11 discos para ouvir hoje: Tinashe, Julia Jacklin, Blondshell, Murex e mais

Tinashe / Divulgação

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Tinashe, Julia Jacklin, M83, Blondshell, Soft Cell, Adult DVD, Protomartyr, Leon Bridgers, Murex, Bullion e Smidley.

• Tinashe – Popstar
(Atlantic)

Em POPSTAR, Tinashe transforma a figura da “estrela pop” em uma persona que pode ser incorporada, contrapondo o glamour e a euforia da exposição pública aos efeitos provocados pela fama. “Sunglasses”, coproduzida por Arca, combina eletrônica minimalista e experimental aos vocais envolventes da artista, enquanto “Too Easy” acelera o repertório com batidas contagiantes, uma estrutura rítmica cativante e vocais que remetem a Fergie em “Fergalicious”. “Melatonin” prolonga essa energia ao aproximar acid house e techno de Detroit em uma faixa provocativa sobre persistência, superação das críticas e celebração das próprias conquistas.

A segurança demonstrada até então dá lugar à vulnerabilidade em “Empty Stadium”, responsável por conduzir o álbum a um trecho mais contemplativo. Tinashe aborda o receio de perder o público a partir de um sonho recorrente, criando tensão entre batidas insistentes e violinos que traduzem suas incertezas em torno do reconhecimento. Na sequência, “Flashbacks” combina sensualidade e piano para revisitar desejos intensos e as lembranças deixadas por uma relação íntima, enquanto “I’d Rather Be Alone” mergulha em um R&B etéreo e melancólico, com guitarras e sintetizadores distorcidos que evocam “Kiss It Better”, de Rihanna, ao defender a independência diante de vínculos desgastados. “Pillow Fight” recupera referências do R&B dos anos 1990 para representar a intensidade da atração e o jogo de sedução com uma postura provocante. “Crash Out” aposta em sintetizadores densos, andamento lento e elementos de trap e crunk para traduzir o esgotamento provocado pelas críticas nas redes sociais e pelas pressões da indústria musical. Já “Nobody Wanna Dance Anymore” brinca com quem se recusa a ocupar a pista, incorporando uma sonoridade próxima do Nine Inch Nails e uma referência ao refrão de “Chillin’”, de Lady Gaga e Wale.

Em “Twentyfive Eight”, que aproxima o universo de Kelela de sua própria linguagem, e na faixa-título, Tinashe alcança o centro conceitual de POPSTAR ao examinar a perseguição permanente pelo sucesso e a dedicação necessária para sustentar um sonho cujo desfecho continua incerto. “Brainrot” expõe a sobrecarga e o vazio escondidos sob a superfície da fama, combinando ritmo frenético a pensamentos sobre exposição, dinheiro, amor falso e o desgaste de permanecer sob os holofotes. “Cloud 9” surge como um dos momentos mais explosivos do repertório ao fundir referências do hyperpop ao R&B para celebrar uma paixão movida pela química e por uma renovada sensação de felicidade. No encerramento, “Heavy Weight” recorre ao violão para uma reflexão direta sobre esgotamento, responsabilidade e a pressão de carregar tudo sozinha, revelando um lado especialmente vulnerável da cantora. Ao longo de POPSTAR, Tinashe evita a monotonia ao percorrer gêneros, texturas e diferentes possibilidades vocais sem perder os traços que definem sua identidade artística.

• Julia Jacklin – The Gem
(4AD)

Após anos sob forte pressão da indústria, Julia Jacklin encontrou em Melbourne a liberdade para criar The Gem, seu quarto álbum e sucessor de PRE PLEASURE. Ao longo de dez faixas, a artista combina instrumentos acústicos e elétricos, melodias vibrantes, vocais melancólicos e letras cuidadosas, preservando elementos de sua identidade musical enquanto imprime personalidade a cada composição.

A abertura com “Brand New”, um pop rock cadenciado sobre seguir em frente, estabelece o clima de recomeço do projeto, enquanto “God Sometimes” e “If I Had the Hand Of God”, balada de nuances alt-country à la Lucinda Williams e inspirada por uma viagem a Nashville, abordam questões de fé, destino e controle. Em “The Hardest Thing”, Jacklin une uma melodia pop rock dos anos 1990 a uma interpretação atravessada pelo fim doloroso de um relacionamento, enquanto “Angel Vision” aposta em uma sonoridade acústica mais delicada e intimista. “Real Life” amplia a paleta com elementos eletrônicos e texturas instrumentais, como harpa, e “Get Away From Me (I Think I’ll Love You Soon)”, conduzida por guitarras brilhantes e uma cadência moderada com referências ao pop e ao rock dos anos 1980, explora o conflito entre se entregar a um novo amor e o receio da vulnerabilidade.

“You Turned On The Tap” desacelera o percurso com piano e uma abordagem minimalista sobre a perda, enquanto “Walk On Me” ganha intensidade gradualmente ao retratar uma relação desequilibrada. No encerramento, “I Wish”, com participação do duo folk The Maes e inspirada em Crosby, Stills & Nash, recorre às harmonias vocais para construir um desfecho afetuoso e contemplativo. Em The Gem, Julia Jacklin transforma observações pessoais em melodias marcantes e encontra novos caminhos para expandir a própria sonoridade.

• M83 – I Wrote You A Letter
(M83 Recordings)

O M83, projeto liderado pelo produtor francês Anthony Gonzalez, retorna com I Wrote You A Letter, álbum coproduzido por Benoît de Villeneuve e construído com a participação de Joe Berry e Clément Libes, colaboradores de longa data. O trabalho explora uma abordagem mais atmosférica, experimental e contemplativa, reduzindo a ênfase na grandiosidade pop que marcou parte da trajetória do projeto.

A abertura, “Blister Sunrise”, apresenta essa nova direção ao combinar ruídos, distorções, os vocais etéreos de Kaela Sinclair e sintetizadores expansivos, antes de surpreender com uma incursão pelo screamo. Em “Opera”, texturas analógicas sustentam uma composição introspectiva e predominantemente instrumental, enquanto “Siren / Behold… Beasts” amplia a experimentação com saxofones, coros e transições abruptas. “Aged” desloca o registro para uma atmosfera orquestral e espacial, com uma estrutura que remete ao Sigur Rós, seguida por “Losing Ground”, que constrói sua tensão a partir do acúmulo gradual de camadas eletrônicas. Guiada pelo piano e cordas delicadas, “Soldiers of Lust” ganha contornos cinematográficos, enquanto “Heart Motion Foto” resgata a faceta mais melódica, grandiosa e sentimental do M83 em uma passagem pelo dream pop. O álbum chega ao fim com “Traces of Love”, encerrando a jornada em uma atmosfera serena, expansiva e quase celestial.

I Wrote You A Letter revela um M83 disposto a trocar parte do espetáculo por uma experiência mais livre, textural e introspectiva, sem abandonar completamente a grandiosidade que define sua identidade.

• Blondshell – Violins
(Partisan Records)

O terceiro álbum de Sabrina Teitelbaum (a.k.a. Blondshell) expande seu universo criativo ao deslocar o foco dos relatos sobre relacionamentos turbulentos para questões mais amplas da experiência humana, abordando amizades fragilizadas, espiritualidade, corpo e processos de cura, além do contraste entre a brutalidade do mundo e sua beleza. Violins articula intensidade, melancolia e teatralidade em arranjos sofisticados, guitarras expansivas e melodias marcantes, incorporando referências que passam por Gang of Four, Teenage Fanclub, The Go-Betweens e Sade.

A faixa-título equilibra delicadeza e tensão ao retratar uma relação marcada pela violência emocional e pelo desgaste, enquanto “Heart Has To Work So Hard” transforma uma amizade complicada em um explosivo momento de indie rock com ecos do grunge. “Lucky” assume uma atmosfera mais melancólica sem perder força, apoiada por piano e guitarra, enquanto “Sea Legs” acrescenta sintetizadores luminosos de inspiração oitentista ao abordar a espiritualidade a partir da possibilidade de sinais da existência de Deus. Em “New Shape”, o violão acústico conduz uma reflexão mais contida sobre traição e insegurança dentro de um relacionamento. Já “Stone Fruit” combina riffs de guitarra encorpados e bateria contida em uma narrativa visceral sobre um amor intenso, quase obsessivo. Coescrita com Samia, “Two Fried” aposta em uma sonoridade à la Paramore para introduzir leveza e ironia ao tratar de autoimagem e autoconfiança.

Na sequência, “Knotted” e “Reinstall” desaceleram o percurso com passagens mais vulneráveis e meditativas, antes de “Fur Elise” conduzir o encerramento com guitarras elaboradas a partir de elementos da clássica peça de Beethoven. A faixa retoma questões relacionadas à autonomia emocional e à identidade diante dos desafios dos relacionamentos. Violins apresenta Blondshell em uma etapa mais madura e abrangente, equilibrando vulnerabilidade, intensidade e experimentação em um retrato multifacetado das contradições da vida.

• Soft Cell – Danceteria
(Republic of Music)

O Soft Cell, dupla formada por Marc Almond e Dave Ball, retorna com Danceteria, álbum que revisita a atmosfera noturna de Nova Iorque no início dos anos 1980 por meio de uma combinação de synthpop, disco, soul e eletrônica. A faixa-título, um hino disco pop energético e festivo, presta homenagem à lendária casa noturna, em Nova Iorque, espaço que teve papel fundamental na trajetória do grupo. “Elusive” investe em uma construção mais atmosférica, “The Space Inside” mergulha nos bares e ambientes queer do Meatpacking District em uma sonoridade eletrônica sombria e escapista, enquanto “Times Square” e “The Rainbow Room” ampliam o retrato de uma metrópole marcada por clubes, excessos e personagens da vida noturna.

Entre os momentos mais provocativos, “Decadence Is Hard Work” combina vocoder e saxofone em uma produção pulsante, enquanto “In Heaven (When I Dance With You)” aproxima o trabalho de uma vertente pop mais imediata para celebrar liberdade, conexão coletiva e a euforia transformadora da pista de dança. “Crackland” explora o lado mais obscuro do projeto ao abordar os excessos associados à noite, antes de“What Is Your Morality” e “Losing Yourself” conduzirem a narrativa para ambientes introspectivos. Já “After Hours” assume uma melancolia típica do fim da noite, enquanto “Out Come The Freaks”, originalmente do Was (Not Was) e com participação de Nona Hendryx, encerra o percurso em clima festivo numa abordagem atualizada entre funk e synthpop.

Após a morte de Dave Ball, Danceteria ganha um significado especial dentro da trajetória do Soft Cell, funcionando como um registro final da parceria e da inventividade de uma dupla que ajudou a redefinir a relação entre música eletrônica, pop e cultura noturna.

• Adult DVD – Adult DVD
(Fat Possum)

O Adult DVD, sexteto de Leeds conhecido por unir a intensidade do hardcore à energia contagiante da cultura rave, apresenta seu álbum de estreia homônimo como uma explosiva combinação de dance-punk, post-punk, synthpop, electroclash e espíritos das raves dos anos 1990. Produzido pela própria banda, o trabalho cruza essa sonoridade com letras centradas em personagens excêntricos, egos inflados e situações corriqueiras, resultando em composições leves, irreverentes e carregadas de humor.

“Do As I Please” abre o repertório com batidas pulsantes e uma atmosfera que aproxima o indie rock da eletrônica, enquanto “Cowboy on Aisle Three” se destaca pela narrativa absurda e contagiante sobre um cowboy em crise. O cotidiano ganha contornos cômicos em faixas como a punk-funk “Coffin Dodger”, a pós-punk “Jesus Christ Supercar” e a dançante “The Steaks Are High”, enquanto “World’s Best Boss” transforma o ambiente corporativo em um hino dançante conduzido pelo sarcasmo característico do grupo.

“All I Need” acrescenta uma dimensão mais melódica sem abandonar o impulso rítmico, e “Ghillie Suit” retoma a atmosfera rave antes de “Rolling Face” encerrar a experiência com uma incursão pelo acid house que evoca o universo do Underworld. No conjunto, o álbum converte frustrações, neuroses e absurdos cotidianos em uma celebração irreverente, acelerada e escapista.

• Protomartyr – Hotel Usona
(Domino)

Em Hotel Usona, o Protomartyr retorna três anos após seu trabalho anterior, Formal Growth In The Desert, com um álbum que transforma os Estados Unidos em um hotel decadente, onde cada canção ocupa um cômodo habitado por figuras atormentadas. Concebido como um disco conceitual, o projeto apresenta nove ambientes distintos, cada um associado a diferentes manifestações da crise contemporânea. Ao longo do percurso, a banda combina post-punk, rock experimental, jazz e passagens de caráter quase cinematográfico, incorporando referências do Oriente Médio e da exotica dos anos 1950 para alternar momentos de tensão e estranhamento com trechos mais luminosos.

A abertura, “The Old Hotel”, estabelece o cenário por meio de guitarras melancólicas, metais e uma atmosfera de abandono, apresentando o edifício como retrato de um país dividido entre passado e presente. “Sounds We Cannot Hear”, sustentada por uma instrumentação expansiva, bateria marcante e arranjos de sopros, aborda a apatia diante do excesso de informação e do isolamento virtual. Em seguida, “Converts” reduz o ritmo para questionar a hipocrisia religiosa, a ganância e a exclusão social, enquanto “Exalted Eagles” reúne sopros melancólicos, bateria pesada e uma interpretação mais agressiva de Joe Casey ao explorar o patriotismo distorcido e o avanço do fascismo.

No centro da obra, “The Knife Dream” conduz o ouvinte a um território mais sombrio e sofisticado, aproximando trip hop, jazz e elementos orquestrais em uma das passagens mais atmosféricas do repertório, dedicada à violência presente na história dos Estados Unidos. A instabilidade prossegue em “Feed the Sewer”, uma das composições mais pesadas e estrondosas do conjunto, que critica a inteligência artificial e a disposição humana de abrir mão da privacidade e da autonomia. Já “Lavender – Gospel” confronta a desumanização dos conflitos armados mediados por tecnologias de IA, enquanto “Third Country” aborda a questão da deportação. No encerramento, “Checking Out”, com quase oito minutos, desloca o foco da crítica social para uma reflexão de Casey sobre responsabilidade e o medo de se tornar pai em um mundo atravessado pelo caos apresentado ao longo do álbum. Nas nove faixas, Hotel Usona amplia a linguagem do Protomartyr sem abandonar a combinação entre poesia sombria, tensão instrumental e retratos desconfortáveis do presente.

• Leon Bridges – Happiness Anytime
(Columbia Records)

O cantor e compositor texano Leon Bridges apresenta Happiness Anytime, seu quinto álbum de estúdio e sucessor de Leon. Produzido pelo casal J Lloyd e Lydia Kitto, integrantes do Jungle e do Loaded Honey, o trabalho amplia o repertório do artista ao combinar referências da música brasileira, do afrobeat de Fela Kuti, do soul, da disco e de diferentes ritmos sul-americanos. Ao longo da criação, Bridges concentra-se na emoção, nas narrativas e na força de sua interpretação vocal, enquanto Kitto acrescenta nuances melódicas e harmônicas e Lloyd conduz a produção, os arranjos e a identidade sonora do projeto.

“Light the Way” inaugura o álbum com metais, guitarra, sintetizadores e ritmos latinos, seguida por “Tears of Joy”, que reconhece as contradições da felicidade em um groove inspirado no afrobeat e no soul de Fela Kuti. “Illusion” aproxima referências africanas e latinas de uma mensagem de resistência diante das frustrações contemporâneas, enquanto “Your Love Is Electric” investe em uma atmosfera sensual e retrô e “Talk It Over” aposta em um soul dançante e sofisticado que poderia facilmente integrar um repertório do Jungle. A faixa-título celebra os prazeres do presente por meio de bateria, flauta delicada e vocais sobrepostos, enquanto “All Day, All Night”, com participação de Lydia Kitto, incorpora a leveza e o romantismo da bossa nova.

Em “Fly Baby”, Bridges transita pelo soft rock setentista e pelo soul com uma interpretação descontraída, antes de “Watch You Dance” conduzir o repertório por meio de uma linha de baixo marcante e uma pulsação inspirada no funk e no R&B clássico. “Take My Hand” desacelera a sequência com uma balada atmosférica de lovers rock, atravessada por elementos de reggae e dub, enquanto “Please Don’t Say Goodbye” recupera a vertente mais tradicional do soul e do R&B do artista em uma composição calorosa e elegante, encerrando o disco com uma delicada sensação de despedida.

• Murex – Inventio
(Young)

A artista sueca Murex, uma das novas contratadas do selo Young, apresenta Inventio, álbum de estreia que reúne eletrônica fragmentada, modulações harmônicas arrojadas e arranjos orquestrais intensos em dez faixas, com duração total inferior a trinta minutos. Influenciado pelo folclore nórdico e por nomes como Björk, Elizabeth Fraser e Lena Willemark, o trabalho aborda dismorfia corporal, controle e identidade a partir de uma linguagem mutável, que também incorpora referências às Invenções de Bach, estudadas por Murex ao piano durante a infância. Essa herança aparece nas estruturas polifônicas, nas camadas de voz e nas harmonias elaboradas que atravessam o disco.

“Massacre” introduz esse universo por meio de ruídos, vozes etéreas e uma base próxima do drum ’n’ bass, permitindo que “Been Here too Long” acentue a sensação de instabilidade com arranjos quebrados e melodias em constante movimento. “Hardness Of A Silverspoon” aproxima trompete, órgão sombrio e canto suave em uma atmosfera inquietante, marcada por ecos de Vespertine, de Björk, enquanto “Biased” preserva esse caráter enigmático ao colocar uma interpretação sutil diante de uma produção ousada. Já “Puddle” utiliza clarinetes e texturas sintéticas para retratar o desejo de desaparecer emocionalmente dentro de outra pessoa.

Em “Flock Of Swans Fly in V’s”, memórias de infância ganham forma por meio de harmonias celestiais e koto, evocando a beleza do voo dos cisnes. Enquanto “Muzak” transforma piano, glitches e camadas vocais em uma passagem hipnótica, “Mothers Bells” recorre aos sinos da casa materna como metáfora para memória, orientação e reconciliação. No encerramento, “Inventio” articula cordas frenéticas e passagens contemplativas, sintetizando a busca por liberdade e a tensão entre beleza e estranhamento que atravessam todo o álbum.

• Bullion – Nearly
(Ghostly International)

Dois anos depois de Affection, o produtor, cantor e compositor Nathan Jenkins (a.k.a. Bullion) retorna com Nearly, um registro mais introspectivo e autoral. A extensa rede de parcerias que acompanhou sua trajetória na última década, incluindo nomes como Nilüfer Yanya, Westerman, Ben Howard e Oliver Sim, do The xx, perde espaço para uma abordagem centrada em sua própria voz. Após dividir os vocais com Carly Rae Jepsen e Panda Bear no lançamento anterior, Jenkins aparece praticamente sozinho ao longo do novo material, que reserva à L Devine as únicas participações, em “Francis Ford” e “The Arm of Cinderella”.

A abertura com “Very Few Inspirations” estabelece um clima contemplativo por meio de arranjos enxutos, sobreposições vocais e uma delicada sensação de tristeza. Em “Roo”, batidas eletrônicas e ecos dos anos 1980 acompanham uma narrativa sobre desejo, insegurança e vínculos afetivos. A instrumental “OK Parsley” amplia o caráter experimental da sequência, enquanto “Young Shiver” cria intensidade a partir de sintetizadores irregulares e um ritmo que se desenvolve gradualmente. Em “Forget Performer”, guitarras leves, camadas aéreas e cordas conferem maior densidade sentimental à composição.

A parceria com Ethan P. Flynn em “Applegene”, um número instrumental, acrescenta guitarras próximas do shoegaze, e “I’m Not Hooligan” aborda o desgaste provocado pelo tempo em uma construção sonora elegante e contida. Por fim, “101 Damnations” conduz o encerramento com melodias marcantes, guitarras e elementos de synthpop. Longe de depender de momentos grandiosos, Nearly constrói seu impacto através de nuances, contrastes e alterações quase imperceptíveis, encontrando beleza justamente na economia dos arranjos e na maneira como pequenas mudanças transformam cada composição.

• Smidley – Murphy Horse
(Royal Mountain Records)

O músico Conor Murphy apresenta o terceiro trabalho sob o nome Smidley, em um momento no qual a trajetória de sua banda Foxing segue em pausa por tempo indeterminado. Em Murphy Horse, o artista transforma dúvidas, inseguranças, questionamentos sobre carreira, amor e vida pessoal em uma jornada de autoconhecimento, tendo os vínculos afetivos como uma espécie de porto seguro. Diferentemente dos trabalhos anteriores, mais próximos do indie folk, o álbum expande seus horizontes com guitarras, sintetizadores, baixos pulsantes, harmonias vocais e arranjos grandiosos que percorrem o indie rock, o shoegaze, a new wave e o rock dos anos 1980.

“Corpse Flower” inaugura o percurso com uma atmosfera dramática e vocais em falsete, preparando o terreno para “Capstone”, parceria com Lucy Dacus que aposta no humor e na energia para enxergar o amor como uma das maiores conquistas da vida. A faixa-título mergulha em um synth-rock de tons sombrios para questionar a dedicação excessiva ao trabalho, interrompida pela presença da esposa nos versos. Em “Love In Every Direction”, guitarras, ritmo dançante e interpretação intensa acompanham a angústia de alguém incapaz de perceber o carinho que o cerca. “Today Was A Wash” traduz um período de imobilidade e desgaste emocional com ecos de The Cure, ao passo que “Friendly’s” incorpora jazz e funk a um cenário simultaneamente triste e eufórico, retratando o conflito entre contentamento e impulsos autodestrutivos. Com referências ao pop rock oitentista, “People Like You” descreve um encontro atravessado por afinidade e expectativa amorosa. Em “Robin Egg”, a participação de NNAMDÏ conduz uma composição de impulso indie folk, centrada na tentativa de permanecer no presente e reconhecer o valor do tempo. O intimismo ganha ainda mais espaço em “Nearer To You”, antes de “Old Things Never Die” encerrar o disco com uma abordagem mais vigorosa e orientada ao rock.

No fim, Murphy não apresenta soluções fáceis para suas inquietações. Em vez disso, reconhece que propósito, dor, memória e expectativa fazem parte de um processo contínuo, no qual seguir adiante talvez seja a única resposta possível.