
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Fine, Michael Kiwanuka, Art d’Ecco, Caroline Rose, Anderson .Paak & Cordae, TRÍADA, Alchemical Sisters e Gus Dapperton.
• Fine – Jazz dreams
(Escho)
A produtora, multi-instrumentista e compositora dinamarquesa Fine, ex-integrante do CHINAH, apresenta seu segundo álbum, Jazz dreams. Produzido, gravado e mixado pela própria artista, o trabalho reúne 13 faixas que entrelaçam cenas, histórias e ideias musicais em uma experiência onírica, conduzida por associações livres e impressões emocionais, sem seguir uma narrativa linear. Entre as referências que inspiram o repertório estão a estética de colagem de Paul’s Boutique, do Beastie Boys, as melodias de Carole King e a diversidade sonora da discografia de Scott Walker. Sob uma perspectiva fragmentada, Fine transforma essas influências em novas possibilidades criativas, explorando texturas e sensações que transitam entre o familiar e o inesperado.
A faixa de abertura, “The thing”, estabelece o caráter intimista do disco, enquanto “If you wanna come down” percorre caminhos melódicos e versos sobre a imprevisibilidade da vida. Já “I could” explora a tensão de um possível encontro por meio de uma atmosfera hipnótica e sensual. Em “Goodbye brain”, a leveza instrumental evoca o universo sonoro do Mazzy Star, enquanto “Get in” aborda a solidão urbana e a necessidade de conexão humana com elementos de rockabilly. Na sequência, “Any minute” traduz a expectativa pela chegada de alguém capaz de trazer luz à vida. A inquietação rítmica de “Million years” acompanha o desejo de eternizar um momento de intimidade amorosa, em contraste com o clima atmosférico e ameaçador de “Sometimes I rush”. Mais adiante, “Run” aprofunda a dimensão sonhadora do álbum, com ecos da nostalgia dos anos 1990, enquanto “Moment” reforça seu caráter contemplativo.
Entre os destaques finais, “Everything in the shade” apresenta uma balada delicada ao piano, que flerta com as atmosferas de Lana Del Rey e Hope Sandoval ao abordar o afeto e a esperança de reencontrar alguém especial após períodos difíceis. Por sua vez, “Portal” investiga as ambiguidades dos relacionamentos em meio a guitarras minimalistas e um solo de flauta que evoca lembranças. O encerramento fica por conta de “Much to say”, que presta homenagem à escritora Clarice Lispector, admirada pela artista, ao incorporar o verso “atrás do pensamento não há palavras”, em inglês, do livro ‘Água Viva’. Com piano e baixo conduzindo a despedida serena, Fine sintetiza a essência de Jazz dreams em uma obra que valoriza a espontaneidade, as sutilezas dos sentimentos e a liberdade de transformar referências em paisagens sonoras próprias.
• Michael Kiwanuka – FUDGE
(Polydor / Universal)
Em FUDGE, seu quinto álbum de estúdio, Michael Kiwanuka investe em uma abordagem mais espontânea e intimista, aproximando o soul psicodélico de elementos do folk, do rock setentista e de arranjos orquestrais. Com 12 faixas produzidas pelo próprio artista, desta vez sem a participação de seus colaboradores habituais Danger Mouse e Inflo, o disco foi concluído antes de um AVC e de uma lesão cerebral que levaram ao adiamento do lançamento por quase um ano. Entre guitarras aveludadas, órgãos, sintetizadores atmosféricos, baixos envolventes e vocais expressivos, o músico apresenta composições que percorrem a melancolia, o amor, as incertezas e a busca por liberdade criativa.
Em “Summer Clothes” , faixa de abertura, Kiwanuka combina teclados delicados e interpretação suave para refletir sobre o poder da arte e a necessidade de superar um relacionamento doloroso, deixando para trás vínculos sem reciprocidade. “California” aposta no lirismo melancólico, acompanhado por cordas e teclas sutis, enquanto “Just Another Moment” acelera o pulso com uma percussão ágil e aborda o receio de se abrir emocionalmente. Já “Drowning In Your Heart” privilegia uma instrumentação minimalista para retratar o amor por alguém que enfrenta conflitos internos. Em “Love In My Heart”, a voz do cantor se entrelaça a arranjos de cordas e nuances psicodélicas em uma composição marcada pela espontaneidade do improviso. Na sequência, “Across The Sky” reduz os elementos instrumentais a uma reflexão acústica discreta, com ecos de Elliott Smith, sobre a mortalidade e o legado artístico.
Em “Stars” riffs encorpados de guitarra contrastam com cordas elegantes em uma narrativa sobre a perda da paixão pela música e o desejo de escapar da realidade. Por sua vez, “You Sent Me Flying” combina violão dedilhado e texturas que se desenvolvem gradualmente, criando um ambiente acolhedor, antes de “Move In My Direction” expressar a vontade de reconquistar um amor perdido. “Steve’s Paradise” segue por um folk contemplativo, enriquecido por camadas vocais e intervenções de órgão Hammond, enquanto “Sing” ganha intensidade com um refrão expansivo e uma interpretação vulnerável sobre o medo de perder alguém e a esperança de enfrentar as dificuldades a dois. Para encerrar, “Swings and Roundabouts” preserva o romantismo e a atmosfera intimista do repertório, reafirmando a sensibilidade de Kiwanuka em um trabalho que transforma fragilidade emocional, introspecção e liberdade artística em canções profundamente humanas.
• Art d’Ecco – Scheele’s Green
(Paper Bag Records)
O canadense Art d’Ecco deixa de lado os disfarces que marcaram seus trabalhos anteriores para adotar uma abordagem mais direta em Scheele’s Green. No álbum, o músico aborda questões contemporâneas como inteligência artificial, crise climática e tecnocracia, inspirado em referências literárias e no pigmento tóxico do século XVIII que dá nome ao projeto. A partir dessa premissa, ele constrói uma reflexão sobre a dependência de sistemas potencialmente nocivos, traduzida em uma sonoridade enérgica que aproxima art-rock, post-punk e garage rock.
Com sete minutos de duração, “The Death of Indie” abre o repertório com improvisações experimentais inspiradas em Miles Davis, que evoluem para um manifesto rock contra o avanço tecnológico, o poder das grandes corporações e a perda da autonomia humana e dos espaços culturais. Na sequência, “Like Trilby” explora uma atmosfera de chamber pop psicodélico para refletir sobre a preservação da memória de alguém injustiçado pelo tempo. Já “Catch 22” reivindica espaço em meio às pressões comerciais, combinando ritmos sobrepostos até culminar em um desfecho explosivo. “How Real is Real?” intensifica o discurso com riffs pulsantes de garage rock e questionamentos sobre conflitos políticos e humanitários. Em contraste, “The Wolf” apresenta uma melodia mais leve para retratar as feridas emocionais de alguém que busca liberdade e enfrenta o próprio passado, enquanto a faixa-título une a urgência do rock clássico a elementos de jazz para abordar uma pessoa consumida pela própria realidade.
Em “Disappear Here”, distorções, saxofone e melodias envolventes sustentam uma crítica à busca incessante por visibilidade em uma sociedade que assiste ao desaparecimento da arte e da cultura. “Break & Enter”, por sua vez, denuncia a violência e as falhas de um sistema que abandona pessoas vulneráveis, enquanto “Beware of Dog” retoma a intensidade roqueira para expressar revolta contra a desumanização e a automação. Por fim, “Endings for Beginners” parte de teclados ameaçadores e culmina em uma explosão de rock, transformando o medo do fim do mundo em uma busca por recomeço por meio da música. Scheele’s Green marca uma transformação artística para d’Ecco, que substitui parte da nostalgia estética dos trabalhos anteriores por uma sonoridade mais crua, ambiciosa e urgente.
• Caroline Rose – Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall
(SUCK records)
Caroline Rose apresenta seu sétimo álbum de estúdio, Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall, pelo recém-criado selo independente SUCK Records. Produzido por John Congleton, o trabalho combina guitarras distorcidas, surf rock e referências às trilhas sonoras dos faroestes spaghetti para transformar situações cotidianas em retratos irônicos, absurdos e surreais da vida contemporânea nos Estados Unidos.
“Yip Yip Yow” mistura psychobilly, alt-country, garage rock e pop em uma composição crua, divertida e caótica. Já “Chow Mein” transita entre americana, rock alternativo e pop para narrar uma noite desastrosa e a tentativa frustrada de manter a calma em meio à confusão. Em “Valery (please don’t be mad at me)”, uma interpretação de inspiração crooner conduz uma homenagem à amizade e à perda, evocando pessoas queridas marcadas pela dependência química e por experiências dolorosas. Na sequência, “Cement Head” mergulha no garage rock, com groove sombrio, imagens grotescas e doses generosas de sarcasmo.
Em “Goddamn Train”, riffs de surf rock e explosões punk dão ritmo a uma crítica bem-humorada às pressões sociais e à interminável lista de obrigações da vida adulta. O clima muda em “Notes to Teenage Self”, faixa delicada que revisita o passado e oferece conselhos à própria juventude. Por sua vez, “Conversation with Shiv (AKA liquid k song)” explora uma mistura crua de pop e americana para retratar uma amizade antiga, atravessada por dificuldades financeiras, excessos, recordações e arrependimentos. Enquanto “Hello Again, Jim” recorre ao indie rock e à irreverência para criticar homens poderosos e tóxicos da indústria musical, “Calm” aposta na urgência rock para traduzir a agitação mental e os desafios de lidar com emoções complexas.
A energia explosiva ressurge em “RIDE (!!!)”, marcada por vocais frenéticos e guitarras incisivas que acompanham um cenário surreal de excessos, figuras excêntricas e comportamentos transgressores. No encerramento, “Everything in its Right Place” adota uma perspectiva contemplativa, com guitarras enevoadas e vocais de apoio, enquanto Rose revisita experiências positivas e dolorosas até encontrar sentido em cada uma delas.
Entre experimentações sonoras, humor ácido e confissões pessoais, Caroline Rose constrói uma crônica imprevisível das contradições humanas, equilibrando irreverência, vulnerabilidade e amadurecimento.
• Anderson .Paak & Cordae – Heavy Is The Crown
(APESHIT + EMPIRE)
Em Heavy Is The Crown, Anderson .Paak e Cordae consolidam a sintonia demonstrada em trabalhos anteriores em um álbum que transita entre o hip hop clássico, o soul, o jazz rap e a produção contemporânea. Entre momentos de humor, ostentação e vulnerabilidade, a dupla explora diferentes facetas de suas trajetórias. A abertura com “58th Floor” estabelece o tom irreverente do projeto por meio de uma narrativa cômica, enquanto “Airbender” combina rimas ágeis e arranjos orquestrais fragmentados. Na sequência, “I’m On” investe em versos incisivos sobre riqueza, apoiados por uma base sombria. Já “A Good Day” resgata referências do soul em uma atmosfera ensolarada, celebrando pequenas conquistas com menções a Bill Withers, Ice Cube e Fatman Scoop. Em “You’re Mine”, uma envolvente levada funk acompanha as lembranças de um amor de infância marcado por encontros e separações.
A nostalgia conduz “Days Go By”, que revisita as dificuldades da infância e o caminho percorrido até o presente. Em contraste, “Crown” coloca o peso do sucesso em perspectiva ao recuperar memórias das origens da dupla, com uma produção inspirada no chipmunk soul. Na reflexiva “Days Like This”, Anderson .Paak pondera sobre conquistas e escolhas responsáveis, enquanto “Karma Tax” questiona os custos e as consequências da ascensão profissional. A faceta mais vulnerável do disco surge em “Helpless”, que aborda conflitos familiares, solidão e arrependimentos. No encerramento, “Godfather II” aposta na grandiosidade de arranjos orquestrais e batidas boom bap para celebrar a parceria, a consagração artística e a superação das dificuldades financeiras do passado, além de evocar duplas lendárias do hip hop e do esporte.
Em Heavy Is The Crown, Anderson .Paak e Cordae encontram seu principal trunfo na união de rimas afiadas, carisma e relatos pessoais. O resultado é um trabalho divertido e musicalmente diverso, que equilibra a celebração das conquistas com reflexões sobre as dificuldades que marcaram suas trajetórias.
• TRÍADA – Exuvia
(Verve Records / Mercury Records)
O trio argentino TRÍADA inaugura uma nova fase com Exuvia, álbum de composições autorais que conecta diferentes tradições da música latino-americana a uma abordagem contemporânea. Produzido por Didi Gutman, conhecido por seu trabalho com Brazilian Girls e Nathy Peluso, o disco percorre referências como bossa nova, tango, candombe e chacarera, preservando a delicadeza dos arranjos acústicos e a harmonia vocal de Diamela Spina, Aylen Reynoso e Julia Percowicz. Em “Clara”, percussões, vozes entrelaçadas e influências cubanas acompanham a história de uma mulher isolada que redescobre a vida. Já “Riéndose de la Melancolía” e “Incendiada” incorporam elementos do folk e da chacarera, enquanto “Amarme” acrescenta nuances de samba ao repertório.
Em “Un Veneno”, releitura da canção de C. Tangana, o grupo substitui a atmosfera de bolero da versão original por uma interpretação mais vibrante, conduzida por violinos, bandoneón e concertina. Por sua vez, “Voy A Dejar de Venir” aposta na combinação sutil de violão e vocais para abordar o término de um relacionamento, enquanto “Noctámbula” revela o lado mais elegante e intimista do trio por meio do tango.
Ao longo das onze faixas, a TRÍADA consolida uma assinatura própria, sustentada por melodias delicadas, instrumentação orgânica e interpretações expressivas. Mais do que marcar uma estreia autoral, Exuvia simboliza uma transformação artística: após conquistar reconhecimento na Internet com releituras, as três artistas assumem o protagonismo de suas composições e afirmam sua identidade como compositoras e intérpretes.
• Alchemical Sisters – Alchemical Sisters
(Interdimensional Transmissions)
Criado por Maya Bouldry-Morrison (Octo Octa) e Eris Drew, Alchemical Sisters marca a estreia da dupla homônima, conhecida por seus sets de DJ exclusivamente em vinil. Gravado em uma cabana nas florestas de New Hampshire, o álbum aproxima psicodelia, acid house e big beat de instrumentos ancestrais, sintetizadores e toca-discos, explorando as relações entre música, espiritualidade e afeto. Após um ano de trabalho em isolamento, o projeto ganhou mixagem em um estúdio de alta tecnologia em Detroit, dando forma a uma experiência sonora intensa e envolvente, na qual a experimentação caminha ao lado da sensibilidade.
“This Is How It Should Be Done” abre o repertório com batidas eletrônicas, camadas psicodélicas, samples vocais e linhas ácidas de sintetizador. Já “We’ve Seen Great Power” evoca a atmosfera expansiva da música urbana dos anos 1990, incorporando trechos distorcidos de gaita e elementos da psicodelia eletrônica. Em “Double Acid”, percussões vigorosas e ritmos fragmentados resgatam a energia das pistas, enquanto “Anytime Sisters Slide” combina scratches e recortes sonoros em uma sequência caótica e alucinante. A herança do electro oitentista e do hip hop surge em “One 2 One 2 Three Four”, seguida pela desaceleração de “Did You Know”.
Em um momento mais contemplativo, “Song for New Hampshire” reúne texturas hipnóticas e melodias de inspiração oriental que remetem ao sitar. “Why Not Dream” encerra o disco, concluindo uma jornada que equilibra a exuberância das pistas com uma abordagem experimental e intimista. Construído a partir de equipamentos analógicos, samples e recursos eletrônicos, Alchemical Sisters revisita diferentes fases da dance music para celebrar a conexão entre as duas artistas e o poder libertador da música.
• Gus Dapperton – 4 Dear Life
(ALTER Music)
Em 4 Dear Life, Gus Dapperton transforma inquietações pessoais e a sensação de viver em um mundo em crise em um repertório que aproxima o indie pop da música eletrônica e das pistas de dança. Sucessor de Henge (2023), o álbum reflete uma fase de redescoberta artística, influenciada pelas experiências do músico na vida noturna de Nova York e pela busca por esperança em meio às incertezas. “Take Me Out To The Disco” combina guitarras indie, ritmos dançantes e vocais intensos para converter a dor em movimento, enquanto “Sweet Tooth”, com Ledbyher, explora texturas de pop alternativo e imagens açucaradas para retratar uma atração irresistível. Já “Holding On”, parceria com A-Trak, e “She Got The Funk”, com o hard life, recuperam faixas anteriormente apresentadas no projeto colaborativo de dance experimental Loose Goose. Em “Ca$h Out”, ao lado de spill tab, o artista aborda as frustrações de um relacionamento marcado por conflitos e promessas quebradas, embaladas por uma sonoridade dançante e urgente. Por sua vez, “Queen” converte o descontentamento com o cenário mundial em uma reflexão sobre a opressão masculina, as normas de gênero e a vontade de escapar das expectativas sociais. “6th Street” combina guitarras dedilhadas e batidas pulsantes para explorar os desafios de cultivar o amor-próprio em meio ao caos emocional e à autodestruição, enquanto “Twyla” encerra o disco em um registro mais delicado, com cordas suaves, ritmos intimistas e vocais acolhedores. Com participações que expandem sua paleta sonora e uma produção voltada às pistas, 4 Dear Life inaugura uma nova etapa na trajetória de Dapperton, equilibrando vulnerabilidade e energia sem abrir mão das melodias que definem sua identidade artística.



