Pearly Drops transforma Los Angeles em fábula pop surreal no álbum ‘The Voices Are Coming Back’

Pearly Drops / Divulgação

Em The Voices Are Coming Back, Tervonen e Malin trocam a familiaridade da Finlândia pelo magnetismo estranho de Los Angeles. A cidade, que eles sempre imaginaram sob a lente de David Lynch, revelou-se exatamente assim: saturada de surrealismo, levemente ameaçadora e ao mesmo tempo mágica, um choque cultural confuso e belo.

Essa energia peculiar do sul da Califórnia se impõe logo na abertura “Delusional On Sunset Blvd”, deslizando sobre acordes amplos e o brilho pulsante de um sintetizador. Em meio à vastidão urbana, Pearly Drops encontrou afinidades criativas, como o grupo australiano Cub Sport e a fotógrafa Tatiana Bruening (illumitati), convidados a colaborar no álbum. Fiéis a um processo minucioso e autoral, o duo e seus parceiros construíram o disco por completo, buscando um som que evocasse uma realidade fictícia, com vozes ecoando de lugares improváveis e sintetizadores analógicos quentes se fundindo ao pop guiado por guitarras. Eles não se veem nem como indie rock nem como um projeto eletrônico, e assumem cada etapa da criação com as próprias mãos, das composições à mixagem, além das capas pintadas manualmente por Sandra.

O álbum preserva a introspecção característica do duo, mas se destaca como seu trabalho mais narrativo até agora, explorando o desmoronamento emocional que surge ao perseguir sonhos com intensidade excessiva. O chamado “sonho de Hollywood” funciona como metáfora para deslocamentos internos, desilusão e a perda de identidade, transformando o disco em uma autoficção onde personagens, cenários e a lógica onírica se misturam às experiências pessoais dos artistas. A paisagem sonora alterna o familiar e o estranho: em vez do glamour esperado, eles se perdem entre as árvores de Franklin Hills, escondem-se de vozes místicas e, em seguida, viram sereias nos esgotos da Sunset Boulevard. O tempo se dissolve em viagens pelas Santa Monica Mountains, até que o retorno só é possível atravessando uma floresta em Silver Lake.

Apesar do universo quase de fábula, influências concretas e uma dor latente atravessam o disco, reforçadas por gravações de voz de Bruening em “Shallow”, “Demonlover” e “Cocoon & Tatiana’s Lament”, enquanto a participação etérea do Cub Sport define “Mermaid”. Em “Ratgirl”, a fantasia continua ao som de um pulso electroclash dançante, seguida pela pausa quase espiritual de “End Credits” e pelo destaque tardio “Pillow Face”, um grito abafado sobre o medo da beleza. Do início ao fim, The Voices Are Coming Back se mantém unido por ritmos vibrantes e texturas delicadas. No encerramento, “Silver Lake Mystery Forest”, Tervonen canta sobre sentimentos digitais e a busca por um “undo” no vazio, encapsulando a sensação de esgotamento e perda de si ao perseguir ambições.

Ao longo dessa visão febril, a incerteza e o burnout do cotidiano ganham formas estranhas, mas profundamente humanas.