
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Ravyn Lenae, Man/Woman/Chainsaw, Overmono, Coupdekat, Dinner Party, Margaret Glaspy, Ela Minus & Nick León, Fana Hues e The Anchoress.
• Ravyn Lenae – Blue Island
(Atlantic)
Em Blue Island, a cantora Ravyn Lenae abandona as narrativas centradas em personagens para adotar uma abordagem mais pessoal, voltada a romances, términos, desejo e amadurecimento. Para Lenae, o trabalho marca uma fase de maior segurança e liberdade criativa, na qual desafia expectativas ligadas à identidade e às divisões convencionais entre R&B e pop para afirmar uma linguagem sonora própria.
“Handle” combina sensualidade, referências ao pop dos anos 1980 e guitarras de inspiração grunge ao retratar uma paixão avassaladora, enquanto “Familiar Dreams” recorre ao soul retrô para imaginar o reencontro com alguém do passado depois de anos de distância. “Never Let Me Go” mergulha no R&B noventista ao expressar a vontade de transformar uma conexão amorosa em algo duradouro, ao passo que “Sew Me Back Together” incorpora elementos do mesmo período a influências de funk e blues.
“In & Out” aposta no indie pop para abordar a disposição de amar novamente apesar dos riscos, enquanto “Potential” parte de melodias delicadas que, aos poucos, se desfazem em ruídos e distorções eletrônicas. “Reputation”, parceria com Dominic Fike, surge como uma balada acústica sobre um vínculo fragilizado por mentiras e inseguranças, enquanto “Babygirl”, com participação de Doechii, aproxima o R&B noventista do hip hop em uma composição que poderia integrar um disco dos Fugees. “Saturday Night” mistura eletrônica e funk oitentista em grooves nostálgicos que remetem às produções de Blood Orange, enquanto “Bobby” equilibra emoção e energia num rock suave sobre o desgaste e as incertezas que antecedem o fim de uma relação.
“Barriers” explora atração e contato físico por meio de uma produção eletrônica inspirada nas décadas de 1990 e 2000, evocando Michael Jackson, All Saints e as texturas associadas a William Orbit. “Find It One Day” transforma uma separação em despedida sob a atmosfera de uma balada R&B dos anos 1980, enquanto “Let Us In” encerra o disco com um eletropop dançante de batidas distorcidas, celebrando um fim de semana entre amigos no qual as preocupações são deixadas temporariamente de lado.
Ao percorrer diferentes épocas e referências sem perder sua personalidade, Blue Island revela uma Ravyn Lenae mais segura, expansiva e disposta a transformar experiências pessoais em novas possibilidades musicais.
• Man/Woman/Chainsaw – Cannonball
(A Fiction)
Em Cannonball, álbum de estreia do coletivo de art-punk Man/Woman/Chainsaw, a banda explora uma sonoridade expansiva, cinematográfica e vigorosa, marcada por arranjos pouco convencionais, estruturas imprevisíveis e refrões de forte impacto. A combinação orgânica entre teatralidade e sinceridade crua revela o alto grau de elaboração das composições, afiadas ao traduzir com rara precisão a confusão, a ansiedade e as pressões vividas entre a adolescência e o início da vida adulta.
Faixas como “Get Up and Dance” e “Canyons” se desenvolvem a partir de densas camadas de sintetizadores, violinos, guitarras e vozes, enquanto “Something Else To Give” aproxima folk e pop ao abordar a falta de reciprocidade amorosa. Já “Flick Of The Wrist” assume a forma de um tango punk maquiavélico para expor uma traição que leva ao rompimento. Em contraste, “Lighter” reduz a instrumentação ao piano e à bateria, criando um dos trechos mais delicados do repertório ao celebrar uma relação que traz leveza e segurança. Já “Goddamn, Lizard Man!” combina rock ’n’ roll cru e experimental com cordas e teclados expressivos para satirizar personalidades tóxicas e o fascínio contraditório que elas podem exercer, além de revelar referências que passam por Captain Beefheart e Nick Cave.
Por sua vez, “Nosedive” evoca LCD Soundsystem e Arcade Fire ao reunir art-rock, sintetizadores, bateria e cordas em uma progressão crescente que retrata a superação de uma desilusão amorosa e a busca por um novo começo. Cannonball transforma inquietações geracionais em um trabalho ousado e coeso, consolidando uma identidade própria entre intensidade, vulnerabilidade e experimentação.
• Overmono – Pure Devotion
(XL Recordings)
No álbum Pure Devotion, sucessor de Good Lies, os irmãos Ed e Tom Russell, do Overmono, aprofundam sua relação com a eletrônica a partir de uma abordagem marcada pela curiosidade e pela liberdade criativa. Ao longo de 11 faixas, a dupla expande seu repertório de estúdio com técnicas experimentais e recursos pouco convencionais, recorrendo a sintetizadores das décadas de 1970 e 1980, a um antigo alto-falante utilizado em estações de trem e até ao aquecimento de um prato de bateria no forno para modificar seu timbre. As participações de John Joseph Holt, Mahalia, Jaz Karis, Kindora e Ruthven acrescentam uma dimensão humana a um trabalho conduzido sobretudo pela emoção, pela inventividade e pelo cuidado artesanal.
“Lockup” abre o disco com percussões distorcidas, recortes vocais e um sample de “What A Waste”, da banda cult Fast Relief, enquanto “Slowmotion” amplia essa atmosfera instável por meio de batidas deslocadas e sintetizadores em constante transformação. Com participação de Kindora, descoberta pelo grupo no Bandcamp e anteriormente sampleada pelos irmãos, “Even Angels Ghost” une vocais acolhedores à energia da pista. Já “Barum” segue por uma direção mais delicada e atmosférica, enquanto “Mialon”, com Jaz Karis e Mahalia, aproxima o projeto do R&B em uma composição calorosa sobre dúvidas e afastamento afetivo.
Em “Adre”, falhas e limitações técnicas passam a integrar a estética etérea e fragmentada da composição, ao passo que “Knight In Shining Prada” adota um tom mais emotivo ao tratar de luto e ausência com a participação do poeta John Joseph Holt. Já os vocais soul de Ruthven encontram espaço na produção melódica e pulsante de “Gem Lingo (ovr now)”, enquanto “Laxbrook” é uma reinterpretação da clássica faixa “Redbrook” do Truss (projeto de Tom Russel). No desfecho, “After The Rain” reduz o ritmo e cria uma atmosfera delicada e contemplativa ao samplear duas faixas da dupla norueguesa Smerz, sintetizando uma obra que transforma experimentação, imperfeições e tecnologia em recursos para expressar afeto e entrega.
• Coupdekat – Goodbye 2012!
(Coupdekat / Apollo)
Em seu álbum de estreia, Goodbye 2012!, a artista londrina Katherine Reilly (a.k.a. Coupdekat) resgata a nostalgia da Internet dos anos 2000 e do início da década de 2010 para criar um pop eletrônico vibrante, inspirado por uma época anterior ao domínio dos algoritmos, à pressão das redes sociais e à exposição constante. Ao incorporar referências de eletroclash, vaporwave e synthwave, o disco também presta homenagem a nomes como SOPHIE, Charli XCX, Erika de Casier, M.I.A. e A. G. Cook.
Entre os destaques aparecem “i still think about the band”, que parte das recordações de um grupo da adolescência para refletir sobre sonhos e caminhos abandonados, a colaboração com NATHALIA em “money”, a dançante “mwah” e “kisses”, faixa minimalista marcada por texturas eletrônicas que remetem a SOPHIE e experimentações associadas à banda dinamarquesa haloplus+. Com melodias imediatas, arranjos dinâmicos e forte impulso de pista, Goodbye 2012! amplia a linguagem ousada que Coupdekat vinha desenvolvendo em seus lançamentos anteriores, transformando referências do passado em uma expressão inventiva sobre amadurecimento e novos caminhos.
• Dinner Party – Watchu Bringing?
(Sounds of Crenshaw / EMPIRE)
O supergrupo Dinner Party, formado durante a pandemia pelo saxofonista Kamasi Washington, o pianista Robert Glasper e os produtores Terrace Martin e 9th Wonder, volta a unir jazz, soul e hip hop em Whatchu Bringing?, preservando a sintonia espontânea e o clima acolhedor apresentados no álbum de estreia e em Enigmatic Society. O trabalho começa com “Stop Being Late”, guiada pelo poeta e artista de spoken word J. Ivy, que aborda os períodos difíceis enfrentados ao longo da vida sobre uma base destacada pelo saxofone. Na sequência, “If It Ain’t Broke (Love Wins)” combina os teclados de Glasper ao falsete de Phoelix em versos voltados ao reconhecimento do próprio valor. “Stargazing” e “Breakfast at Sharkey’s” ampliam a paleta sonora com sintetizadores espaciais, funk, neo soul, baixo encorpado e detalhes expressivos de guitarra. Em “Just My Type”, Phoelix assume uma narrativa romântica sustentada por estalos de dedos, piano pulsante e sax melancólico, enquanto “I’m Yours” reafirma a fidelidade à parceira. Já “Peace of Mind” encerra o repertório ao transformar um sample vocal do Hiatus Kaiyote em uma passagem concisa e intrincada. Ao longo de Whatchu Bringing?, o quarteto reforça a ideia de que, acima de qualquer contribuição material, afeto, presença e cuidado são elementos essenciais para fortalecer os vínculos entre as pessoas.
• Margaret Glaspy – I Am Both
(ATO Records)
Em seu quarto álbum de estúdio, I Am Both, a cantora e compositora Margaret Glaspy abandona expectativas externas para assumir suas próprias contradições em 11 faixas concebidas após um período distante das redes sociais, pausa que ampliou sua clareza e independência criativa. Produzido por Joe Henry (Aimee Mann, Joan Baez) e gravado quase inteiramente ao vivo, o trabalho percorre indie rock e folk por meio de histórias íntimas, ficcionais e sociais. Entre os destaques estão a balada “Michigan”, sobre uma fuga motivada por desilusão amorosa, “That Rose”, atravessa por saudades e desejo, além de “Common Ground”, que questiona o impulso de idealizar alguém para depois rejeitá-lo. Em “Martin Luther King Jr.”, Glaspy recupera pensamentos do ativista dos direitos civis ao examinar questões contemporâneas, enquanto “Reminder” reconhece que a esperança, por si só, não basta e que avançar também exige encarar feridas, admitir falhas e defender o que considera essencial. Já a faixa-título encerra o disco com uma observação poética sobre dualidades afetivas e humanas, sugerindo que coragem e crueldade podem coexistir em uma mesma pessoa. Ao converter conflitos, ambiguidades e imperfeições em força expressiva, I Am Both reafirma a liberdade de Glaspy para construir sua identidade sem se prender a definições rígidas.
• Ela Minus & Nick León – qué les pasó a mis amigos?
(Smugglers Way)
Ela Minus e Nick León transformam afinidades criativas e inquietações pessoais no EP colaborativo qué les pasó a mis amigos?. Concebido após um encontro na Cidade do México em 2024, o projeto une a eletrônica sensível da artista colombiana às batidas direcionadas à pista do produtor de Miami para explorar desgaste emocional, afastamentos, perdas e a necessidade de seguir adiante. Com três faixas originais e três remixes, o trabalho é apresentado por “espiral”, composição guiada por percussão pulsante, sintetizadores imersivos e vocais que oscilam entre delicadeza e intensidade. O resultado revela uma parceria coesa, capaz de converter tensões íntimas em uma experiência eletrônica densa, envolvente e carregada de emoção.
• Fana Hues – Catch n’ Release
(Sweet Virtue)
Em Catch N’ Release, a cantora e compositora de soul e R&B Fana Hues usa a pesca como metáfora para seguir a curiosidade, confiar no instinto e perceber o que merece ser preservado ou abandonado. Primeiro projeto solo desde Moth (2024), o EP deixa parte da introspecção dos trabalhos anteriores para trás e assume uma postura mais livre, espontânea e divertida, sem perder a carga emocional nem o refinamento de sua identidade artística. Desde a estreia com Hues (2020), a artista ampliou sua projeção com participações em “Sunday’s Best”, ao lado de Doechii, e “SWEET / I THOUGHT YOU WANTED TO DANCE”, com Tyler, The Creator e Brent Faiyaz, firmando seu nome entre os destaques do R&B contemporâneo.
“Drip” aposta em uma combinação de soul e R&B de andamento fluido, com ecos das produções de Janelle Monáe, para tratar de desejo, atração e expectativas frustradas com sensualidade e humor. Já “Recognize” une melodias delicadas, arranjos discretos e lirismo preciso em uma reflexão sobre autoconhecimento e amadurecimento, enquanto “Sweet n’ Sour”, balada marcada por elementos acústicos próximos do folk pop, percorre as oscilações de uma relação entre distanciamentos, reencontros e revelações.
Em “From Him”, desculpas perdem o valor diante de promessas não cumpridas. “Red Wine Holiday” aproxima soul, pop e R&B em um clima íntimo e sedutor, valorizando a interpretação magnética da cantora, enquanto “Stowaway” encerra o repertório com timbres aveludados, instrumentação orgânica detalhada e uma atmosfera suave de inspiração neo soul. Catch N’ Release reafirma a habilidade de Fana Hues em transformar experiências afetivas em canções sofisticadas, equilibrando leveza, vulnerabilidade e liberdade criativa.
• The Anchoress – As We Once Were
( Catherine Anne Davies / Last Night From Glasgow)
As We Once Were, terceiro disco de estúdio de The Anchoress, projeto de art-pop comandado pela artista e produtora Catherine Anne Davies, chega após The Art Of Losing (2021) reunindo 14 composições sobre maternidade, traumas familiares, luto e a herança de quatro gerações de mulheres. Desenvolvido no Black Lodge Studios com acesso ao acervo de sintetizadores analógicos de Pete Townshend, o trabalho tomou forma durante uma fase atravessada pelo nascimento do primeiro filho de Davies e pela descoberta de uma antiga gravação com a voz de sua avó. O repertório inclui colaborações com Hannah Peel e Gwenno, esta última em “I Had A Baby Not A Lobotomy”, que converte as dificuldades da experiência materna em um synthpop sombrio, além de James Dean Bradfield, do Manic Street Preachers, responsável por vocais e guitarra em “Throw Over Your Man”, inspirada nas cartas de amor entre Virginia Woolf e Vita Sackville-West, e Eaves Wilder, que divide “Damsels”, marcada por tensão e transformação. Com esse conjunto de referências e vivências, As We Once Were consolida a habilidade de The Anchoress de transformar passado, ausência e crescimento em uma obra inventiva e profundamente humana.



