
Farce, projeto da austríaca Veronika J. Koenig, conquistou reconhecimento ao longo dos anos por sua abordagem experimental e por parcerias com nomes como Soap&Skin, desenvolvendo uma trajetória guiada pela inventividade e por uma identidade artística singular. Em seu terceiro álbum de estúdio, The Label, lançado de maneira totalmente independente, a artista aprofunda essa linguagem ao reunir guitarras pesadas, batidas pulsantes e sentimentos agridoces em dez faixas breves e intensas. Com influências que passam pela música clássica, emo, noise, metal e pop, o trabalho discute amadurecimento, identidade e afirmação pessoal.
A faixa de abertura, “Deeply Strange People”, examina os vínculos familiares e o embate entre padrões herdados e responsabilidade individual. Já “Cherry Angioma” combina melancolia nostálgica e energia contagiante, evocando Spandau Ballet e New Order em meio a uma produção digital carregada. Com a participação vocal de Edwin Rosen, “Migraine Sex” investiga de forma hipnótica os limites entre dor, prazer e lucidez emocional, enquanto “Jesus In Iowa” reflete sobre a possibilidade de amar diante de um mundo em colapso e questiona se ainda existe tempo para declarar sentimentos e reconstruir relações.
Inspirada no romance de Jen Beagin, a indietrônica “Big Swiss” percorre a linha tênue entre paixão e obsessão. “Skin On Skin”, concebida inicialmente para o álbum how i’m feeling now, de Charli XCX, mergulha no hyperpop para pensar intimidade, casamento e a sensualidade presente no compromisso afetivo.
Em “1st Millennial Saint”, uma balada distorcida conduzida por guitarras serenas, Farce aproxima a fama pop da santidade católica para tratar de imperialismo cultural, extremismo e desorientação coletiva. A electroclash “Culture Vulture”, por sua vez, critica uma figura controladora e oportunista, movida pela busca por prestígio e pertencimento.
“Going To The People Museum”, com seu synthpop hipnótico, batidas vibrantes e interpretação vocal precisa, aborda a sensação de deslocamento e a procura por conexões humanas. O álbum se encerra com “Tar”, faixa inspirada em um episódio de assédio durante uma corrida de táxi que expõe o ego masculino, a condescendência e a permanência de comportamentos opressivos.
Com The Label, Farce entrega uma obra intensa, provocadora e emocionalmente afiada, transformando conflitos pessoais e inquietações contemporâneas em uma linguagem musical marcante e profundamente autoral.


