
O duo Sylvan Esso inaugura uma nova fase com Ow ∞, trabalho que transforma memórias, caos, prazer e sofrimento em uma experiência visceral e experimental. Concebido durante quatro anos nas florestas de Chapel Hill, o álbum reúne improvisações, participações especiais e registros vocais iniciais de Amelia Meath, preservando uma atmosfera espontânea e genuína. Ao lado de Nick Sanborn, a artista investiga os atritos entre corpo e emoção, razão e instinto, dando forma a uma sonoridade pulsante, ampla e carregada de diferentes camadas.
O projeto também marca um período de maior independência artística para o Sylvan Esso, que assumiu um controle mais amplo sobre a produção e a chegada do material ao público. O percurso contou com seis bateristas, diversos parceiros e uma grande quantidade de ideias que foram desmontadas, reorganizadas e convertidas em outras canções. Esse método deixou no resultado final as marcas de suas sucessivas transformações, como fragmentos de diferentes momentos reunidos em uma única peça. O resultado é uma construção sonora guiada pelo contraste, pela surpresa e pela liberdade de desafiar convenções da música pop.
A abertura com “Entertainment & Coca-Cola” estabelece de imediato essa paisagem. A voz de Meath aparece manipulada e envolta em uma atmosfera noturna, enquanto a composição aborda o sonho americano, o consumismo e a violência. Gravações de grilos feitas no celular durante o processo de criação foram incorporadas ao arranjo, acrescentando uma camada doméstica e afetiva à música. A partir daí, o repertório percorre diferentes estados emocionais, da força de “Sledge” à melancolia de “Flood Season”, passando pela ambientação de inspiração medieval de “Plastic Sword”.
Em outros momentos, Ow ∞ se aproxima ainda mais do universo pessoal da dupla. “Hot Slob” assume uma atitude punk e irreverente, enquanto “Concrete Glen” utiliza um sample do Sigur Rós, banda associada a lembranças afetivas de Meath, para refletir sobre a aceitação da dor como elemento inevitável, e por vezes até absurdo, da experiência de permanecer no mundo. Em “On & On”, elementos eletrônicos encontram instrumentos orgânicos em uma composição desorientada sobre buscar tranquilidade em meio à confusão e preservar essa sensação na memória. Já “Jessica” conduz o ouvinte por um território mais envolvente e imersivo, no qual sofrimento e recordações surgem de maneira persistente e difícil de evitar.
No fundo, o álbum nasce de uma percepção tão simples quanto contundente, viver significa também estar exposto à possibilidade de sofrer. Para Meath, reconhecer essa vulnerabilidade implica permanecer disponível para as experiências, encontros e descobertas proporcionados pela existência. Ow ∞ transforma essa contradição em seu principal eixo ao aproximar dor e prazer, destruição e renovação, domínio e descontrole, além da escolha de continuar presente e conectado ao mundo mesmo sabendo que ele também é capaz de ferir.



