
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Say She She, Snooper, Jamie Woon, HAERTS, Marta, Rachael Yamagata e Adult Leisure.
• Say She She – Cut & Rewind
(drink sum wtr)
O trio norte-americano Say She She, cujo nome homenageia Nile Rodgers (“chest chi-chi!: it’s chic!”), apresenta o terceiro álbum de estúdio, Cut & Rewind, repleto de ritmos dançantes e letras engajadas. Liderado por Piya Malik, Sabrina Mileo Cunningham e Nya Gazelle Brown, o grupo combina influências de ícones como Minnie Riperton, Rotary Connection, Liquid Liquid e ESG, resultando em uma sonoridade psicodélica com grooves disco, batidas intensas, harmonias vocais marcantes e uma energia rebelde mascarada de diversão. O álbum expande os horizontes do trio, incorporando elementos que vão de Lonnie Liston Smith e de Lijadu Sisters até a força de nomes contemporâneos como Lambrini Girls e Amyl and the Sniffers.
A faixa-título inicia a obra com um turbilhão sonoro cativante, típico da banda, mesclando funk, new wave e disco pop em versos carregados de atitude punk, celebrando esforço, autenticidade e resiliência diante de desafios. “Under The Sun” explora arranjos que unem soul, rock e R&B em camadas nostálgicas, evocando referências atemporais como Minnie Riperton e Rotary Connection. Já “Disco Life” mergulha na vibração das discotecas dos anos 70, com guitarras inspiradas em Nile Rodgers, celebrando a liberdade e transformando a pista de dança em um espaço de resistência.
“Chapters” combina jazz e funk com uma aura nostálgica, refletindo sobre as diferentes fases de um relacionamento, enquanto “Possibilities” traz grooves e vocais emocionantes sobre encontros e conexões que despertam novas esperanças. “Take It All” transita entre funk e pós-punk, expressando frustração diante de certas pessoas, e “She Who Dares” mistura ritmos dançantes com pulso luminoso, lembrando momentos de Grace Jones, para imaginar uma distopia em que os direitos das mulheres são retirados, mas a força e a elegância permanecem intactas. “Shop Boy” brinca com referências clássicas e critica com humor a superficialidade da cultura dos aplicativos de relacionamento. “Little Kisses” celebra o amor por meio de pequenos gestos e beijos, mesclando soul e rock romântico, enquanto “Do All Things With Love” inspira-se em The 5th Dimension e Marvin Gaye, funcionando como um hino à vida vivida com amor e dedicação.
Cut & Rewind consolida-se como um trabalho vibrante e eclético, unindo consciência política, diversão contagiante e experimentação sonora, estabelecendo Say She She como um trio inovador que transforma cada música em uma celebração de autenticidade e prazer musical.
• Snooper – Worldwide
(Third Man Records)
A banda de punk rock Snooper (antes conhecida como Snõõper, quando ainda usava o til no nome) apresenta o álbum Worldwide, sucessor da estreia Super Snõõper, marcando sua chegada no selo Third Man Records, de Jack White. Fundada pelo guitarrista Connor Cummins e pela vocalista e artista visual Blair Tramel, a banda contou pela primeira vez com a produção externa de John Congleton (St. Vincent, shame). Essa escolha reflete a intenção de expandir horizontes sonoros e levar o caos característico do grupo a um patamar ainda mais visceral.
O álbum se inicia com “Opt Out”, já destacando o baixo vibrante e as batidas pulsantes que permeiam toda a obra, em versos que tratam de ansiedade e da insatisfação diante das pressões sociais e promessas quebradas. A intensidade entre baixo e bateria é constante em cada faixa, mantendo a energia em alta. Em “On-Line”, o tema é a ansiedade digital; já “Star 6 9” mistura punk e industrial, enquanto “Company Car” explora vulnerabilidade e falhas na comunicação. A faixa-título funciona como manifesto conceitual e estético: um mergulho em sonoridades eletrônicas vigorosas, que remetem a Le Tigre, ampliando as dimensões criativas do grupo.
O disco segue com “Guard Dog”, que aborda conflitos internos e busca por identidade, incluindo sons inesperados como latidos de cachorros – recurso que poderia agradar até Fiona Apple de Fetch The Bolt Cutters. “Blockhead” é frenética, com ganchos marcantes e metáforas de videogame para falar sobre alienação e perda de controle, enquanto “Come Together” ganha uma releitura punk rock caótica na versão do duo para o clássico dos Beatles. “Pom Pom” traz energia bruta e urgência, com os vocais de Tramel em tom leve e irônico, lembrando o estilo de líder de torcida. Já “Relay” resgata a atmosfera densa do post-punk das faixas iniciais e “Subdivision” encerra o álbum em um turbilhão de distorção e intensidade.
Se Super Snõõper tinha como objetivo traduzir a ferocidade das apresentações ao vivo, Worldwide vai além ao mesclar essa crueza com a sensibilidade melódica de Blair Tramel com a a energia caótica e contagiante do Snooper.
• Jamie Woon – 3, 10, Why, When
(Also Can)
Uma década depois do último álbum de estúdio, o cantor, compositor e produtor britânico Jamie Woon ressurge com 3, 10, Why, When, o terceiro álbum de inéditas. Produzido ao lado do sueco Martin Terefe, o disco marca o fim de um longo hiato do artista e reafirma sua estética particular, que combina R&B, eletrônica e pop intimista. A sonoridade dialoga com referências como Sampha e James Blake, mas preserva a identidade própria de Woon, que transita de batidas fragmentadas e cheias de tensão a arranjos de cordas expansivos, alternando momentos de introspecção noturna e passagens carregadas de paixão e conexão.
“All The Way” é apresentada como um hino reflexivo sobre a intuição e a incerteza entre esperar ou agir. Já “Place N Time” aborda a luta contra pensamentos excessivos e a procura por clareza, encontrando no amor e no presente um ponto de equilíbrio em meio ao fluxo do tempo. “Pulling on a Thread” destaca-se pela produção refinada e crescente, guiada por cordas imponentes e vocais delicados, enquanto “A Velvet Rope” aposta em um neo soul vibrante, trazendo versos que retratam a confusão entre escolhas e distrações cotidianas.
Em “Heavy Going…”, Woon une guitarras acústicas e elétricas a uma bateria orgânica, criando um cenário que amplifica o peso das batalhas internas diante das transformações da vida. “Peace of Mind” mistura soul, R&B e elementos eletrônicos, revelando uma paisagem sonora sofisticada em busca de harmonia e tranquilidade. “When”, faixa em que o título do álbum se manifesta, aparece como um tema inquieto, sustentado por percussões intensas que traduzem a ansiedade. Já “The Heart’s Mountains” descreve a solidão e a vulnerabilidade emocional em tons delicados.
Na etérea “Ghost”, sintetizadores envolventes, cordas arrebatadoras e uma percussão quase ritual conduzem um diálogo com o “fantasma” interior, evocando compaixão. Por fim, “What’s the Matter” mergulha em um soul hipnótico para explorar o medo, a fragilidade e a dificuldade em lidar com sentimentos próprios e coletivos.
Com composições carregadas de sensibilidade e arranjos que passeiam por diferentes nuances sonoras, Jamie Woon entrega um trabalho honesto e sofisticado, reafirmando seu talento em transformar vulnerabilidade em música de grande impacto emocional.
• HAERTS – Laguna Road
(HAERTS)
O duo de indie HAERTS lança o aguardado quarto álbum, Laguna Road, um trabalho que constrói um retrato íntimo e confessional, explorando temas como família, memória e os desafios e encantos de construir um lar a dois. Nini Fabi e Benny Gebert, casal na vida e na música, escreveram e gravaram as faixas em sua própria casa, localizada na Laguna Road, entre a rotina diária e os momentos da vida familiar. Após finalizar o disco, no início de 2025, o casal deixou a residência e retornou a Nova Iorque.
Trata-se do registro mais pessoal da dupla, resultado de uma parceria consolidada tanto no amor quanto na música, funcionando como um verdadeiro diário familiar. Cada faixa se entrelaça na narrativa de criar um universo próprio, cheio de imperfeições, refletindo as transformações e experiências vividas ao longo do tempo.
“Woman on the Line”, gravada com Jenn Wasner (do Flock Dimes e Wye Oak), é uma balada delicada em que piano, sintetizadores suaves e cordas ascendentes sustentam vocais sensíveis, revelando a dor da incompletude e o peso de corresponder às expectativas alheias. “The Lie” evoca a juventude de Fabi e Gebert, lembrando um amor repleto de sonhos, saudade e promessas quebradas. Já “Wait for Us” destaca-se pela leveza da melodia e pela sofisticação do arranjo, que combina elementos de pop rock com elegância, enquanto os vocais harmoniosos preenchem o espaço de forma envolvente e cativante.
Laguna Road é um álbum de reconstrução, uma tentativa de reunir os fragmentos do passado. Musicalmente, representa uma ruptura com os discos anteriores, adotando uma sonoridade mais crua e vulnerável. Gravado durante um período intenso, marcado por momentos de beleza e dificuldade, o trabalho simboliza não apenas uma mudança sonora, mas também um movimento íntimo: decidir o que conservar, o que deixar para trás e como seguir adiante juntos.
• Marta – Out The Way
(False Idols)
A cantora polonesa Marta Złakowska (conhecida simplesmente como Marta) apresenta o álbum Out The Way, sucessor do disco de estreia When It’s Going Wrong, com a colaboração de seu parceiro de longa data, o músico visionário e inovador do trip hop Tricky. A voz cristalina e de tom angustiado de Marta se destaca de forma singular, já tendo contribuído para o EP Maxinquaye Reincarnated, de Tricky, e para o último álbum de Lee “Scratch” Perry, King Perry.
“Leave the Lights” revela uma sonoridade eletropop envolvente e de atmosfera sombria, com versos que exploram temas como amor, angústia e um profundo vazio existencial. A faixa-título se aventura por uma eletrônica de caráter experimental, entrelaçando camadas de post-punk e vocais que oscilam entre a melancolia e a sensualidade. Já “Way Up In”, parceria com Marcela Rybska, constrói uma narrativa trip hop inquietante, inspirada na viagem da dupla por lugares cheios de alma, como Nashville, no Texas, e na jornada que percorreu de Nova Iorque até a Costa Oeste.
Com uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e claustrofóbica, permitindo apenas que a última faixa do disco (“Last Song”) apresente uma batida pulsante e cria uma intimidade com as pistas de dança, as canções funcionam como a trilha sonora de um filme de horror, apresentando uma produção que mistura o onírico e o perturbador, envolvendo o ouvinte em uma aura de mistério e introspecção.
• Rachael Yamagata – Starlit Alchemy
(Jullian Records)
A cantora, compositora e pianista Rachael Yamagata retorna com Starlit Alchemy, o primeiro álbum desde Tightrope Walker (2016), marcando uma nova fase independente, distante das grandes gravadoras. A artista define o trabalho como uma obra profunda e entrelaçada, concebida para ser ouvida como um todo, em que cada faixa se conecta naturalmente à seguinte.
Inspiradas por um impulso quase instintivo de traduzir experiências próprias e alheias, as canções acabaram se unindo em uma narrativa coesa, um mapa traçado ao longo da jornada. Para ilustrar o espírito do projeto, Yamagata o descreve como um encontro imaginário onde Tom Waits assume o papel de Willy Wonka (de ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’) e Rickie Lee Jones se torna Dorothy (de ‘O Mágico de Oz’), em um universo sonoro guiado por Hans Zimmer e pela sensibilidade de Joni Mitchell em Both Sides Now.
A faixa de abertura, “Backwards”, combina piano, vocais intensos e arranjos orquestrais para expressar a dor da separação e a solidão do novo caminho, equilibrando melancolia e entusiasmo. “Birds” surge como uma delicada canção pop jazz, terna e emotiva, oferecendo conforto e esperança diante da perda. Já “Carnival”, com sua sonoridade cinematográfica e elegante, simboliza o encerramento de um ciclo e a recusa de Yamagata em seguir antigas convenções, marcando um adeus à exposição excessiva.
Em “Heaven Help”, a artista faz um apelo sincero em meio ao desespero, conduzido por uma musicalidade serena e tocante, enquanto “Empty Houses” reflete sobre o luto e a transitoriedade da vida. “Galaxy” contempla as conexões invisíveis que moldam a existência, com arranjos expansivos e etéreos. “Blue Jay” retrata os efeitos colaterais da solidão, e “Jesse” expressa a dor e a saudade pela perda de alguém vibrante, cuja ausência deixa um vazio profundo. “Hurt”, com seu ritmo lento e pulsante, descreve o conflito interno de quem, ao tentar proteger, acaba ferindo.
Encerrando o disco, “Reprise” apresenta uma musicalidade intimista e quase mágica, como a trilha de um filme juvenil, evocando um pedido às estrelas por orientação e esperança em tempos incertos.
Com Starlit Alchemy, Rachael Yamagata transforma sua trajetória pessoal em uma experiência sonora coesa e universal, sustentada por instrumentações grandiosas de cordas e piano. Cada faixa reflete a busca por sentido, cura e reconexão, guiada pela voz profundamente comovente da artista.
• Adult Leisure – The Things You Don’t Know Yet
(Adult Leisure)
O quarteto de indie rock Adult Leisure lança o álbum de estreia, intitulado The Things You Don’t Know Yet. O álbum reúne canções que falam sobre pessoas, amor, perdas e as emoções e vivências que acumulamos ao longo da vida. Cada faixa se destaca por sua energia contagiante, harmonias acolhedoras, sintetizadores vibrantes, linhas de baixo pulsantes, guitarras envolventes e letras profundamente sinceras.
“See Her” mistura indie rock vibrante e toques pop de saxofone em uma melodia nostálgica e sarcástica sobre o fim de um relacionamento, revelando a satisfação de sair por cima. “The Rules”, com a participação de Jess Chivers nos vocais, combina sintetizadores vibrantes, guitarras marcantes e vocais emotivos para criar uma atmosfera nostálgica dos anos 1980, explorando a dor de um amor desgastado. “Dancing Don’t Feel Right” mistura guitarras indie, batidas intensas e sintetizadores envolventes com a voz emotiva de Neil Scott, criando uma faixa urgente e cativante que equilibra tensão interna e entrega total.
“Kiss Me Like You Miss Her” mostra a habilidade do Adult Leisure de mesclar gêneros, unindo melodias ricas, sintetizadores e batidas intensas à voz expressiva de Scott e letras com consciência social, enquanto “Borderline” segue a linha do EP anterior da banda, mas com urgência rítmica e letras profundas que exploram as emoções pós-término de um relacionamento duradouro. “Boy Grows Old” reflete de forma sincera as experiências da juventude e as dificuldades de amadurecer, mostrando que pais e responsáveis também são humanos e falhos, e transmitindo uma mensagem emotiva para o nosso eu mais jovem sobre aprender com o passado.
O álbum encerra com “The River”, uma balada lenta e vulnerável que evidencia a sensibilidade e a força contida de Neil Scott, mostrando que o Adult Leisure vai além do indie animado, sendo contadores de histórias capazes de equilibrar emoção e energia, tornando The Things You Don’t Know Yet uma estreia marcante, nostálgica e autêntica.



