7 discos para ouvir hoje: Smerz, pablopablo, Morcheeba, Cola Boyy e mais

Smerz / Divulgação

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Smerz, pablopablo, Morcheeba, Lindstrøm, Sparks, These New Puritans e Cola Boyy.

SmerzBig city life
(escho)

O duo norueguês de art-pop Smerz, formado por Catharina Stoltenberg and Henriette Motzfeldt, lança Big city life, o aguardado sucessor de Believer. O álbum é uma obra diversificada, mesclando dream pop, eletropop, shoegaze e trip hop, sem perder sua identidade única. Produzido e criado pela dupla ao longo de quatro anos, o disco reúne momentos e sentimentos intensos, histórias reais e imaginárias que exploram temas como apatia, solidão, diálogos internos, amor e uma liberdade quase frenética.

A faixa-título, com influências de trip hop e experimentalismo, combina pianos digitais e batidas quebradas para retratar, com ironia e humor ácido, o vazio da vida urbana. Já “But I Do”, com sua sonoridade dub e distorcida, mergulha na tensão de um relacionamento marcado por indecisão, questionando quando a imaturidade cederá espaço ao amadurecimento.

“Roll the dice” traz uma batida minimalista e hipnótica, com sintetizadores, percussão sutis e um riff de piano discreto, criando uma atmosfera ao mesmo tempo sedutora e sombria. A letra descreve uma mulher confiante, que domina as ruas da cidade com atitude. Em “Feisty”, uma batida marcante de chimbal, samples de cordas dramáticas e vocais em tom falado transmitem a sensação de uma noite de liberdade pós-término.

“A thousand lies” explora as ambiguidades de um relacionamento através de uma instrumentação atmosférica, com pianos reverberantes e padrões eletrônicos envolventes, enquanto os vocais dialogam, capturando a complexidade emocional do momento. “Close” trilha por uma sonoridade obscura e sedutora, retratando alienação e perda de identidade, enquanto “You got time and I got money” – uma das músicas mais bonitas do disco – remete a um doo wop cósmico e modernizado, envolto em uma orquestração rica e vocais etéreos que transmitem um desejo íntimo e romântico. Por sua vez, Dreams”, eleva-se com camadas de sintetizadores intensos, criando uma aura dançante, enquanto os versos soam como encantamentos para controlar os sonhos alheios.

Big city life é uma experiência sensorial que encapsula o caos, a beleza e a melancolia da existência moderna, tudo envolto na assinatura sonora inconfundível do Smerz.

pablopabloCanciones en Mi
(pablopablo)

Na hora de compor seu primeiro álbum, Pablo Drexler (a.k.a. pablopablo), filho do célebre Jorge Drexler e colaborador de artistas como C. Tangana e Nathy Peluso, mergulhou em temas como desamor e despedida, criando um trabalho repleto de beleza e emoção. Na época, porém, o cantor e compositor não percebeu que Canciones en Mi era, na verdade, um reflexo inconsciente do fim de seu próprio relacionamento.

O álbum se destaca pela versatilidade musical, abordando rupturas e saudade com uma intensidade poética, tudo envolto em um clima introspectivo, onde piano e violão ganham protagonismo. A simplicidade minimalista de Canciones en Mi aparece já na faixa de abertura, homônima ao projeto. A música começa com camadas vocais que remetem a uma harmônica, sobre um delicado arranjo de guitarra e piano, estabelecendo um tom confessional. Em seguida, “Dónde Estás!” surge com uma letra franca, destacando a voz calorosa do artista.

“Vida Nueva” destaca-se pela fusão de texturas eletrônicas, violão suave, piano emotivo e um toque de coro gospel, criando uma ambientação única para falar de um amor intenso, mas destinado a acabar. Já “Siempre Te Quiero A Veces” começa discreta e ganha corpo com saxofone, guitarra e percussão, contando a história de um romance intenso, porém passageiro, entre dois personagens que sabem que seu tempo é limitado.

O disco ainda conta com parcerias marcantes, como “Eso Que Tú Llamas Amor”, em colaboração com Carín León e Ralphie Choo, unindo o regional mexicano à música alternativa. Outro momento especial é “Ojos De Ajonjolí”, composta em apenas duas horas ao lado de Macario Martínez, e “De Ti”, uma parceria com Amaia. As letras são um dos pilares do registro, quase como versos que poderiam brilhar mesmo fora da música – algo que fica ainda mais claro em “Las Tuyas”, faixa final dedicada ao seu pai, na qual pablopablo reflete sobre os desafios de trilhar seu próprio caminho artístico sob a influência de um legado familiar tão grande.

Com Canciones en Mi, pablopablo demonstra que menos pode ser mais. Não são necessários arranjos rebuscados ou produções excessivas quando uma canção carrega verdade, profundidade e intenção. É justamente nessa simplicidade consciente que reside sua força.

MorcheebaEscape The Chaos
(100% Records)

Há três décadas, o Morcheeba emergiu como um porto seguro no universo do trip hop. A história começou nos anos 90, quando os irmãos Paul e Ross Godfrey, produtores e multi-instrumentistas, uniram forças com a vocalista e compositora Skye Edwards. Juntos, eles traduziram a melancolia eletrônica da época em seu aclamado álbum de estreia, Who Can You Trust? (1996), consolidando o estilo com o sucesso de Big Calm (1998). Skye deixou a banda em 2003, retornando cinco anos depois, enquanto Paul Godfrey saiu em 2013.

Atualmente, o Morcheeba permanece como um duo formado por Skye e Ross, e seu 11º álbum, Escape The Chaos, pode ser seu melhor trabalho desde os anos 2000. O single “Call For Love” é uma combinação de voz hipnótica e melodia envolvente, enquanto “Peace Of Me”, com Oscar #Worldpeace, resgata os interlúdios experimentais dos primeiros registro. Já “We Live And Die”, uma emocionante homenagem aos 30 anos da banda, impressiona pela fusão de sopros, guitarra elétrica e os vocais intensos de Skye, criando uma atmosfera sonora cinematográfica.

Produzido por Ross Godfrey ao longo de dois anos, o álbum conta com participaçoes especiais, como o produtor australiano Hugh Counsell, o DJ Mr Six e a cantora francesa Amanda Zamolo. A primeira parte do disco traz faixas marcantes como “Elephant Clouds”, “Far We Come” e “Molten”, enquanto a segunda mergulha em sonoridades psicodélicas, como em “Pareidolia”. A faixa-título, “Escape the Chaos”, encerra o trabalho reforçando mensagens de união e equilíbrio interior.

O Morcheeba não acredita que sua música possa transformar o mundo, mas a voz serena de Skye e as paisagens sonoras sonhadoras de Ross seguem sendo um refúgio diante do turbilhão da vida.

LindstrømSirius Syntoms
(Feedelity)

O produtor norueguês Hans-Peter Lindstrøm retorna com seu sétimo álbum como Lindstrøm, uma evolução refinada e lúdica do seu som característico. Seguindo o álbum Everyone Else is a Stranger, Sirius Syntoms reduz parte da complexidade de suas produções anteriores, dando mais espaço para melodias, ritmos e texturas respirarem livremente. O resultado é uma coleção dinâmica e envolvente de faixas que equilibram batidas profundas com uma intenção clara – música tanto para introspecção quanto para dançar.

Ao longo das últimas duas décadas, o artista vem criando álbuns e faixas com trocadilhos mais ou menos bem-sucedidos, e Sirius Syntoms não foge à regra. “Sirius” remete à estrela mais brilhante do céu noturno, simbolizando suas inspirações cósmicas, enquanto “Syntoms” faz referência à essência rítmica da disco, aludindo aos sintetizadores que marcam presença tanto na música eletrônica clássica quanto na contemporânea.

Musicalmente, o registro é construído sobre sintetizadores envolventes e brilhantes, além de percussões eletrônicas pulsantes, convidando ao movimento e à imersão. Baixos hipnóticos, melodias expansivas e progressões harmônicas ricas formam uma base que soa tanto elevadora quanto introspectiva. Se antes seus álbuns exploravam composições densas e multicamadas, desta vez Lindstrøm optou por uma abordagem mais refinada, permitindo que cada elemento ecoe com clareza.

Como o próprio revela, a ideia era criar algo que transmitisse liberdade, que ressoe tanto emocional quanto fisicamente. Enquanto seu último álbum refletia um clima mais introspectivo e denso, Sirius Syntoms canaliza uma sensação renovada de impulso, um convite para se perder no som – seja em reflexão silenciosa ou na pista de dança.

SparksMAD!
(Transgressive)

O icônico duo de avant-pop Sparks, formado pelos irmãos Ron e Russell Mael, apresenta o seu 28º álbum de estúdio, intitulado MAD!. A obra mergulha em fenômenos contemporâneos, como o culto às marcas (“JanSport Backpack”), a obsessão por tatuagens, a devoção cega (seja a um ídolo, um amor ou um time, como em “My Devotion”) e a superficialidade das conversas vazias (“I-405 Rules”). Em “Running Up A Tab At The Hotel For The Fab”, a letra parece ecoar o caso da falsa socialite Anna Delvey – ou alguém igualmente audacioso. A crítica social está presente, mas de forma sutil, convidando o ouvinte a interpretar as entrelinhas.

Temas recorrentes na discografia do duo ressurgem, como em “A Long Red Light”, que fala sobre desejos interrompidos e a sensação de ter a vida pausada sem aviso – uma reminiscência de clássicos como “When Do I Get To Sing My Way?”. Musicalmente, o álbum mescla new wave, synthpop, art-rock e toques de ópera eletrônica, gêneros que o Sparks ajudou a moldar ao longo de décadas.

MAD! é um disco atual e relevante, especialmente considerando a longevidade de seus criadores. Enquanto muitas bandas, após 50 anos de carreira, se limitariam a reviver o passado, o Sparks não para de inovar. Desde os anos 2000, eles lançaram oito álbuns originais, uma ópera radiofônica, uma colaboração com o Franz Ferdinand, o aclamado musical ‘Annette’ e turnês globais.

A faixa de abertura, “Do Things My Own Way”, funciona como um manifesto perfeito para o duo. Afinal, o Sparks nunca seguiu regras – sempre criou seu próprio caminho. E, com MAD!, eles provam que a genialidade não envelhece. Só se reinventa.

These New PuritansCrooked Wing
(Domino)

A dupla de irmãos Jack e George Barnett, à frente da banda de art-rock These New Puritans, está de volta com Crooked Wing, seu quinto álbum de estúdio, lançado seis anos após o trabalho anterior. Produzido por Jack Barnett e Graham Sutton (Bark Psychosis), o disco oscila entre o visceral e o sublime, reforçando a reputação do grupo por composições visionárias que desafiam gêneros e expectativas.

O trabalho conta com uma formação imprevisível de músicos convidados, como Caroline Polachek (na poética e introspectiva “Industrial Love Song”) e o experiente contrabaixista de jazz Chris Laurence. A abertura do álbum é marcante: um menino cantando em registro soprano, envolto em camadas de órgãos densos e sintetizadores reverberantes, cria uma atmosfera ao mesmo tempo celestial e inquietante.

Em “Bells”, uma faixa épica que explora solidão e alienação, os vocais distantes de Jack Barnett fundem-se a pianos melancólicos, sinos soturnos e texturas eletrônicas. Já “A Season In Hell” mergulha em sombras, combinando órgãos sacros com percussões agressivas para narrar uma jornada de dor e submissão, pontuada por lampejos de redenção.

O piano delicado de “I’m Already Here” evoca um reencontro com quem já se foi, mas a serenidade é rompida pelo clima turbulento de “Wild Fields”. Enquanto isso, “The Old World” oferece uma balada espiritual e introspectiva, e a faixa-título eleva-se com percussões ritualísticas e vocais angustiados, culminando numa ascensão quase transcendental.

Fechando o ciclo, “Return”, uma continuação da faixa de abertura, retoma o falsete inicial, ecoando os versos: “estou esperando / estou no subsolo / estou ouvindo / qualquer som”. Hipnótico e ousado, Crooked Wing caminha da escuridão à luz, consolidando o These New Puritans como pioneiros sonoros capazes de transcender rótulos e emocionar de forma visceral.

Cola BoyyQuit to Play Chess
(Record Makers)

Quit to Play Chess é o último álbum de estúdio do cantor, compositor e produtor Matthew Urango, conhecido artisticamente como Cola Boyy, artista que conquistou fãs do neo-disco e do funk antes de sua trágica partida em março de 2024. O trabalho mantém a essência do músico: unir pessoas através da música, destacando o que nos aproxima em vez das diferenças. O álbum surge como um manifesto sonoro contra o capacitismo, a desigualdade e a xenofobia, reforçando o legado do artista.

Cola Boyy finalizou os detalhes do disco pouco antes de seu falecimento, aprovando a masterização no mesmo dia de sua partida. Apesar do contexto emocional, o disco transborda vitalidade, mostrando que, mesmo sendo sua última obra, não perde força. Após o EP Black Boogie Neon (2018) e o álbum Prosthetic Boombox (2021), Cola Boyy eleva sua criatividade com uma produção generosa e repleta de significados. Quit to Play Chess expande fronteiras com letras diretas e uma produção ainda mais ousada. Sem fronteiras de estilo, misturando hip hop, R&B, reggae e drum ‘n’ bass, mas sempre fiel ao seu flow único, Cola Boyy nos presenteia com faixas generosas, inventivas, psicodélicas e cheias de paixão. Um álbum que pinta um retrato lírico e complexo de sua época, usando a diversidade do mundo contemporâneo para criar hinos para quem precisa deles.

Entre os colaboradores estão Andrew VanWyngarden (MGMT), Jared Solomon (Remi Wolf, Lola Young), Nate Fox (Chance the Rapper), Baba Stiltz, Blasé e Lewis OfMan. Quit to Play Chess é a prova da genialidade de Cola Boyy – um tributo à sua coragem, talento e missão de unir pessoas através da música.