Bookend transforma despedidas e recomeços em grooves calorosos no EP de estreia

bookend / Divulgação

A dupla londrina bookend, formado pela vocalista brasileira Michelle Ricciardi e o produtor japonês Masaaki Yoshida, lança o EP de estreia Hi, hi not goodbye. O compacto reúne quatro faixas, incluindo o single de estreia, “30 Degrees”, e a sucessora, “vinyl on the wall”, que anteciparam o trabalho.

Amigos há quase dez anos, a cantora e o produtor iniciaram a parceria quando Michelle participou de uma faixa do Anchorsong, projeto solo de Masaaki. Dessa colaboração nasceu “The Ocean”, que alcançou milhões de reproduções nas plataformas de streaming e impulsionou a criação do bookend.

Hi, hi not goodbye aborda as consequências de um romance, o distanciamento afetivo e o processo de reencontrar a própria identidade após uma relação inadequada. Por meio de cenas cotidianas, experiências urbanas, solidão e introspecção, o trabalho observa aquilo que permanece depois de uma separação. Embora as letras sejam marcadas por desilusões e reflexões pessoais, a produção aposta em grooves calorosos, ritmos vibrantes e melodias luminosas, conduzidos por uma atraente sensibilidade pop. Esse contraste reforça uma das principais ideias do EP: a vida dificilmente desperta apenas um sentimento por vez, e até mesmo a perda pode conviver com momentos de alegria.

Em “30 degrees”, faixa de abertura e composição mais dançante do repertório, a dupla utiliza a metáfora de um lençol e uma máquina de lavar para retratar uma pessoa emocionalmente manipulada e silenciada dentro de uma relação. Dividida entre o fascínio e o cansaço, a personagem encerra a narrativa com uma ironia que expõe a normalização desse desgaste. “Mas me ensina, como é que eu tiro as rugas dos lençóis sem ter que passar roupa?”, canta Michelle em português no último verso.

Em seguida, “Lighthouse” apresenta uma mudança de perspectiva, na produção com atmosfera marítima, percussão acolhedora e vocais sedutores. A imagem de um farol representa a atração inesperada por alguém novo e a possibilidade de construir um futuro diferente. Apesar das inseguranças, o símbolo funciona como orientação em meio à incerteza, apontando para uma pequena esperança e um possível caminho adiante.

“summer love” revisita questões que permaneceram sem solução, conduzidas por uma melodia flutuante e uma atmosfera veranil. A composição trata de despedidas incompletas, dúvidas sem resposta e do ressentimento acumulado após o término. A pergunta recorrente “where did you go?” (“onde você foi?”) expressa menos a procura por uma pessoa e mais a necessidade de compreender o que aconteceu. Os versos em português ampliam o tom nostálgico e reforçam a lembrança de um envolvimento encerrado sem uma conclusão clara.

“vinyl on the wall”, faixa que encerra o compacto, combina pop eletrônico, batidas de UK garage e os vocais sussurrados de Michelle para retratar o afastamento silencioso de um casal preso entre a convivência e a falta de conexão. Os versos em português intensificam essa sensação ao sugerirem que, nos sonhos e no amor, não existe espaço para metades. A repetição de “my absence” (“minha ausência”) soa, ao mesmo tempo, como acusação e confissão, enquanto cenas cotidianas, como sair para passear com o cachorro e não voltar, expõem fugas disfarçadas de rotina. O vinil pendurado na parede, que dá nome à faixa, surge como a metáfora central da narrativa: algo criado para tocar, ecoar e gerar vida, mas que agora está reduzido a um enfeite silencioso.

Entre perda, esperança, lembranças e autoconhecimento, Hi, hi not goodbye examina aquilo que permanece quando um sentimento se transforma, as memórias que continuam nos moldando e os pequenos sinais de clareza que ajudam a seguir em frente.