8 discos para ouvir hoje: Phoebe Bridgers, Jungle, L’Rain, Channel Tres e mais

Phoebe Bridgers / Olaf Grind

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Phoebe Bridgers, Jungle, L’Rain, Laura Veirs, Channel Tres, Peking Duk, Slow Joy e Hovvdy.

Phoebe BridgersLost Weekend
(Dead Oceans)

Lost Weekend representa a volta de Phoebe Bridgers ao trabalho solo seis anos depois de Punisher, mergulhando em questões como memória, luto, afeto, exposição pública e identidade. O repertório conta com participações de Jack Antonoff, Conor Oberst e Alex G, enquanto amplia as possibilidades sonoras da cantora por meio de guitarras distorcidas, sintetizadores, vocoder, arranjos de cordas e camadas atmosféricas, transitando entre sutileza e tensão.

A faixa inicial, “The Outside”, utiliza o vocoder como recurso para representar o afastamento afetivo, resgatando recordações do pai, morto em 2023, e fragmentos de sua relação com Bo Burnham. Em “Lost Boys”, o indie folk ganha guitarras discretas e sopros, acompanhados pelas vozes de Lucy Dacus e Julien Baker, parceiras de Bridgers no boygenius. Inspirada no imaginário de Peter Pan, a composição retrata homens emocionalmente inacessíveis, marcados por comportamentos perigosos, escapismo e violência.

“Kill Me” reúne guitarras e efeitos de produção quebrados para abordar o envelhecimento, a inquietação provocada pelo encerramento de etapas e a vontade de simplesmente desaparecer. Já “The Governor’s Waltz” se destaca pelo caráter frágil e cinematográfico, transformando uma experiência ligada a um festival em recordação do romance com Paul Mescal. O texto percorre o noivado e sua dissolução, além de citar Gracie Abrams, atual companheira do ator.

Em ritmo mais vibrante, “Bobby” funciona como uma declaração amorosa que recupera a dimensão catártica de “I Know the End”. A composição celebra o vínculo com Bo Burnham e a tranquilidade proporcionada pela relação, enquanto o artista também aparece nos vocais de apoio de “Liberty Tree”. O resultado transmite a descoberta de uma parceria capaz de oferecer segurança e equilíbrio.

A faixa que batiza o disco parte de uma balada contemplativa e cresce até alcançar um clímax formado por cordas, interferências eletrônicas e vozes desconectadas. Bridgers revisita o término do noivado com Mescal ao refletir sobre a expectativa de casamento e a escolha de romper o compromisso. Em “Haunted”, a cantora recorre a uma abordagem folk mais tradicional, com ecos de bluegrass e tradição americana, enquanto as harmonias de Dacus e Baker reforçam o caráter espectral da tentativa de se recompor.

“Panorama” une batidas ambientais, guitarra, banjo e sintetizadores em uma narrativa ambientada em um hotel, onde a aparição de uma figura enigmática se relaciona à ideia da morte. Já “Still Standing” revisita os conflitos existentes na relação com o pai depois de sua partida, colocando frente a frente a dor da perda e as consequências do trauma. Em “Never Going Back!”, uma mensagem de voz deixada por ele surge sobre um arranjo delicado de banjo, tornando a lembrança ainda mais concreta.

Com Cameron Winter, creditado como “Son-John Johnson”, nos backing vocals, “I Can’t Wait” cruza eletrônica, guitarras e referências folk para abordar dissociação, identidade e sensação de fragmentação, recorrendo ainda ao cinema e a ‘O Médico e o Monstro’. Encerrando o percurso, “As Above” conecta amor e luto ao contemplar mortalidade, família e o amanhã ao lado do parceiro. O instrumental em constante expansão acentua o encontro entre aquilo que foi vivido, o presente e aquilo que ainda pode acontecer.

Ao longo de Lost Weekend, Phoebe Bridgers transforma perdas, vínculos afetivos, lembranças e processos de reconstrução em uma obra particularmente confessional. O disco expõe suas contradições sem buscar respostas fáceis, construindo um retrato emocional marcado pela vulnerabilidade e pela tentativa de compreender o próprio passado enquanto encara o futuro.

JungleSunshine
(Caiola Records / AWAL)

Sunshine marca uma nova etapa para o Jungle, que se consolida como trio com a presença da colaboradora frequente Lydia Kitto, responsável por grande parte dos vocais principais. O álbum amplia a trajetória do grupo ao combinar soul, disco, hip hop e música eletrônica em uma sonoridade mais calorosa e abrangente, sustentada por harmonias marcantes. Nas letras, o trabalho aborda conexão, esperança e aceitação, criando uma atmosfera orientada pela possibilidade de dias melhores.

“Come Back to Me” resgata a estética retrô do rocksteady antes de desembocar no groove característico do grupo. A faixa-título aposta em um refrão envolvente e produção nostálgica que remete ao The Jacksons 5, enquanto “Where Are You Now” reduz o rtimo do percurso com uma abordagem mais contida. Já “Move Like You Do” recupera o espírito festivo da era disco, transformando a composição em um convite direto para a pista de dança, enquanto a letra expressa o desejo de reaproximação e de acompanhar os movimentos da pessoa amada.

Em “Romeo II”, o Jungle retoma a parceria com Bas – para a versão 2.0 de “Romeo” -, que acrescenta uma camada de hip hop ao repertório. “Carry On” assume a forma de uma balada pop influenciada pelo soul e envolta em nostalgia, retratando o desgaste de um relacionamento, suas frustrações e a incerteza diante de uma possível reconciliação. “The Wave” combina groove cativante, guitarras ensolaradas e vocais suaves em uma produção minimalista inspirada pela música brasileira das décadas de 1960 e 1970. Já “Someday, Somewhere” reúne ritmos solares, tratamento eletrônico sofisticado e a interpretação de Kitto para traduzir nostalgia, esperança e o desejo de escapar da rotina no fim do verão.

“Natural” investe em uma abordagem neo soul refinada, com as guitarras e vocais sedutores, enquanto “Reflection” assume um tom mais íntimo com ecos de clássicos da Motown. Já “Heavy on My Soul” conduz o disco a um desfecho delicado e melancólica com uma estrutura minimalista e intensificada com sofisticados arranjos de cordas.

Com Sunshine, o Jungle reafirma sua capacidade de revisitar referências do passado sem abrir mão de uma identidade contemporânea, equilibrando fervor, nostalgia, melancolia e esperança em um registro que também aponta para novos caminhos na trajetória do trio.

L’Rainfata morgana
(Mexican Summer)

A cantora, compositora, produtora e multi-instrumentista Taja Cheek (a.k.a. L’Rain) apresenta fata morgana, álbum que encerra a quadrilogia iniciada com L’Rain (2017) e continuada em Fatigue (2021) e I Killed Your Dog (2023). Novamente ao lado de Ben Chapoteau-Katz e Andrew Lappin, a artista desenvolve uma obra que transita por dancehall, folk, rock, ambient, R&B e eletrônica experimental, incorporando ainda baladas introspectivas, referências gospel e camadas de metal distorcido. De acordo com a gravadora, esse encontro de sonoridades acompanha reflexões sobre amadurecimento, resistência e a busca por espaço para florescer em ambientes pouco receptivos, dando forma a um disco diverso, que atravessa múltiplas linguagens e escapa às classificações convencionais.

O trabalho se inicia com “rumors of light”, abertura na qual a voz de L’Rain aparece fragmentada e manipulada, conduzindo a “with time”, uma balada sombria e minimalista sustentada por piano, vocais processados e sintetizadores tensionados. Em “blue”, a cantora constrói uma atmosfera noturna e envolvente com baixos sinuosos, vozes envoltas em reverberação e intervenções de metais improvisados. Já “july 5th” combina uma guitarra de matriz folk a ritmos africanos que surgem gradualmente, contando com a participação de Screechy Da. Em seguida, “bedroom songs” atua como uma breve interlúdio instrumental, formado por guitarra, reverberações e texturas sutis.

“borderline” ergue uma paisagem sonora delicada e atmosférica, expandida aos poucos por sintetizadores, percussões e loops, enquanto L’Rain aborda sensações de vulnerabilidade. Em “elmyra”, inspirada em Felícia, personagem de Tiny Toon Adventures, a eletrônica contemplativa se mistura a percussões espaçadas e flautas etéreas para acompanhar versos sobre a intensa vontade de viver uma paixão correspondida. “soulless cycle” explora o desgaste causado pela repetição de padrões emocionais negativos em uma composição mais vigorosa, guiada por guitarras distorcidas, percussão incisiva e vocais hipnóticos. Por outro lado, “glass ceiling” aproxima discretos elementos de R&B, violões dedilhados e sintetizadores ressonantes de texturas inusitadas, entre elas sons de respiração. Fechando esse percurso, “birthday” aproxima o R&B do final dos anos 1990 de vocais gospel intensamente reverberados.

fata morgana reafirma L’Rain como uma artista em constante reinvenção, capaz de transformar inquietações pessoais em uma linguagem sonora livre, imprevisível e profundamente singular.

Laura VeirsTemple Songs
(Raven Marching Band)

Temple Songs é o primeiro álbum da artista de folk Laura Veirs inteiramente composto, gravado, produzido e executado por ela mesma, reforçando o caráter autoral e independente do projeto. Registrado no estúdio que construiu no quintal de casa, o trabalho foi realizado com apenas um laptop e dois microfones, combinando sua voz, violões delicados, sutis elementos instrumentais e sons naturais, como a chuva. O resultado é um disco íntimo, sereno e contemplativo, atravessado por experiências pessoais turbulentas e por temas como resistência, feminismo e crítica social.

A faixa de abertura, “Arc Still Bends”, estabelece essa atmosfera ao abordar injustiças por meio de uma interpretação delicada e introspectiva, enquanto encontra esperança nas pequenas descobertas capazes de trazer conforto à existência. “Golden Seams” segue por uma direção mais luminosa ao celebrar a descoberta do amor e a libertação de sentimentos mantidos em segredo. Em “Pulse”, Veirs reúne violão de nylon, vocais intimistas, guitarras elétricas e saxofone de ‘Filthy’ Lucre, única participação externa do disco, em uma composição sobre transformação, recomeços e confiança no futuro. “Feeling Returns” retrata o surgimento de uma nova paixão acompanhado por receios e fragilidades, enquanto “Flying Into Darkness” explora a procura por pertencimento e equilíbrio emocional diante da inquietação e do distanciamento humano. Já “No Masters” aborda a autonomia criativa e as inseguranças que acompanham esse percurso, enquanto “Sunlight and Doom” encerra o álbum com uma reflexão sobre aceitar os contrastes inevitáveis da vida.

Ao longo do registro, Laura Veirs converte sentimentos de isolamento, conflitos de identidade e incertezas em uma reflexão sensível sobre a procura por respostas (sem conclusões).

Channel TresEnigma POV
(Alta Music)

Após o lançamento de seu álbum de estreia, Head Rush (2024), que contou com participações de nomes como Thundercat, Toro y Moi e Ty Dolla $ign, o produtor, cantor e rapper norte-americano Sheldon Young, conhecido artisticamente com. Channel Tres, retorna com seu segundo trabalho de estúdio, Enigma POV. Reconhecido por sua abordagem singular do hip house, batizada por ele de “Compton house”, que combina as raízes da house de Chicago com a identidade do hip hop de Compton, o artista aproveitou o período entre os dois discos para colaborar novamente com Thundercat e Dahi, além de apresentar uma série de singles. Entre eles estão “Pop Pop”, uma elegante mistura de hip house e G-funk; “Black Techno Guy”, marcada por uma atmosfera nostálgica e dançante, grooves de house, referências ao techno e seu característico flow descontraído; “Creatine”, que une eletrônica cintilante, guitarras e batidas influenciadas pelo jungle para transformar a disciplina dos treinos em uma metáfora sobre crescimento e superação; e “Medicine”, faixa que presta tributo a diferentes referências da house music ao revisitar o clássico “100% Pure Love”, do Crystal Waters. Produzido majoritariamente em parceria com Nick Sylvester, Enigma POV não apresenta participações vocais, mas amplia sua paleta sonora com contribuições de Pharrell Williams em “Curious” e Take A Daytrip em “Gangsta”. Ao longo do registro, a fusão entre batidas envolventes, pop eletrônico e a estética funk característica de Channel Tres cria uma experiência dançante, vibrante e cheia de personalidade.

Peking DukParadise
(Peking Duk)

Mais de uma década depois de Adam Hyde e Reuben Styles começarem a construir sua trajetória na música eletrônica, o Peking Duk apresenta finalmente seu aguardado álbum de estreia, Paradise. Com 14 faixas, o projeto reúne momentos de forte impacto nas pistas, participações inusitadas e histórias que refletem a identidade australiana dos artistas. Definido pelo próprio duo como uma “carta de amor à Austrália”, o lançamento marca uma nova etapa após uma sequência de sucessos como “High”, “Take Me Over” e “Stranger”.

Em vez de reunir apenas uma coleção de singles, a proposta foi desenvolver uma obra coesa, pensada para funcionar como uma experiência completa. A dupla também buscou recuperar a leveza e a espontaneidade dos primeiros anos, afastando as cobranças externas e permitindo que a criatividade conduzisse o processo. Musicalmente, Paradise transita por eletro, house, hip hop, rock e pop, refletind o influências de artistas como Daft Punk, The Avalanches, Gorillaz e The Prodigy. Essa abordagem se estende às participações especiais, que incluem Rico Nasty em “Thrills”, o rapper norte-americano Killer Mike em “Can’t Fit In”, Phantogram em “Forever”, Kah-Lo em “Do Your Best” – que evoca Basement Jaxx -, o cantor Matt Corby em “Let Go” – que flerta com “You” do Gold Panda -, além do ator australiano Jack Thompson na introdução falada.

Com Paradise, o Peking Duk transforma anos de experiência, referências e liberdade criativa em um álbum vibrante que celebra suas raízes sem abrir mão da vontade de explorar novos caminhos.

Slow JoyEsteban Flores
(MDDN Records)

Slow Joy, projeto de rock alternativo liderado por Esteban Flores, apresenta seu segundo álbum, Esteban Flores. Com 11 faixas, o trabalho representa seu material mais pessoal até agora, explorando amadurecimento, perdas, incertezas e a tentativa de aceitar aquilo que não pode ser controlado. Canções como “Forget”, “Again”, “Yearn for the Urn”, “Best of Me”, “Salt” e “Feel It All Again” alternam peso e vulnerabilidade, enquanto “I Lied (When I Said I’m Alright)”, com participação do Pool Kids, acrescenta uma dimensão ainda mais emocional. Produzido por Brett Romnes, o álbum amplia a mistura de shoegaze, emo, rock alternativo e post-rock do Slow Joy, alternando paredes de guitarras distorcidas com momentos mais expostos. Ao mesmo tempo, “SLC Punk on an SSRI” e “Do Not Give Me a Cigarette No Matter How Much I Beg” introduzem doses de humor e autoconsciência. O disco dá continuidade ao caminho iniciado em A Joy So Slow At Times I Don’t Think It’s Coming e consolida Flores como uma das vozes emergentes mais interessantes do rock alternativo.

HovvdyBig World
(Arts & Crafts)

O Hovvdy apresenta Big World, seu sexto álbum de estúdio, formado por onze faixas que surgiram a partir de uma abordagem criativa inédita para a dupla, reforçando a sintonia entre Will Taylor e Charlie Martin após mais de uma década de parceria musical. Depois de lançar Hovvdy em 2024, considerado o trabalho mais amplo e pessoal da carreira, os músicos decidiram transformar a maneira de compor sem abandonar a identidade construída ao longo dos anos. Desta vez, chegaram ao estúdio apenas com ideias instrumentais e deixaram que as músicas se desenvolvessem naturalmente durante as gravações. Em Nashville, novamente ao lado de Bennett Littlejohn, colaborador de longa data, Taylor e Martin apostaram na espontaneidade, na troca imediata e na confiança adquirida durante anos de criação conjunta. O resultado é um disco que mantém a sensibilidade melódica característica do Hovvdy e, ao mesmo tempo, expande seus horizontes ao incorporar elementos de indie rock, folk e alt-country. Ao longo das onze faixas, com destaque para “Try Try Try” e “Blast”, o duo constrói um trabalho aberto a diferentes interpretações, no qual cada ouvinte pode encontrar seus próprios significados e conexões.