gabre explora o cotidiano e a experimentação no álbum ‘arquipélago de ilhas surdas’

Gabre / Renato Chorão

O multi-instrumentista, compositor e produtor brasileiro radicado em Portugal Gabriel Fetzner (a.k.a. gabre) lança o álbum arquipélago de ilhas surdas, sucessor de don’t rush greatness e tocar em flores pelado, inteiramente produzido e mixado pelo próprio artista, com masterização assinada por Olímpio Machado.

“O dia a dia sempre foi a matéria-prima do que eu faço. Acredito que o cotidiano é muito mais convidativo e intrigante do que costuma parecer à primeira vista. Todos os acontecimentos dos meus últimos três anos – os bons, os ruins, os absurdos e os que quase passaram despercebidos – estão refletidos neste disco”, revela gabre sobre a narrativa que atravessa ‘arquipélago de ilhas surdas’. “É um trabalho muito intenso pra mim, porque nasceu desse acúmulo de pequenos e grandes momentos que foram me atravessando. Minha vontade era trazer essa intensidade para perto do ouvinte, como se ele pudesse tocar esses momentos e se reconhecer nelas de alguma forma. Não é um álbum sobre grandes histórias, é sobre o que acontece quando ninguém está olhando”, ele diz.

A faixa instrumental “chinese classics”, que abre o álbum, apresenta uma intensa disputa entre acordes de piano, guitarras e uma percussão marcante, criando uma atmosfera onírica que destaca o experimentalismo de gabre. “lisboa completamente debaixo d’água” é um encontro de bossa, fado, pop psicodélico e surf music, como se fosse fruto de um encontro imaginário entre Animal Collective e The Beach Boys, num relato melancólico sobre perdas e frustrações, mas com lampejos de esperança e uma serena aceitação da realidade. Já “i’m just like”, cantada em inglês e com uma sonoridade dream pop lisérgica, expressa uma mistura de gratidão pela vida e relacionamentos, mas também revela inseguranças pessoais.

“crime e carinho” constrói uma paisagem sonora que mistura indie pop e eletrônica, combinando sintetizadores atmosféricos com guitarras melódicas – em contraste com a voz suave de gabre -, retratando um estilo de vida despreocupado e hedonista. Já “jesus is not around”, impulsionada por um sample encantador de “Giving Up the Gun” (do Vampire Weekend), flerta com o dream pop e o shoegaze em doses sutis, abordando temas como ausência, culpa e perdão em seus versos.

“o tempo é delicado” dialoga com um indie rock mais convencional, onde gabre canta um profundo cansaço existencial e a complexidade de um relacionamento marcado por erros repetidos e arrependimento. “nós vamos te amar para sempre”, uma peça intimista e melancólica que se traduz sobretudo pelo piano, transmite acolhimento e resiliência, enquanto “quando vejo o meu amor” é o relato de um dia difícil e solitário de uma pessoa que enfrenta problemas financeiros e emocionais, mas encontra conforto e propósito no amor que sente por sua parceira – uma torcedora tricolor. Por fim, “matter is divine and light is a kiss” encerra o álbum com um mantra que dá nome à faixa, trazendo a redenção de um eu-lírico que sofreu, mas também seguiu em frente. Ao final, ele se encontra em paz, com os pés fincados na areia e uma batida brasileira ao fundo, compreendendo que a saudade é, também, uma bússola para o caminho a seguir.

Em relação ao processo de gravação do disco, gabre conta que o registro marca uma transição estética importante.

“Nos álbuns anteriores, eu focava mais na liberdade da inspiração e deixava a parte técnica mais solta, sem me preocupar tanto com os detalhes. Já nesse trabalho, eu busquei um equilíbrio entre a intensidade da inspiração e a precisão técnica. O uso dos samples, por exemplo, foi mais profundo e intencional — eles passaram a ser a base do álbum. Cada sample foi escolhido com muito cuidado, e eu passei a maior parte do tempo trabalhando neles, pesquisando e entendendo o lugar de cada um dentro do som que eu queria criar. Ao mesmo tempo, esse disco traz momentos de indie rock mais direto, mas ainda dentro do universo experimental, criando uma combinação entre complexidade e simplicidade”.