11 discos para ouvir hoje: Sleigh Bells, Black Country, New Road, DJ Koze, Momma e mais

Sleigh Bells / Chris Vultaggio

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Sleigh Bells, Black Country, New Road, DJ Koze, Panchiko, Florist, Djo, The Ophelias, Momma, Wet, Yann Tiersen e The Waterboys.

Sleigh BellsBunky Becky Birthday Boy
(Mom+Pop)

Bunky Becky Birthday Boy, o sétimo álbum do duo Sleigh Bells, traz uma mistura de emoções e energia característica da dupla formada por Derek Miller (guitarrista e produtor) e Alexis Krauss (vocalista). O título peculiar do trabalho reflete dois momentos marcantes na vida dos artistas: a perda de Riz, a cachorra de Alexis, carinhosamente apelidada de ‘Bunky Becky’, e o nascimento de seu filho Wilder, o ‘Birthday Boy’ que inspira o nome. Mais do que uma simples junção de palavras, o registro simboliza ciclos de dor e renovação, capturando a essência de despedidas e novos começos.

O disco surge como um novo marco na trajetória do duo, mantendo a identidade sonora que os consagrou enquanto explora novas nuances. Após Texis (2021), Bunky Becky Birthday Boy apresenta guitarras cortantes, melodias cativantes e batidas intensas, começando com o impacto imediato de “Bunky Pop” – faixa que define o tom do projeto, com riffs acelerados, vocais marcantes e uma vibe eufórica que remete à alegria incondicional de um animal de estimação. A música serviu de base criativa para todo o álbum, inspirando até a criação de “Roxette Ric”, personagem fictícia que amplia a narrativa do disco.

A diversidade do trabalho transita entre baladas delicadas e hinos explosivos, como “Wanna Start A Band?”, que combina glam metal e sintetizadores afiados em uma ode às origens da parceria. Já “This Summer” mistura distorções agressivas e eletrônicos suaves, refletindo sobre a fugacidade da vida com um tom quase profético. Enquanto isso, “Badly” resgata o espírito dos clássicos anos 80, com uma pegada rebelde que lembra sucessos como “Fight For Your Right”, do Beastie Boys.

O álbum também surpreende com mudanças de atmosfera, como em “Hi Someday”, que começa com baterias frenéticas e deriva para um clima sombrio, evocando trilhas de de John Carpenter. O fechamento com “Pulse Drips Quiet” explora experimentalismos rítmicos, mesclando a energia crua do álbum de estreia, Treats, com momentos de introspecção. Embora não se proponha a revolucionar seu estilo, Bunky Becky Birthday Boy confirma que a energia visceral e a pulsação eletrizante que consagraram o Sleigh Bells seguem mais vivas do que nunca.

Black Country, New RoadForever Howlong
(Ninja Tune)

O Black Country, New Road apresenta o álbum Forever Howlong – o primeiro registro em estúdio desde a saída do vocalista Isaac Wood em 2022 -, inaugurando um capítulo renovado em sua trajetória. Produzido por James Ford (Fontaines D.C., Arctic Monkeys), o disco revela uma formação reinventada, na qual os vocais e a maior parte das composições são compartilhados entre Tyler Hyde, Georgia Ellery e May Kershaw.

Forever Howlong é uma obra meticulosa e ambiciosa, que navega entre o folk, o prog rock, o baroque pop e o alt-rock, com referências que vão desde Joanna Newsom e Randy Newman até Fiona Apple e Janis Ian. Apesar da variedade de influências, o projeto mantém uma identidade sonora coesa, harmonizando as diferentes vozes e estilos de suas três vocalistas.

Destaques incluem “Besties”, faixa de baroque pop que explora amizade, amor e a busca por preencher vazios emocionais, marcando a estreia de Georgia Ellery (também integrante do Jockstrap) como vocalista principal. Já “Socks” mescla múltiplas vertentes musicais, com arranjos inspirados em Van Dyke Parks e percussão que remetem ao álbum Fetch The Bolt Cutters, de Fiona Apple. Em “Salem Sisters”, uma balada dramática e teatral, a banda retrata uma fogueira de bruxas durante um churrasco de verão, simbolizando a perda da inocência. “Happy Birthday” combina art-rock, elementos barrocos e folk, com a voz intensa de Hyde refletindo sobre desilusões e resiliência.

A épica “For the Cold Country”, liderada por Kershaw, começa como uma canção etérea e minimalista, evoluindo para um clímax caótico e emocionante. Enquanto isso, “Nancy Tries to Take the Night” aborda questões de identidade e escolha, com uma narrativa sombria protagonizada por uma mulher grávida, acompanhada por instrumentais delicados que gradualmente ganham força com saxofone e piano.

Fechando o álbum, “Goodbye (Don’t Tell Me)” é uma balada folk rock psicodélica, que mergulha na confusão de emoções ligadas a memórias e relacionamentos passados. Entre o caos e a delicadeza, o Black Country, New Road transforma a dor em arte, propondo uma reinvenção sonora cheia de autenticidade e profundidade.

DJ KozeMusic Can Hear Us
(Pampa Records)

O produtor alemão Stefan Kozallaha (a.k.a. DJ Koze) retorna com o álbum Music Can Hear Us, sucessor do aclamado Knock Knock e de sua colaboração com Róisín Murphy em Hit Parade. A obra é descrita como uma jornada sonora cativante de 64 minutos, uma verdadeira viagem cósmica de ida e volta. A abertura, “The Universe in a Nutshell”, começa com um trecho de um poema de Rumi, seguido por uma batida sincopada que sustenta teclados etéreos, vocais distantes e acordes metálicos que remetem a um cravo eletrônico, criando uma atmosfera quase meditativa. Já “Pure Love” traz uma vibe tropical, combinando batidas eletrônicas, sintetizadores suaves e uma guitarra com nuances de flamenco, enriquecida pelos vocais de Damon Albarn.

“Der Fall” conta com a colaboradora recorrente Sophia Kennedy que canta em alemão sobre uma produção folk e new age, marcada por violão delicado, sintetizadores atmosféricos e acordes simples de piano. Enquanto isso Sofia Kourtesis imprime sua identidade latina na envolvente faixa ambiente “Tu Dime Cuando”. A releitura de “Wie schön du bist”, feita em parceria com a dupla indie folk The Düsseldorf Düsterboys, resgata uma canção dos anos 70 com influências soul, originalmente de Holger Biege. A versão mantém os arranjos de cordas e a batida suave, mas com uma interpretação vocal renovada.

Anja Plaschg, do projeto austríaco Soap&Skin, aparece na faixa pulsante “A Dónde Vas?” com versos quase falados, antes de reinventar o clássico “Vamos A La Playa” (do Righeira) em uma atmosfera sombria. Já Markus Acher, da banda alemã The Notwist, assume os vocais na introspectiva balada de eletropop “What About Us”, carregada de melancolia. “Unbelievable”, fruto da parceria entre Koze e a cantora e produtora alemã Ada, mergulha em uma eletrônica densa e onírica, equilibrando beleza e tensão. “Brushcutter” revive a energia do drum ‘n’ bass dos anos 90 com a participação de Marley Waters, enquanto “Buschtaxi” cria uma batida dançante que evoca um Tarzan em meio a uma rave na selva. Fechando o álbum, “Umaoi” traz o grupo japonês MAREWREW, que reinterpreta sonoridades tradicionais do Japão com uma melodia que remete aos anos 50, encerrando o disco com um toque nostálgico e cultural.

PanchikoGinkgo
(Nettwerk Music)

Em 2016, um internauta encontrou em um brechó de Nottingham um CD demo abandonado do Panchiko, intitulado D>E>A>T>H>M>E>T>A>L, gravado no ano 2000. Ele compartilhou a descoberta em um fórum online, gerando grande curiosidade e, aos poucos, um culto em torno da banda. Durante quatro anos, uma legião de fãs dedicados rastreou os integrantes do grupo, enquanto milhões de ouvintes se apaixonavam pelas faixas enigmáticas. Surpresos com o ressurgimento inesperado, os músicos se reuniram e iniciaram uma nova fase: saíram em turnê mundial e, em 2023, lançaram Failed At Maths , seu primeiro álbum em mais de duas décadas. Mas, depois de realizar esse sonho improvável, uma nova pergunta surgiu: o que vem a seguir? A resposta chegou com Ginkgo, um álbum de 13 faixas que explora sonoridades mais introspectivas, cinematográficas e emocionalmente densas. Destaque para “Shandy in the Graveyard”, com participação do rapper billy woods, que captura a energia juvenil da banda e a conecta com seu público atual. A música transita entre o trip hop e o folk orquestral, criando paisagens sonoras contrastantes.

A mesma autenticidade que cativou os ouvintes nas demos antigas permanece em faixas como Ginkgo”, uma reflexão sobre controle, colaboração e destino – temas que ecoam a trajetória da banda, redescoberta graças a uma mistura de sorte, talento e energia revitalizada. Em “Mac’s Omelette”, um piano fluido abre caminho para melodias sombrias, numa atmosfera que lembra Thom Yorke, enquanto os versos abordam a tensão entre a euforia da vida e o peso das responsabilidades. Já “Shelled and Cooked” conta a história de Lucy, mergulhando em sentimentos de solidão, com solos de guitarra que quebram a melancolia no momento certo.

“Lifestyle Trainers” e “Chapel of Salt” trazem a influência do rock dos anos 90, mesclada com nuances eletrônicas que complementam os vocais de Owain. “Honeycomb” evoca o pop rock dos anos 1970, com toques de “Mr. Blue Sky” do ELO e a neopsicodelia de bandas como The Flaming Lips, e MGMT. “Subtitles”, por sua vez, tem um clima acolhedor, com violão lo-fi e percussão sutil.

O álbum se encerra com “Innocent”, uma faixa sobre ciclos de autodestruição, com batida pulsante, guitarra groove e vocais em ritmo deslocado. Ginkgo marca um novo capítulo para o Panchiko – uma banda que, ao ser redescoberta, vive uma segunda juventude, revisitando até mesmo antigos sucessos como “Formula”, mas com a maturidade de quem renasceu no momento certo.

FloristJellywish
(Double Double Whammy)

Florist, projeto liderado pela cantora e compositora Emily A. Sprague, constrói canções profundamente emotivas, permeadas por reflexões existenciais e a inescapável presença da morte – temas centrais do álbum Jellywish. A obra navega por um folk minimalista e intimista, com letras contemplativas que abordam a imprevisibilidade da vida, acompanhadas por arranjos sutis. A produção é simples, mas o verdadeiro destaque está na escrita sincera e confessional de Sprague.

A faixa de abertura, “Levitate”, estabelece o clima logo de início, com questionamentos sobre o propósito da existência (“todo dia eu acordo / esperando pela tragédia / humanidade desequilibrada / como sentir prazer se o sofrimento está em todo lugar?”) sob o acompanhamento de um violão suave. Em “Have Heaven”, guitarras em arpejo e uma percussão discreta criam uma atmosfera etérea, enquanto a música busca significado e conexão em meio ao desvanecer da realidade. Já a faixa-título é uma peça acústica delicada, com sons de água corrente e versos que falam de autoaceitação e valor interior.

“Started To Glow” mescla ponderações sobre a mortalidade com breves vislumbres de felicidade. O álbum apresenta uma sonoridade mais sutil em relação aos trabalhos anteriores, mas ganha profundidade graças ao piano sensível de Spataro e aos efeitos sonoros que tecem um ambiente quase surreal. Em “This Was A Gift”, versos como “só os mortos sobrevivem” sugerem que o legado é o que nos torna imortais.

“All The Same Light”, com suas guitarras distorcidas, reflete sobre distanciamento emocional, lembranças fragmentadas e o eterno ciclo de recomeços e despedidas, carregando uma melancolia nostálgica. Enquanto isso, “Sparkle Song” celebra as pequenas alegrias do cotidiano. “Moon, Sea, Devil” transborda sentimentos de desorientação, solidão e resignação diante do caos, e “Our Hearts In A Room” – a única faixa com vocais além de Sprague, que evoca a sonoridade do Wilco – questiona a natureza dos desejos e convicções humanas.

Jellywish é um álbum sobre confrontar a finitude, mas também sobre descobrir beleza e significado na impermanência, transformando fragilidade e dúvida em poesia sonora.

DjoThe Crux
(AWAL)

Joe Keery, conhecido por papéis em ‘Stranger Things’ e ‘Fargo’, lança seu terceiro álbum com o projeto Djo. Desta vez, em The Crux, ele deixa de lado a psicodelia experimental de DECIDE e opta por um som mais direto, cativante e nostálgico. O álbum, composto por 12 faixas, funciona como um diário sonoro, ambientado em um hotel fictício que serve de pano de fundo para as reflexões do artista sobre amor, perda, transformação e autoconhecimento.

A abertura do disco, “Basic Being Basic”, mescla batidas suaves, sintetizadores envolventes e vocais que transitam entre a fala e o canto, crescendo até se tornar um pop eletrizante – quase como uma fusão entre Cake com MGMT. Já “Delete Ya” apresenta uma sonoridade synthpop e um groove que evoca The Police, enquanto os vocais ecoam o estilo despojado de Julian Casablancas – assim como em “Lonesome Is a State of Mind”.

O álbum também explora outras sonoridades: “Potion” é uma balada acústica com falsetes suaves, inspirada no pop dos anos 60 e 70 (à la Fleetwood Mac), enquanto “Charlie’s Garden” evoca a genialidade melódica de Paul McCartney. “Gap Tooth Smile” faz uma reverência a ícones como David Bowie e Queen, e “Golden Line” traz harmonias ricas e um piano que remete às canções românticas de Billy Joel e Carole King.

Com guitarras energéticas e um ritmo pulsante, “Link” mistura a euforia de Bruce Springsteen, e mais adiante traz uma vibe dos The Cars, narrando uma fuga cinematográfica. Por fim, “Back On You”, celebra a conexão com suas irmãs e melhor amigo, combinando um coro celestial com um baixo vibrante dos anos 70. The Crux é um trabalho eclético, que reverencia grandes nomes da música sem perder a identidade única de Keery.

The OpheliasSpring Grove
(Get Better Records)

Enquanto Crocus (2021) explorava uma busca introspectiva, Spring Grove convida a uma reflexão tranquila sobre o que ficou para trás. O álbum ressignifica memórias outrora dolorosas, agora vistas com uma melancolia suave, mostrando o crescimento artístico e pessoal da banda. Produzido por Julien Baker, do boygenius, o trabalho mescla guitarras intensas e camadas delicadas de cordas, traduzindo em sons a evolução do grupo.

Após cinco anos sem lançamentos e enfrentando os desafios da pandemia, The Ophelias transformou adversidade em inspiração. Spring Grove – título que homenageia um cemitério em Cincinnati – funciona como uma série de epitáfios musicais, onde canções convertem dores antigas em lembranças serenas. A vocalista Spencer Peppet retoma anotações e emoções guardadas desde 2018, revisitando-as com uma maturidade surpreendente.

Em “Open Sky”, ela supera conflitos do passado; em “Gardenia”, rememora um amor perdido sem arrependimento. Já “Cumulonimbus” e “Salome” transbordam fúria e angústia, enquanto “Forcefed” mergulha em uma metáfora de autossacrifício. Ainda que permeado por sombras, o álbum traz lampejos de esperança em faixas como “Parade” e “Shapes”, que exaltam a capacidade de resistir.

Mais que uma coleção de músicas, Spring Grove é um ritual de despedida – não para reviver os fantasmas de outrora, mas para sepultá-los com respeito. Ao fim The Ophelias não só se desprende da tristeza, mas também da necessidade de continuar olhando para trás.

MommaWelcome to My Blue Sky
(Lucky Number)

Em 2022, Etta Friedman e Allegra Weingarten, as mentes por trás do Momma, enfrentaram um verão repleto de altos e baixos, marcado por desilusões, momentos de solidão, exageros e novos romances. Essa fase intensa, vivida simultaneamente pelas duas, serviu de inspiração para o quarto álbum da banda, Welcome to My Blue Sky – um trabalho profundamente catártico e meticulosamente construído, com doze faixas que encaram o futuro com ousadia.

A faixa “I Want You (Fever)” transborda energia crua, combinando distorções e elementos de indie pop para expressar o desejo por alguém inalcançável – seja por estar em outro relacionamento ou preso ao passado. Já “Bottle Blonde”, com suas batidas quebradas e envolventes, remete ao alt-rock dos anos 90 enquanto celebra a amizade próxima entre as fundadoras, além de ser uma ode aos dias em que ambas ostentavam cabelos descoloridos. “Ohio All The Time” retrata duas jovens perdidas no meio-oeste e confusas sobre seus sentimentos, capturando uma estética nostálgica dos anos 90 com toques de alt-pop dos anos 2000. Produzido por Aron Kobayashi Ritch (baixo) e com a batida pulsante de Preston Fulks (bateria), o álbum mescla shoegaze, grunge e melodias irresistíveis.

Enquanto “Rodeo” explora a frustração e o desejo em um ciclo vicioso de relacionamentos insatisfatórios – impulsionado por riffs intensos, batidas cortantes e vocais melódicos -, “Last Kiss” mergulha no shoegaze angustiado para narrar o fim doloroso de um romance. Por outro lado, “Stay All Summer” traz um grunge contagiante que captura a vontade de estender um amor passageiro.

A faixa-título representa o cerne emocional do álbum, sintetizando o caos e a beleza conturbada da juventude. Já “My Old Street” é uma balada rock emocionante que homenageia a infância das artistas – um passado que se torna cada vez mais difícil de revisitar com o tempo. Influenciado por bandas como Nirvana, Dinosaur Jr. e The Breeders, o Momma entrega uma reflexão juvenil barulhenta e apaixonada, carregada de ironia e narrativas autênticas.

WetTwo Lives
(30SF)

O quarto álbum da banda Wet, emergiu em um período de transformação em 2022. A vocalista Kelly Zutrau, que estava em Portland colaborando com o produtor Buddy Ross (Frank Ocean, HAIM), enfrentava uma crise criativa até descobrir que estava grávida. A revelação trouxe consigo uma sensação de luto – como se a juventude estivesse escorrendo entre seus dedos. Foi então que surgiu a frase que definiria o disco: “gostaria de viver duas vidas”.

O álbum reflete a turbulência das transições profundas. Zutrau revisita lembranças da infância – criada por uma mãe solteira nos anos 90, em Boston, em meio a mudanças constantes e estímulo artístico – enquanto encara a jornada em direção à maternidade. Essa busca por identidade e conexão ressoa em faixas que equilibram melancolia e otimismo. “Coffee in the Morning”, abertura do disco com pouco mais de um minuto, é uma balada minimalista de piano, adornada por cordas suaves e vocais etéreos de Zutrau, que descreve a luta para superar a dor, mas acaba imersa na solidão e no vazio.

“Signs” mescla a delicadeza do indie pop com batidas eletrônicas brilhantes, em letras que narram desilusões familiares, ciclos de erros e a descoberta de um amor redentor. “Rosy” traz teclados sombrios e guitarras introspectivas, retratando a sensação de estar presa em um labirinto de arrependimentos. Já “Double” acelera o ritmo com influências de drum ‘n’ bass, aliando batidas pulsantes a acordes de piano dramáticos e sintetizadores sutis – uma ode à resiliência e à superação. “Close Range” por sua vez, explora as contradições dos relacionamentos, destacando que, mesmo entre conflitos, o afeto e as lembranças permanecem como laços inquebráveis.

Musicalmente, o Wet deu um salto. Se antes navegavam por um pop sofisticado, agora incorporam camadas mais orgânicas e experimentais, sem abrir mão de melodias cativantes. Produzido em parceria com Joe Valle, Daniel Aged e Buddy Ross, Two Lives é um retrato sensível de contrastes: entre o que ficou para trás e o que está por vir, entre a ferida e a cicatriz.

Yann TiersenRathlin From A Distance | The Liquid Hour
(Mute)

Yann Tiersen lança Rathlin From A Distance | The Liquid Hour, álbum dividido em duas partes distintas, porém interligadas, cada uma com sua própria identidade sonora: Rathlin From A Distance oferece oito peças para piano solo de caráter introspectivo, enquanto The Liquid Hour explode em paisagens eletrônicas e ritmos psicodélicos que transcendem classificações.

A primeira parte homenageia a ilha irlandesa de Rathlin, servindo como registro sonoro de uma viagem marítima de Tiersen em 2023. Do Farol Fastnet ao Canal Caledoniano, cada composição pianística funciona como coordenada geográfica transformada em emoção – um mapa íntimo onde notas reverberam como memórias líquidas, convidando à imersão contemplativa.

Já The Liquid Hour nasce de um momento revelador: durante a vigília noturna no leme de seu barco, o clarão de Belfast no horizonte após semanas no oceano desencadeou no artista reflexões sobre histórias pessoais e coletivas. O resultado é uma tapeçaria sonora inquieta, onde sintetizadores dialogam com os vocais espectrais de Émilie Quinquis, criando um manifesto musical sobre tempo, distância e resistência.

Do minimalismo aquoso às marés eletrônicas, Tiersen constrói um trabalho onde a quietude e a tempestade se revelam faces da mesma experiência criativa.

The WaterboysLife, Death And Dennis Hopper
(Sun Records)

A trajetória da banda The Waterboys sempre esteve marcada por admirações peculiares. Mike Scott, vocalista e líder do grupo, já homenageou o poeta W.B. Yeats em um álbum dedicado à sua obra. Agora, porém, sua grande inspiração é Dennis Hopper, o ator rebelde de ‘Sem Destino’ e ‘Apocalypse Now’, que não só motivou uma canção em 2020 como também deu origem a um novo álbum duplo. Life, Death and Dennis Hopper é uma experiência musical tão intensa e imprevisível quanto a vida do artista homenageado.

Com colaborações de peso, como Steve Earle (“Kansas”), Fiona Apple (“Letter From An Unknown Girlfriend”) e Bruce Springsteen (“Ten Years Gone”), o disco transita entre folk, rock e até nuances de lounge, refletindo a essência multifacetada de Hopper – desde a liberdade desenfreada de ‘Sem Destino’ até a atmosfera perturbadora de ‘Veludo Azul’. Assim como o ator, Mike Scott não teme experimentar, resultando em um trabalho tão ousado quanto a carreira dos Waterboys, que já revolucionaram o folk céltico e agora seguem explorando novos caminhos.

Life, Death And Dennis Hopper é uma celebração da irreverência, do caos criativo e da arte sem limites – características que definem tanto Hopper quanto a própria banda. E, no fim das contas, como em ‘Sem Destino’, tudo se resume à liberdade da jornada e ao poder transformador da música.