade e emancipação.
Em “Favourite Daughter”, faixa dedicada à sua mãe poeta, a cantora revive os primeiros anos da carreira (“eu dei duro, esperando que você diga que sou uma estrela”) sobre uma batida pulsante e sintetizadores turvos, desconstruindo a imagem de uma figura sempre confiante. “Current Affairs”, que incorpora um sample de “Morning Love” de Dexta Daps, mistura sensualidade e fragilidade ao explorar atração física e confusão emocional. Já “Clearblue”, com produção que remete aos momentos mais introspectivos de Imogen Heap, retrata o êxtase do prazer seguido pela ansiedade de um teste de gravidez, entrelaçando memórias familiares e experiências intensas em harmonias vocais etéreas.
“GRWM” inicia serena, com teclados e melodias suaves, mas ganha densidade no refrão, onde a voz emotiva de Lorde equilibra reflexões maduras com lembranças da adolescência, contrastando com batidas pesadas e sintetizadores brilhantes. “Broken Glass” traz o pop dinâmico característico da artista ao tratar distúrbios alimentares e crises de autoestima, com ela refletindo sobre obsessão por padrões estéticos, sacrifícios físicos e a ilusão de controle. “If She Could See Me Now”, com interpolação de “Suga Suga” (de Baby Bash) e inspiração nas produções de synthpop dos anos 80, funciona como uma mensagem de sua versão atual para a mais jovem, celebrando crescimento e aceitação. Por fim, “David” abre em clima tranquilo e é elevada pela interpretação comovente da cantora, que compartilha a dor de um relacionamento tóxico, do qual saiu mais forte, reafirmando sua autonomia.
Em Virgin, Lorde consolida sua reinvenção, entregando um álbum que equilibra vulnerabilidade e força, celebrando o passado enquanto abraça a liberdade do presente.
• Sharpie Smile – The Staircase
(Drag City)
Sharpie Smile, projeto dos músicos Dylan Hadley e Cole Berliner – antes conhecidos pela banda de art-rock psicodélico Kamikaze Palm Tree -, lança seu disco de estreia, The Staircase. A obra traz um pop contemporâneo pulsante, sustentado por uma produção eletrônica que oscila entre o minimalismo e a exuberância, carregada de sentimentos e texturas futuristas, com influências que remetem a artistas como SOPHIE, 100 gecs e Oklou.
O single “Love or Worship” introduz uma sonoridade synthpop onírica, que dialoga com o universo de Caroline Polachek, assim como a faixa-título. Enquanto a primeira música explora as complexidades do amor, da devoção e da lealdade (em versos “não há nada que eu não vou sentir”), a segunda mergulha em um sonho perturbador e cíclico, repleto de imagens de solidão, angústia e desequilíbrio emocional, culminando em um despertar tomado pela ansiedade.
Em “Disappears”, as camadas vocais e as batidas tensionadas retratam um relacionamento marcado pela dependência e frustração. Já “The Slide” combina sintetizadores agressivos e guitarras sinuosas, criando uma narrativa poética sobre paixão e perda de controle.
“So Far” contrasta a delicadeza da harpa de Leng Bian e a voz cristalina de Hadley com o frenesi do drum ‘n’ bass, resultando em algo que se encaixaria no repertório do Frou Frou. “New Flavor” direciona-se para o house, com um eletropop dançante que mistura saudade e reinvenção, onde lembranças do passado se fundem à expectativa de um recomeço. Por sua vez, “The Letter” é uma balada nostálgica com uma atmosfera dos anos 80, trazendo sintetizadores flutuantes, batidas impactantes e um violão dedilhado, expressando a dor de se distanciar de alguém outrora próximo.
The Staircase é uma jornada onírica, onde a ousadia sonora e a intensidade emocional se fundem, apresentando não apenas um álbum, mas uma vivência profunda e transcendente.
• Kevin Abstract – Blush
(Juno / X8 Music)
Kevin Abstract, natural de Corpus Christi, no Texas, passou sua infância nas proximidades de Houston antes de se mudar para a Geórgia. Em seu quarto álbum solo, ele revisita suas origens por meio de uma produção inovadora que combina diferentes estilos e apresenta letras profundas e autobiográficas, tornando este seu trabalho mais pessoal até o momento.
Blush oferece uma sonoridade intimista, que Abstract define como “Texas Pop” ou, de forma mais simples, “música que evoca a sensação de lar”. Esse conceito permeia as faixas do disco, que contam com a participação de artistas de Houston, como Love Spells, além de colaborações com JPEGMAFIA, Danny Brown, Dominic Fike e Ameer Vann.
A faixa “H-Town”, com sua batida boom bap crua e suaves notas de piano, reflete uma trajetória repleta de erros, ambientes desafiadores e decisões arriscadas. “Copy” destaca-se pela percussão marcante e guitarras elétricas que dominam a melodia, abordando temas de resistência diante de tentações, recordações de excessos e amizades instáveis. “Yoko Ono”, com seu instrumental soul e harmonias vocais, e o rap melancólico “Pop Out” retratam uma vida cercada de excessos, mas que ainda mantém um apego emocional a certas conexões. “NOLA”, com sua batida frenética e dançante, adota uma postura provocadora, abordando sexo e violência, enquanto expressa uma carência pelas coisas simples. Por outro lado, “Post Break Up Beauty” desacelera o ritmo para explorar os sentimentos de confusão e solidão após o término de um relacionamento, levando a uma sensação de vulnerabilidade nas faixas “97 Jag” e “Text Me”.
“Geezer” apresenta uma batida lenta e arrastada, com scratches de vinil e dedilhados melódicos de guitarra, evocando a sonoridade do Sublime. Já “I Wasn’t There” mergulha no universo do indie rock, reminiscentes de artistas como Role Model e Alex G, com letras que abordam a culpa e a distância emocional. “Girlfriend”, com os vocais de Truly Young (filha de Dr. Dre) roubando a cena, remete aos dias de BROCKHAMPTON, grupo em hiato de Abstract, e retrata um relacionamento em que, apesar das brigas e da rotina caótica, o casal permanece unido devido à paixão viciante. Por fim, a balada “Abandon Me” expõe o sofrimento de uma relação que, ao mesmo tempo, afasta e aprisiona.
Com Blush, Kevin Abstract amplia ainda mais sua liberdade sonora, fazendo um retorno não apenas às suas origens geográficas, mas também às suas raízes emocionais.
• Isabella Lovestory – Vanity
(Giant Music)
A artista hondurenha de pop experimental Isabella Lovestory apresenta seu segundo disco de estúdio, Vanity. Mais do que um simples trabalho com uma produção primorosa, o disco serve como um espelho das belezas e vulnerabilidades que cercam a estética. Rompendo com as convenções, o projeto investiga diversas sonoridades e texturas, formando uma colagem musical que evoca as estações de rádio que influenciaram sua infância em Honduras, Virgínia e Montreal.
Com produção de seus colaboradores de longa data, Chicken e Kamixlo, além da contribuição do produtor Mechatok e uma participação especial da rapper argentina TAICHU (“Putita Boutique”), Vanity apresenta uma linha do tempo de referências musicais que são ao mesmo tempo oníricas e intensas. A melancolia do New Order se entrelaça com a crueza industrial do Plan B, criando uma sensação de libertinagem delicada e ousada, além de um olhar perspicaz sobre a concepção contemporânea da beleza e sua inevitável decadência.
Com Vanity, Isabella solidifica sua identidade como uma artista multifacetada, expressando sua estética extravagante e surreal de forma única. Além das imagens hipnóticas que compõem esse universo, o álbum transita com fluidez pelas sonoridades que marcaram sua infância entre Honduras e Montreal, abrangendo estilos que vão do hip hop ao reggaetón (“Telenova”, “Puchica”), do europop (“Pill”), synthwave (“Vanity”) ao pop Y2K (“Gorgeous”).
Essa irreverência ao explorar os limites dos gêneros musicais é evidenciada no single “Gorgeous”, que apresenta um refrão irresistível que remete ao R&B dos anos 2000, até que violinos sinalizam uma mudança em direção à experimentação que caracteriza o trabalho de Isabella.
Vanity é uma reinvenção do pop moderno moldada à essência da artista, onde a beleza e a vulnerabilidade se entrelaçam em uma celebração da autenticidade.
• Durand Jones & the Indications – Flowers
(Dead Oceans)
Durand Jones & The Indications, formado por Durand Jones, Aaron Frazer e Blake Rhein, está de volta após um período dedicado a projetos individuais. Para seu quarto álbum, intitulado Flowers, que é o primeiro desde Private Space (2021), o grupo se deixou levar por um desejo especial de retornar às suas raízes, em um porão em Bloomington, onde descobriram uma conexão singular através do funk e do soul que influenciou seu álbum de estreia.
Assim como em 2016, a banda priorizou a colaboração na criação de Flowers. A maior parte do álbum, que foi autoproduzido, foi criada coletivamente no estúdio caseiro de Rhein, em Chicago, com várias faixas surgindo de gravações feitas em uma única tomada – um indicativo de que a energia estava em alta e cada membro contribuiu de maneira natural e fluida.
Com influências que vão de Sade a Stevie Wonder, Flowers equilibra sensualidade (“Paradise”), nostalgia (“Flower Moon”, com o falsete icônico de Frazer) e soul contemporâneo. Se anteriormente o trio buscava seu espaço, agora eles o ocupam com confiança. No single “Been So Long”, a banda (com Jones nos vocais, Aaron Frazer na bateria e voz, e Rhein na guitarra) canta em harmonia: “faz tanto tempo / desde que partimos / é bom estar juntos de novo”, capturando tanto a experiência universal de retornar às origens quanto o reencontro criativo que deu vida a Flowers. Essa maturidade é evidente em faixas como “Really Wanna Be With You”, onde cordas e batidas disco envolvem uma narrativa de amor não correspondido, enquanto “Lovers’ Holiday” explora um lado mais delicado do soul e da disco, tecendo um convite romântico para uma fuga a dois.
Flowers representa a materialização do crescimento de Durand Jones & The Indications, com um álbum envolvente e sedutor, que mergulha no lado mais suave do soul e da disco.
• Juan Wauters – MVD LUV
(Captured Tracks)
MVD LUV de Juan Wauters vai além de um simples álbum: é uma volta às origens. Pela primeira vez em sua carreira, o artista gravou um projeto completo em sua cidade natal, Montevidéu, no Uruguai, mergulhando nas ricas tradições musicais locais enquanto continua a expandir os limites de sua composição única. Uma declaração de amor tanto às suas raízes quanto ao seu presente, MVD LUV leva os sons uruguaios para o mundo, mesclando ritmos de candombe e murga com a fusão característica de folk, pop e experimentação que marca seu trabalho.
Tendo passado grande parte da carreira nos Estados Unidos, Wauters sempre carregou a dupla identidade de imigrante e filho da terra. Com MVD LUV, ele busca unir esses dois mundos, capturando a essência das ruas, das casas e do espírito comunitário de Montevidéu. O álbum foi gravado em diversos locais da cidade, desde seu próprio estúdio até calçadas, telhados e as casas de músicos convidados. Essa abordagem confere ao projeto uma autenticidade crua, fazendo com que a própria Montevidéu pareça uma presença viva na música.
“If It’s Not Luv” questiona repetidamente a natureza de um sentimento intenso e transformador, concluindo que, se não é amor, nada mais poderia ser. “Dime Amiga” expressa a preocupação com uma amiga que sofre em silêncio, pressionada por problemas financeiros, trabalho e estresse familiar, oferecendo apoio e um ombro amigo para que ela desabafe. Enquanto “Manejando por Pando” mergulha no ritmo do milongón, uma variação mais lenta do candombe, que abre espaço para narrativas introspectivas sem perder seu pulso hipnótico, capturando a tensão entre transformação e permanência. Em “Mutuación”, com um ritmo suave e meditativo, Wauters aborda a tensão silenciosa da transformação, refletindo sobre o crescimento pessoal que pode ser ao mesmo tempo natural e desorientador.
Com MVD LUV, Juan Wauters oferece uma jornada vibrante e emocionante sobre lugar e identidade, criando um álbum que é ao mesmo tempo profundamente enraizado e universal. Mais do que apresentar Montevidéu aos ouvintes, este disco os convida a se sentirem em casa nela.
• Nick León – A Tropical Entropy
(TraTraTrax)
O produtor Nick León apresenta seu aguardado álbum de estreia, A Tropical Entropy, sob seu próprio selo, o TraTraTrax. Após o sucesso de dois singles, “Xtasis” e “Bikini”, o artista amplia seu horizonte sonoro, levando os ouvintes a uma jornada repleta de decadência, desilusão e psicodelia. Influenciado pelo livro ‘Miami’, de Joan Didion, e pela sua energia singular, além de estados alterados de consciência, tanto induzidos quimicamente quanto pela privação de sono, o álbum encapsula a vivência pessoal de León ao observar a vida e o amor desmoronando em meio a uma sociedade em colapso, apresentando batidas experimentais que incorporam sonoridades da América Latina.
O disco se configura como um manifesto do início ao fim, contando com colaborações de Ela Minus, Casey MQ, Erika de Casier, Xander Amahd, Jonny from Space, Esty & Mediopicky e Lavurn. León se aprofunda em suas influências mais introspectivas, revisitando memórias de desilusão, noites em claro e a paisagem urbana da Flórida, tudo isso envolto em house, dembow, funk carioca, ritmos caribenhos, pads flutuantes, efeitos de psy-trance e melodias cativantes.
No início, Xander Amahd eleva “Entropy” com vocais etéreos sobre batidas balearic e sintetizadores que evocam o universo do PC music, entre harmonias neobarrocas e ad-libs hipnóticos. Jonny from Space contribui para criar um clímax em “Metromover”, com um baixo sedutor sob batidas intensas e ambientações psicodélicas. Esty aparece com seus sussurros sensuais em espanhol, dançando sobre linhas de baixo metálicas, enquanto Erika de Casier retrata uma paixão e o desejo de um encontro amoroso na praia em “Bikini”, com um dembow sensual influenciado pelo trance. A colombiana Ela Minus se junta no reggaeton experimental e nebuloso “Ghost Orchid”. O clímax do álbum é alcançado com “Crush”, uma viagem cósmica ao estilo de Tangerine Dream, onde arpejos brilhantes e vocais melancólicos com auto-tune envolvem uma batida oca, além de “Product of Attraction”, uma experimentação pop com a voz intrigante de Cassius Select.



