Os 50 melhores discos de 2025

Do pop em constante mutação à eletrônica introspectiva, passando pelo indie rock, pelo R&B experimental e por propostas que desafiam rótulos, 2025 foi marcado pelo brilho de nomes icônicos, além das estreias marcantes. Aqui estão os 50 álbuns que mais se destacaram neste ano.

50. Jadu Heart
(POST HEAVEN)

Em quase dez anos explorando zonas híbridas entre o pop e o subterrâneo, o Jadu Heart chega a POST HEAVEN como uma obra de reconstrução, nascida do fim da relação entre Diva Jeffrey e Alex Headford, mas também de um raro amadurecimento artístico. O quarto disco do duo britânico transforma rupturas em matéria-prima, começando pela tensão luminosa de “You’re Dead”, que alterna pulsação eletrônica e introspecção enevoada, e pela carga emocional de “U”, inspirada em Magnetic Man, onde indietronica e psicodelia pop traduzem vínculos marcados por entrega e contradição. Entre instrumentais que funcionam como passagens sensoriais, surgem momentos densos como “AUX”, um rock alternativo sombrio mergulhado em culpa e exaustão, e a faixa-título, despida e melancólica, sustentada por cordas e violão. A solidão ganha forma no ritmo inquieto de “Mild To Moderate Pain”, enquanto “Lambs.exe” e “Dualism” aprofundam intimidade, lealdade e despedida por meio de eletrônica sombria e guitarras contidas. No encerramento, a balada pós-punk “SOS” assume o caos como força vital, sintetizando um álbum que, mesmo marcado por feridas, reafirma o Jadu Heart como um projeto mais coeso, livre e poderoso do que nunca.

• Coloque para tocar: “U”

49. Indigo De Souza
(Precipice)

Precipice marca uma fase de renovação criativa de Indigo De Souza, iniciada no EP WHOLESOME DEVIL FANTASY, que converte vivências internas e conflitos emocionais em um pop expansivo, lírico e honesto. A sequência começa com “Be My Love”, guiada por sintetizadores reluzentes e interpretação intensa, passa pelo clima dançante e nostálgico de “Crying Over Nothing” e pela leveza provocativa e europop de “Crush”, enquanto “Not Afraid” assume um tom reflexivo ao alternar suavidade vocal e explosões eletrônicas. O disco se aprofunda com o caráter confessional de “Be Like the Water”, ganha impulso de urgência em “Heartthrob” e desacelera na delicadeza pianística de “Dinner”, antes de crescer emocionalmente ao explorar um relacionamento desgastado em “Clean It Up”. Já “Heartbreaker” flerta com folk e country para abordar relações tóxicas, “Pass It By” recupera o brilho synthpop diante da incerteza e a faixa-título conclui o percurso como um manifesto de resistência, transformando fragilidade em impulso para seguir adiante mesmo à beira do limite.

• Coloque para tocar: “Crying Over Nothing”

48. Young Franco
(it’s Franky baby!)

O DJ e produtor australiano Young Franco apresenta seu aguardado álbum de estreia it’s Franky baby!, uma coleção das produções inovadoras e da mistura de gêneros que caracterizam o artista. Com uma energia vibrante, o álbum combina elementos de disco, italo-disco, música dance, rap e punk, trazendo influências do Reino Unido, Estados Unidos, Itália, Nigéria e Jamaica. A abertura com “Wake Up” impõe um clima cru ao unir hip hop distorcido e atitude punk, enquanto “Daydreaming” aposta em um groove disco funk caloroso, seguido pela postura confiante de “Stunt Like This”, com Kah-Lo, e pela vibração UK garage cheia de swing em “Going On”, com piri e MC DT. O percurso muda de atmosfera em “Lose Control”, com EARTHGANG e Jafunk, que mergulha em um cenário futurista e envolvente, antes de revisitar a pista com “Sing It Back”, releitura dançante de Moloko, e relaxar no flow leve de “Juice”. Já “Sunrise” encerra o ciclo em tom mais suave, flertando com a bossa nova e revelando outra faceta do produtor, consolidando um registro  que funciona como celebração coletiva, manifesto criativo e retrato fiel da versatilidade sonora de Franco.

• Coloque para tocar: “Stunt Like This”

47. Rose Gray
(Louder, Please)

Em Louder, Please, Rose Gray estreia com um trabalho vibrante que traduz sua afinidade com pistas, raves e o pop dançante dos anos 1990 e 2000, criando um repertório guiado por pulsação eletrônica e entrega emocional. O percurso começa com o clima tenso de “Damn”, passa pela euforia de “Just Two”, que faz referência ao clássico europop “Blue (Da Ba Dee)” do Eiffel 65 no refrão, e avança pelo apelo melódico de “Angel of Satisfaction”, onde ecos de Robyn e Lady Gaga se fazem presentes. A conexão coletiva surge em “Party People”, enquanto “Wet & Wild” destaca batidas intensas, piano reluzente e uma performance segura que celebra autonomia feminina. Em contraste, “Everything Changes (But I Won’t)” desacelera o ritmo ao oferecer um momento introspectivo de afirmação pessoal. Amparado por colaborações que transitam entre o pop mainstream e a eletrônica alternativa, o álbum equilibra confissão e hedonismo, consolidando Rose Gray como uma artista que transforma experiências de pista em narrativa de identidade, prazer e descoberta.

• Coloque para tocar: “Wet & Wild”

46. Tei Shi
(Make believe I make believe)

Em Make believe I make believe, a cantora e compositora canadense-colombiana Valerie Teicher Barbosa (a.k.a. Tei Shi) aprofunda sua assinatura artística ao transformar fragilidade emocional em um mosaico sonoro que cruza gêneros, idiomas e afetos com naturalidade. A travessia começa com a delicadeza de “Anything (best friend)”, segue pelo tom confessional e melancólico de “Best be leaving” e ganha ironia elétrica em “Drop dead”, onde pop distorcido e synths retrô sustentam uma postura desafiadora. A intensidade romântica emerge na bilíngue “Montón”, envolta na sensualidade do reggaeton, enquanto “Iris” revisita o espírito oitentista para celebrar um vínculo transformador. A cumplicidade aparece em “222”, parceria com Loyal Lobos que une dream pop e ritmos latinos, dialogando com o brilho pulsante de “Don’t Cry”, antes de “Aphrodite” encerrar o álbum com a dramaticidade apaixonada de um bolero. O resultado é um trabalho coeso e multifacetado, no qual experimentação, intimidade e identidade cultural se entrelaçam de forma envolvente.

• Coloque para tocar: “222”

45. Mahmundi
(BEM VINDOS DE VOLTA)

A cantora, compositora e multi-instrumentista carioca Mahmundi reafirma sua identidade ao fundir rock, trip hop, garage, drum ‘n’ bass e eletrônica intimista em BEM VINDOS DE VOLTA, disco que funciona como reencontro pessoal e artístico. Inspirado fortemente no livro ‘Simpatia’, de Castello Branco, o trabalho costura poesia, literatura e experimentação sonora, com participações de Rico Dalasam e da escritora Maria Isabel Iorio, além da coprodução dividida com Adieu (Marina Sena, Pabllo Vittar). Faixas como “MAPA MUNDI” estabelecem o clima conceitual do projeto, enquanto “FALTA” resgata uma composição antiga carregada de afeto. Já “MACIA BAHIA” e “IRREVERSÍVEL” (na qual é possível imaginar uma colaboração entre Marina Lima e Jamie xx), evidenciam o flerte com guitarras, breakbeats e texturas eletrônicas. Já “SALIVA FRISSON” e o interlúdio “VOCÊ VAI PERGUNTAR QUEM EU SOU” ampliam o diálogo entre música e palavra falada, culminando no instrumental “SOBRE OS DIAS (QUE BOM QUE VOCÊ VEIO)”, que encerra o álbum de forma aberta e contemplativa, reforçando o registro como um trabalho maduro, solar e voltado ao presente e ao futuro, como a própria artista afirma.

• Coloque para tocar: “FALTA”

44. HAIM
(I quit)

O HAIM apresenta o quarto álbum de estúdio voltado para rupturas, amadurecimento emocional e redefinição da própria identidade afetiva, traduzindo frustrações amorosas em canções diretas e cheias de personalidade. A libertação surge logo em “Gone”, reforçada pelo sample de “Freedom! ’90” de George Michael, enquanto “All over me” assume guitarras cruas para tratar de encontros sem amarras, e “Relationships” mistura pop com referências do hip hop e R&B dos anos 90 para expor cansaço e ambivalência. O trio percorre diferentes linguagens ao longo do álbum, do rock acessível de “Down to be wrong” (com influências pop à la Sheryl Crow) ao clima nostálgico que atravessa “Take me back”, passando por reflexões internas em “Love you right” e pela melancolia folk de “The Farm”. Momentos de esperança aparecem em “Lucky stars”, ganham brilho eletrônico em “Million years” e retornam à dor contida em “Cry”, até que “Now it’s time”, que incorpora o riff de “Numb” do U2, encerra o percurso com aceitação e autonomia. I quit é um trabalho coeso que transforma decepções sentimentais em um gesto de afirmação e liberdade.

• Coloque para tocar: “Relationships”

43. Samia
(Bloodless)

No terceiro disco de estúdio, Bloodless, a cantora e compositora Samia aprofunda uma investigação íntima sobre ausência, ilusão e identidade, transformando questionamentos existenciais em canções delicadas que circulam entre o folk e o indie pop. A abertura com “Bovine Excision” usa uma imagem perturbadora como alegoria para esvaziamento interno, enquanto “Hole In A Frame” ressignifica uma marca histórica como símbolo de vazio perpetuado. O disco ganha cores mais vívidas em “Lizard”, onde batidas e sintetizadores acompanham lembranças intensas e ambíguas, e retorna à introspecção em “Dare” e “Fair Game”, que capturam conflitos afetivos e instantes breves de alegria. A força resiliente aparece em “Spine Oil”, a experimentação surge em “Craziest Person” e o embate entre amor e ressentimento atravessa “Sacred”, antes de “Carousel” crescer de forma gradual até um clímax emocional. Encerrando o percurso, “Pants” assume um tom hipnótico e reflexivo, questionando escolhas passadas e a própria noção de um “eu” original, consolidando o álbum como um retrato sensível e inquietante da busca por sentido no vazio.

• Coloque para tocar: “Carousel”

42. Doja Cat
(Vie)

No quinto álbum de estúdio, Vie, Doja Cat alcança um equilíbrio notável ao lado de produtores como Jack Antonoff, Rob Biesel, George Daniel, Sounwave e Y2K, explorando o som dos anos 1980 com uma pitada de nostalgia em sintetizadores brilhantes, batidas precisas e saxofones exuberantes, presentes em faixas que transitam entre o dançante e o introspectivo. Canções como “Cards” e “Jealous Type” exploram jogos de atração, insegurança e desejo a partir de uma fusão fluida entre rap, funk e pop retrô, enquanto “Couples Therapy” traduz relações instáveis por meio de uma linha de baixo hipnótica. A estética city pop aparece em “Gorgeous”, contrastando com a excentricidade afetiva celebrada em “Stranger” e a suavidade emocional de “Acts of Service”. Ao longo do álbum, referências culturais surgem de forma criativa em faixas como “AAAHH MEN!” (com o sample do tema synthwave da série ‘A Super Máquina’) e “All Mine” (com trechos dos diálogos de Grace Jones e Olivia D’Abo do filme ‘Conan, o Bárbaro’), enquanto “Take Me Dancing”, ao lado de SZA, aposta na euforia disco, e “Silly! Fun!” encerra com leveza e ironia. O resultado reforça a versatilidade de Doja Cat ao unir pop e rap com identidade própria, confirmando sua habilidade rara de transitar entre estilos sem perder conexão artística.

• Coloque para tocar: “AAAHH MEN!”

41. caroline
(caroline 2)

Em caroline 2, o octeto londrino caroline aprofunda sua linguagem ao abandonar a contemplação mais estática do debut e apostar em uma abordagem expansiva, marcada por choques entre texturas acústicas e recursos eletrônicos, aspereza e clareza, sempre com o experimentalismo como eixo. O disco se impõe logo em “Total Euphoria”, onde desencontros rítmicos se transformam em explosão emocional, e encontra fragilidade em “Song two”, uma confissão turva construída por camadas instrumentais em tensão. A faceta mais direta surge em “Tell me I never knew that”, com Caroline Polachek, revelando lirismo luminoso, enquanto “When I get home” articula intimidade e isolamento em um arranjo pulsante e delicado. Ao longo do percurso, “U R UR ONLY ACHING” oscila entre impacto e suavidade, “Coldplay Cover” fragmenta espaços e sentimentos em simultaneidade sonora, e “Two Riders Down” transforma memória e perda em um crescendo comovente. No desfecho, “Beautiful ending” propõe serenidade e aceitação, consolidando um álbum que equilibra instabilidade e coesão com rara sensibilidade.

• Coloque para tocar: “Tell me I never knew that”

40. PinkPantheress
(Fancy That)

Em Fancy That, PinkPantheress alcança um ponto de equilíbrio entre a concisão que a revelou e estruturas pop mais clássicas, demonstrando crescimento artístico e maior segurança criativa. Após um álbum que flertou com caminhos mais comerciais, a artista britânica retoma sua identidade ao unir batidas rápidas, linhas de baixo marcantes e referências ao drum ’n’ bass com uma escrita acessível e inventiva. O registro é curto, direto e cheio de ideias, costurando samples inesperados – de Basement Jaxx, Underworld e até Panic! at the Disco – e melodias cativantes sem abrir mão da personalidade. Faixas como “Nice to Know You” e “Stateside” exploram andamentos mais suaves e introspectivos, enquanto “Romeo” surpreende com arranjos de cordas que ampliam seu universo sonoro. Assim, PinkPantheress prova que é possível evoluir sem diluir a própria essência, entregando um trabalho coeso, envolvente e que reforça seu lugar singular no pop contemporâneo.

• Coloque para tocar: “Stateside”

39. anaiis
(Devotion & The Black Divine)

Em Devotion & The Black Divine, a franco-senegalesa anaiis entrega um trabalho introspectivo e luminoso, moldado por vivências recentes de maternidade e por reflexões sobre incerteza, entrega e humanidade, sem perder uma atmosfera de calma profunda. Gravado em Londres, o álbum costura soul, jazz e texturas contemporâneas para expressar transformação interior, como em “Something is Broken”, que encara feridas e resistência, e em “Deus Deus”, um neo soul onde espiritualidade e gratidão emergem em um fluxo meditativo. A busca por harmonia se amplia em “Dreamer Too” e ganha intensidade em “Moonlight”, celebrando verdade e força emocional, enquanto “In Real Time” e “Call Me (a) (B)” abordam fragilidade e afeto com delicadeza. O percurso também contempla superação em “Here Comes The Sun”, a mudança profunda evocada em “My World (beyond)” e a esperança persistente de “Green Juice”. No encerramento, “Brights Lights” sintetiza a travessia ao transformar inquietação em acolhimento, consolidando um disco que traduz dor, amor e renascimento em uma experiência sonora serena e sincera.

• Coloque para tocar: “Dreamer Too”

38. Benjamin Booker
(LOWER)

Benjamin Booker retorna após sete anos com um disco que rompe definitivamente com suas raízes de garage rock ao mergulhar em uma fusão inquieta de hip hop experimental, dream pop e ruído, construída em parceria com Kenny Segal. Guiado por um vocal áspero e íntimo, o álbum encara temas como violência, solidão e desejo a partir de narrativas densas, começando pela abertura incisiva de “BLACK OPPS” e avançando pela tensão sombria de “SPEAKING WITH THE DEAD”. Questões históricas e morais surgem em “REBECCA LATIMER FELTON TAKES A BBC”, enquanto “SAME KIND OF LONELY” transforma caos sonoro em reflexão existencial. A sensibilidade aparece de forma mais direta em “SLOW DANCE IN A GAY BAR” e “HEAVY ON MY MIND”, onde vulnerabilidade e anseio se entrelaçam, antes do encerramento com “HOPE FOR THE NIGHT”, que expõe uma luta íntima marcada por recaídas e resistência. O resultado é um trabalho cru e singular, que reafirma Booker como um artista disposto a se reinventar sem concessões.

• Coloque para tocar: “SLOW DANCE IN A GAY BAR”

37. Kali Uchis
(Sincerely,)

Em Sincerely,, Kali Uchis aprofunda sua assinatura neo soul ao transformar vivências afetivas e a experiência da maternidade em um repertório delicado, elegante e confessional. A grandiosidade cinematográfica aparece em “Heaven is a Home…”, enquanto “Sugar! Honey! Love!” e “ILYSMIH” traduzem ternura e alegria cotidiana em melodias suaves. A entrega emocional ganha contornos frágeis em “Lose My Cool,”, expande-se no clima psicodélico de “It’s Just Us” e se recolhe na intimidade de “For: You”. Sensualidade e sombra coexistem em “Silk Lingerie,” e “Territorial”, antes de “Fall Apart,” flertar com rock psicodélico sem abandonar o soul. O disco ainda revisita o romantismo clássico em “All I Can Say”, expressa indignação solidária em “Daggers!”, desliza com leveza em “Breeze!” e encontra equilíbrio final em “Sunshine & Rain…”. O resultado reafirma Kali como uma artista que constrói narrativas emocionais coesas, unindo amor, amadurecimento e sensibilidade em um mesmo gesto criativo.

• Coloque para tocar: “All I Can Say”

36. Bon Iver
(SABLE, fABLE)

Em SABLE, fABLE, quinto álbum de estúdio do Bon Iver, Justin Vernon amplia a história iniciada no EP SABLE ao unir introspecção e renovação em um projeto de contrastes bem definidos. A primeira parte revisita a essência folk minimalista, guiada por voz e violão, onde faixas como “S P E Y S I D E”, “THINGS BEHIND THINGS BEHIND THINGS” e “AWARDS SEASON” traduzem fragilidade emocional, incertezas e a lenta reconstrução após um período turbulento. Já em fABLE, o artista retoma a paleta sonora mais expansiva de seus trabalhos recentes, abrindo com a espiritualidade calorosa de “Short Story” e avançando para a euforia nostálgica de “Everything Is Peaceful Love” e a celebração afetiva de “Walk Home”. O percurso segue entre experimentação e sensibilidade no pop experimental de “Day One”, o lirismo contemplativo e a guitarra country de “From”, as referências setentistas de “I’ll Be There” e a delicadeza compartilhada com Danielle Haim em “If Only I Could Wait”, antes de encontrar serenidade em “There’s A Rhythm” e encerrar com a instrumental “Au Revoir”. Assim, o disco equilibra sombra e luz, revelando um Bon Iver que transforma recolhimento em esperança.

• Coloque para tocar: “If Only I Could Wait”

35. Saya Gray
(SAYA)

No álbum de estreia SAYA, a nipo-canadense Saya Gray transforma um período de ruptura e deslocamento em uma obra de autoconhecimento, guiada por temas como defesa emocional, fé nos vínculos, perda e amadurecimento afetivo. Criado a partir de uma jornada solitária pelo Japão, o disco reflete a liberdade e a introspecção da estrada, incorporando referências clássicas e resultando em um folk mais lírico e refinado. Faixas como “..THUS IS WHY ( I DON’T SPRING 4 LOVE )” expõem desilusões com leveza rítmica, enquanto “SHELL ( OF A MAN )” canaliza o impulso de recomeço em um arranjo folk e country caloroso. O desencanto ganha contornos mais fragmentados em “LINE BACK 22”, ao passo que “PUDDLE ( OF ME )” externaliza frustrações com energia direta. A vulnerabilidade aparece em “HOW LONG CAN YOU KEEP UP A LIE?” e se aprofunda em “H.B.W.”, que encara o luto com sensibilidade etérea, antes de “EXHAUST THE TOPIC” traduzir inquietações existenciais em um clímax psicodélico. “LIE DOWN..” sintetiza o percurso ao refletir sobre identidade e escolhas, consolidando um trabalho íntimo, concebido em movimento e marcado por honestidade emocional.

• Coloque para tocar: “SHELL ( OF A MAN )”

34. Luedji Luna
(Um Mar Pra Cada Um,)

Em Um Mar Pra Cada Um, – com uma vírgula no título -, quarto álbum de estúdio, a artista baiana Luedji Luna aprofunda sua investigação sensível sobre o amor ao explorar desejo, afeto e ausência a partir de um lugar ainda mais íntimo, encerrando a trilogia iniciada em Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água. Com forte diálogo entre jazz e neo soul, o disco revela que a vastidão emocional cantada pela artista também carrega dores e inquietações que impulsionam sua necessidade de amar e ser amada. Inspirado por obras como A Love Supreme (clássico de John Coltrane) e pelo universo de Sade, o projeto reúne parcerias marcantes em faixas como “Dentro Ali”, com Nubya Garcia, “Joia”, ao lado de Isaiah Sharkey, “Harem”, com Liniker, e “Salty”, com Takuya Kuroda. O álbum ainda conecta gerações ao incorporar referências literárias e musicais, seja no instrumental “Gênesis”, no sample de “Pérola Negra” – clássico de Luiz Melodia imortalizado por Gal Costa – em “Joia”, ou na potente “Baby Te Amo”, que musicou um poema da intelectual e ativista negra Beatriz Nascimento (1942-1995) com sua voz resgatada por inteligência artificial. A dimensão visual, inspirada na biodiversidade marinha, reforça a metáfora central do disco: o amor como um oceano diverso, estranho e profundamente belo.

• Coloque para tocar: “Joia”

33. Lady Gaga
(MAYHEM)

Lady Gaga revisita o lado mais obscuro e teatral que marcou seus primeiros passos, combinando essa estética a letras enigmáticas e uma produção que sintetiza referências decisivas de sua trajetória. MAYHEM ganha força com “Disease”, que mergulha no pop industrial de clima opressivo à la Nine Inch Nails, e com “Abracadabra”, onde o eletropop dançante assume contornos ritualísticos. A crítica à fama aparece em “Perfect Celebrity”, com influências do grunge com elementos eletropop, enquanto “Garden Of Eden” resgata a urgência do eletroclash e “Vanish Into You” dialoga com o funk e o brilho oitentista. Em parceria com Gesaffelstein, “Killah” (com riffs de guitarra que fazem uma clara referência a “Fame”, de David Bowie) investe em tensão e atitude, ao passo que “Zombieboy” mistura disco e emoção ao celebrar excessos e memórias. A nostalgia pop permeia “LoveDrug” e “How Bad Do U Want Me”, enquanto “Shadow Of A Man” cruza house francês e reflexões sobre gênero e poder. “Blade of Grass” e “Die With a Smile” revelam uma faceta mais sensível, confirmando MAYHEM como um retorno confiante às origens, atualizado e pronto para reafirmar Gaga no centro do pop contemporâneo.

• Coloque para tocar: “Killah”

32. Wet Leg
(moisturizer)

Em moisturizer, segundo álbum da banda de indie rock Wet Leg, Rhian Teasdale e Hester Chambers preservam o humor afiado que as revelou, mas aprofundam o olhar sobre relações afetivas por meio de confissões pouco ortodoxas. O disco se apresenta logo em “CPR”, que questiona limites emocionais com guitarras ásperas e pulsação intensa, e segue explorando estados de paixão e autonomia em faixas como “liquidize” e a explosiva “catch these fists”. O romantismo ganha contornos mais delicados em “davina mccall”, enquanto “jennifer’s body” revive a eletricidade de um amor impulsivo. Já “mangeout” assume sarcasmo direto, contrastando com o entusiasmo inesperado de “pond song” e o espírito livre de “pokemon”. Entre desejo e simplicidade, “pillow talk” e “don’t speak” revelam facetas opostas da intimidade, antes do encerramento com a suavidade de “11:21” e “u and me at home”. Assim, o álbum equilibra ironia, franqueza e sensibilidade, consolidando uma evolução natural na sonoridade da banda.

• Coloque para tocar: “mangetout”

31. Ezra Furman
(Goodbye Small Head)

Antes de lançar Goodbye Small Head, Ezra Furman definiu o álbum como “cinematográfico e intenso”. Se estivesse na posição de crítica musical, a artista o descreveria como “uma fusão de emo e prog-rock orquestral, entremeado por samples”. As doze faixas, segundo ela, exploram diferentes facetas da perda de controle – seja pela fragilidade humana, doença, misticismo, BDSM, substâncias, desilusão amorosa ou simplesmente pela experiência de existir de olhos abertos em uma sociedade decadente. A intensidade se impõe logo em “Grand Mal”, onde cordas e piano ampliam estados de êxtase e colapso, e reaparece em “Sudden Storm”, um vendaval de violinos e guitarras. Episódios de perigo e fuga ganham forma no ímpeto de “Jump Out”, enquanto “Power of the Moon” articula pulsação eletrônica e surf rock em um confronto com forças invisíveis. O peso de esconder vulnerabilidades atravessa “You Mustn’t Show Weakness”, e a dependência emocional se manifesta de modo inquietante em “Submission”. Em contraste, “Veil Song” revela introspecção acústica, “You Hurt Me I Hate You” revisita um afeto corrosivo com nostalgia amarga, e “A World of Love and Care” denuncia a escassez de empatia coletiva. O encerramento com “I Need the Angel” sintetiza angústia e anseio por redenção, consolidando um disco visceral, inquieto e profundamente humano.

• Coloque para tocar: “Grand Mal”

30. Nourished by Time
(The Passionates Ones)

Em The Passionate Ones, segundo álbum do projeto Nourished by Time, Marcus Brown transforma a diversidade cultural de Baltimore em matéria-prima para um trabalho que cruza jazz, punk, indie, hip hop, eletrônica e R&B com naturalidade singular. O registro apresenta um olhar contemporâneo sobre afeto, esforço cotidiano, desejos, desencantos e resistência, retratando a caminhada de um artista que tenta conciliar ambição e fragilidade em um cenário instável. Ao longo das faixas, Brown constrói um relato íntimo e social ao mesmo tempo, no qual paixões, vícios e sobrevivência coexistem como forças contraditórias, mas essenciais, revelando um retrato honesto de crescimento, adaptação e persistência.

• Coloque para tocar: “Max Potential”

29. Destroyer
(Dan’s Boogie)

O Destroyer retorna após um período de recolhimento criativo com um disco livre, mutável e sofisticado, no qual o canadense Dan Bejar costura diferentes linguagens sonoras em uma narrativa cheia de personagens e reflexões existenciais. Dan’s Boogie se apresenta grandioso logo em “The Same Thing As Nothing At All”, enquanto “Hydroplaning Off the Edge of the World” aposta em um synthpop etéreo para tratar de pertencimento e transitoriedade. Ao longo do percurso, Bejar flerta com o jazz na faixa-título, atravessa o country em “The Ignoramus of Love” e mergulha na intensidade emocional de “Bologna”, ao lado de Simone Schmidt (do Fiver). A dramaticidade ganha contornos épicos em “Sun Meet Snow”, enquanto “Cataract Time” expande uma estrutura pop em oito minutos hipnóticos, marcados por harpas, guitarras e saxofone, refletindo sobre o desgaste da superficialidade cotidiana. “Travel Light” adota um minimalismo elegante e contemplativo, reforçando a sensação de desprendimento. Assim, Dan’s Boogie reafirma o Destroyer como um projeto inquieto e multifacetado, equilibrando exuberância, intimismo e invenção com rara naturalidade

• Coloque para tocar: “Bologna”

28. Isabella Lovestory
(Vanity)

Em Vanity, segundo álbum de Isabella Lovestory, a artista hondurenha aprofunda sua visão de pop experimental ao transformar estética, desejo e fragilidade em matéria sonora, criando um retrato provocador da beleza e de sua impermanência. Com produção de Chicken, Kamixlo e Mechatok, além da participação de TAICHU em “Putita Boutique”, o disco funciona como uma colagem de referências que dialogam com memórias formadas entre Honduras, Virgínia e Montreal, evocando o fluxo imprevisível das rádios que marcaram sua infância. A obra atravessa gêneros com naturalidade, passando pelo reggaetón e hip hop de “Telenova” e “Puchica”, pelo brilho europop de “Pill”, pelo clima synthwave da faixa-título e pela energia Y2K de “Gorgeous”, que combina apelo pop imediato e ruptura experimental. Ao equilibrar sensualidade, melancolia e ousadia, Isabella reafirma sua identidade singular, entregando um álbum que reinventa o pop a partir da extravagância, da vulnerabilidade e da autenticidade.

• Coloque para tocar: “Telenovela”

27. Sharon Van Etten & the Attachment Theory
(Sharon Van Etten & the Attachment Theory)

Sharon Van Etten inaugura uma nova fase ao dividir integralmente a criação com sua banda, adotando um processo coletivo que amplia sua paleta sonora sem abandonar a intensidade emocional que define sua obra. Sharon Van Etten & the Attachment Theory preserva reflexões sobre afeto, existência e vínculos, agora envoltas em arranjos mais incisivos e ousados, como a dramaticidade confessional de “Trouble” e a tensão sombria de “Southern Life (What It Must Be Like)”, que evoca o rock alternativo oitentista. A atmosfera ganha contornos teatrais em “Afterlife”, onde eletrônica e guitarras sustentam questionamentos sobre identidade e solidão, enquanto “Idiot Box” critica o isolamento tecnológico por meio do synthpop. O percurso segue com a franqueza roqueira de “Indio”, o impulso dançante de “I Can’t Imagine (Why You Feel This Way)” e o clima gótico de “Somethin’ Ain’t Right”, que investiga fraturas nas relações humanas. “I Want You Here” assume um tom cinematográfico e delicado, sintetizando um material que representa tanto evolução estética quanto aprofundamento emocional, agora compartilhado em grupo.

• Coloque para tocar: “Afterlife”

26. Lorde
(Virgin)

Quatro anos após seu último trabalho, Lorde está de volta com Virgin, abandonando a estética luminosa de Solar Power para abraçar um processo de reinvenção criativa e pessoal. O álbum marca um retorno às raízes da artista, com composições sinceras e profundas que abordam conflitos com a autoimagem, heranças familiares dolorosas, descobertas sobre identidade e as complexidades do amor, revisitando até mesmo a inocência e as inseguranças da juventude. O disco se inicia com “Hammer”, que traduz libertação e ambiguidade em camadas eletrônicas pulsantes, enquanto “What Was That” retoma a intensidade emocional de Melodrama ao encarar a saudade de um amor que já não basta. Conflitos entre imagem pública e verdade íntima atravessam “Shapeshifter”, ao passo que “Man Of The Year” cresce de forma gradual até um clímax que simboliza emancipação e autodescoberta. A relação materna ganha contornos sensíveis em “Favourite Daughter”, contrastando expectativa e vulnerabilidade, enquanto “Current Affairs” e “Clearblue” exploram desejo, medo e intimidade com delicadeza e tensão. A maturidade aparece em faixas como “GRWM” e “Broken Glass”, que confrontam adolescência, autoestima e controle, antes de “If She Could See Me Now” celebrar crescimento e reconciliação com o passado. No encerramento, “David” transforma dor em força, selando Virgin como um álbum de reinvenção consciente, onde fragilidade e autonomia coexistem em equilíbrio.

• Coloque para tocar: “Current Affairs”

25. Tunde Adebimpe
(Thee Black Boltz)

Tunde Adebimpe, conhecido como um dos fundadores, vocalista e principal compositor da banda TV On The Radio, lança seu primeiro álbum solo Thee Black Boltz. O disco surge como uma resposta artística ao clima de incerteza global no pós-pandemia, ao avanço de regimes autoritários e à dor íntima de lutos recentes – incluindo a perda trágica de sua irmã mais nova durante a produção do trabalho. O álbum alterna energia e introspecção, começando pelo impulso indie de “Magnetic”, que revisita a urgência visceral já conhecida, e avançando para a mutação agressiva do punk industrial de “Ate The Moon” e o groove distorcido de “Pinstack”, faixas que encaram ruptura e mudança sem concessões. A reflexão ganha contornos mais íntimos em “Drop” e na delicadeza confessional de “ILY”, enquanto “The Most” e “God Knows” mergulham na dor dos vínculos desfeitos com metáforas sonoras e climáticas densas. O lado mais acessível surge em “Somebody New”, com eletrônica luminosa e desejo de recomeço, antes de “Streetlight Nuevo” encerrar o percurso em ritmo acelerado e simbólico. Assim, Adebimpe inaugura um capítulo marcado por coragem criativa, emoção crua e vitalidade artística renovada.

• Coloque para tocar: “Magnetic”

24. Rochelle Jordan
(Through The Wall)

Rochelle Jordan vive um momento de afirmação plena, assumindo com segurança sua fase diva após anos como figura essencial do underground. A cantora e compositora britânico-canadense radicada em Los Angeles construiu, ao lado do diretor criativo e produtor KLSH, uma identidade sonora própria que cruza R&B alternativo, eletrônica pulsante, house, drum ‘n’ bass, hip hop e experimentação, um caldeirão que aos poucos transbordou para além dos círculos nichados. Enquanto o single “Lowkey” ganhava nova vida e viralizava em 2023, ela trabalhava discretamente com nomes como KAYTRANADA e Sango, preparando faixas pensadas tanto para pistas quanto para escutas íntimas. Agora, com o reconhecimento finalmente alinhado ao seu percurso, Jordan avança com brilho renovado e maturidade artística, aprofundando seu flerte com o pop sem perder a ousadia que marca seus vocais sedutores e cenários sonoros intensos. O lançamento de “Crave”, primeiro single do registro, produzido pela lenda do house de Chicago Terry Hunter, simboliza com clareza esse ponto alto e decisivo de sua trajetória ascendente.

• Coloque para tocar: “The Boy”

23. Ela Minus
(DÍA)

Em DÍA, a artista colombiana Gabriela Jimeno Caldas (a.k.a. Ela Minus) amplia seu universo criativo ao trocar a intimidade noturna da estreia acts of rebellion, por uma eletrônica mais reflexiva e aberta, voltada a processos de mudança, cura e reconstrução pessoal. O percurso se inicia com “BROKEN”, que transforma a dor em resistência por meio de sintetizadores brilhantes e pulsação firme, enquanto “ONWARDS” funde hipnose eletrônica e impulso punk como sinal de continuidade. A sequência conceitual formada por “AND” e “UPWARDS” cria um arco de tensão e proteção, culminando em um pop intenso e expansivo. Em “QQQQ”, batidas de house e ritmos latinos sustentam uma sensação de rendição apocalíptica, contrastando com a vulnerabilidade de “I WANT TO BE BETTER”, que encara falhas afetivas em uma paisagem sonora quase fantástica. Por fim, “COMBAT” reúne timbres celestiais e ecos de techno e new age, selando um álbum que equilibra acessibilidade e experimentação, revelando uma Ela Minus mais consciente, ousada e emocionalmente exposta.

• Coloque para tocar: “BROKEN”

22. Oklou
(choke enough)

Em choke enough, álbum de estreia de Oklou, alter ego de Marylou Mayniel, a artista constrói um retrato íntimo e multifacetado de transformação pessoal, articulado por uma sonoridade que transita entre delicadeza emocional e exploração eletrônica. O disco combina texturas ambientais, batidas club minimalistas, arpejos sutis de sintetizador e ruídos cotidianos, refletindo um estado constante de deslocamento e busca. A faixa-título expressa o desejo por sentido e impacto, seja em revelações profundas ou em momentos aparentemente banais, enquanto “family and friends” evoca inquietações silenciosas e tentativas de fuga de sentimentos difíceis de nomear. No desfecho, “want to wanna come back” e “blade bird” partem da contenção para alcançar uma intensidade crescente, com orquestrações digitais que ampliam reflexões sobre vínculos afetivos, pertencimento e a necessidade de conciliar rotina e conexão. Inserida em uma geração moldada pela internet e marcada por colaborações com nomes como Mura Masa e A. G. Cook, Oklou demonstra aqui um amadurecimento artístico que desloca o olhar do íntimo para o entorno, equilibrando realidade e sonho em uma obra que questiona limites e estimula a contemplação.

• Coloque para tocar: “family and friends”

21. Tyler, The Creator
(DON’T TAP THE GLASS)

Em DON’T TAP THE GLASS, sequência de CHROMAKOPIA, Tyler, The Creator entrega um disco curto, explosivo e pensado para o movimento, transformando a pista de dança em resposta ao medo contemporâneo de se expressar em público. Com apenas 28 minutos, o álbum canaliza energia, ironia e crítica social desde a abertura frenética de “Big Poe”, passando pelo clima italo disco etéreo de “Sugar On My Tongue” e pela autoconfiança noventista de “Sucka Free”. Faixas como “Ring Ring Ring” revelam vulnerabilidade afetiva, enquanto “Stop Playing With Me” e “Don’t Tap That Glass / Tweakin’” apostam em provocação, caos e afirmação de poder. O hedonismo surge em contraste com introspecção em momentos como “Don’t You Worry Baby” e “I’ll Take Care of You”, até culminar no conflito emocional de “Tell Me What It Is”, onde riqueza e vazio coexistem. O resultado é um trabalho visceral que mistura diversão, desconforto e reflexão, reafirmando Tyler como um artista disposto a arriscar e tensionar os limites do rap contemporâneo.

• Coloque para tocar: “Sugar On My Tongue”

20. Wolf Alice
(The Clearing)

Distante do indie rock mais abrasivo de faixas como “Bros” e de momentos épicos como Visions of a Life, em The Clearing, o quarteto indie britânico Wolf Alice entrega-se a uma estética que flerta com o indie pop e um forte espírito setentista, perceptível em arranjos de cordas, harmonias luxuosas e canções como “Just Two Girls”, que ecoa Rumors do Fleetwood Mac. O grande destaque é Ellie Rowsell, cuja performance vocal impressiona do início ao fim, especialmente em “Bloom Baby Bloom”, onde sua extensão e intensidade atingem o auge com uma base de piano marcada por groove e influências jazz, evoluindo para um rock clássico intenso com um apelo pop, enquanto a balada introspectiva “The Sofa” sintetiza liricamente o tema central de autoaceitação e amadurecimento emocional. Entre reflexões sensíveis e o brilho clássico, The Clearing confirma o Wolf Alice como um grupo que segue avançando, refinando sua narrativa e ampliando seu universo sonoro sem perder intensidade.

• Coloque para tocar: “The Sofa”

19. Blood Orange
(Essex Honey)

Blood Orange retorna após sete anos com um disco profundamente pessoal, no qual Devonté Hynes transforma memória, luto e pertencimento em matéria sonora, evocando tanto a juventude em Essex quanto a perda da mãe e o acolhimento encontrado na música e na comunidade que construiu. A abertura com “Look At You” estabelece um clima delicado e contemplativo, enquanto “Thinking Clean” revisita lembranças de crescimento e escapismo por meio de um arranjo que evolui do íntimo ao dançante. Ao longo do álbum, faixas como “Somewhere in Between” e “The Field” exploram a maturidade, a saudade e a dificuldade de abandonar o passado, apoiadas por colaborações sensíveis e referências que transitam entre o soul, o jazz, o eletrônico e o pop alternativo. Momentos etéreos como “Mind Loaded” e “I Can Go” aprofundam o sentimento de isolamento e, ao mesmo tempo, apontam para a possibilidade de seguir adiante, enquanto “The Last of England” cristaliza lembranças irreversíveis em uma paisagem emocional densa. Assim, o disco funciona como um diário sonoro que reflete não só a trajetória de Hynes, mas também um estado coletivo marcado por melancolia, aceitação e a busca silenciosa por cura.

• Coloque para tocar: “The Field”

18. Dijon
(Baby)

Com um currículo que passa por colaborações com Bon Iver, Justin Bieber e até o cinema de Paul Thomas Anderson (em ‘Uma Batalha Após a Outra’), Dijon finalmente consolida sua própria identidade em Baby, um álbum que não representa ruptura, mas afirmação. Após chamar atenção com Absolutely e faixas como “Many Times”, o cantor e produtor aprofunda uma estética íntima e artesanal. Canções como “Baby!” e “Another Baby!” revelam um olhar sensível sobre paternidade, amor e desejo, equilibrando suavidade lírica com grooves envolventes e referências que vão de Janet Jackson a Luther Vandross. O disco alterna momentos de experimentação intensa em “FIRE!” e “HIGHER!” com instantes de vulnerabilidade quase silenciosa, enquanto faixas como “Yamaha” e “Automatic” evidenciam um domínio vocal e emocional raro no R&B atual. Baby reafirma Dijon como um artista que honra a tradição do gênero ao mesmo tempo em que a empurra para territórios imprevisíveis.

• Coloque para tocar: “Yamaha”

17. Annahstasia
(Tether)

Em Tether, a cantora e compositora nigeriana-americana Annahstasia Enuke, que assina apenas como Annahstasia, finalmente concretiza a visão artística que lhe foi negada no início da carreira, entregando um álbum de estreia moldado por maturidade, vivências e uma fusão elegante de folk, soul e jazz. Com produção refinada e sensível, o disco valoriza sua voz intensa e emocional, que conduz reflexões sobre afeto, identidade, tempo e libertação pessoal. Canções como “Be Kind” e “Villain” revelam fragilidade e força em igual medida, enquanto “Unrest” e “Take Care of Me” ampliam o intimismo com arranjos sutis e contemplativos. A participação de Obongjayar em “Slow” acrescenta profundidade política e poética, diálogo que também se estende a “All Is. Will Be. As It Was.”. Já “Silk And Velvet” desponta como um dos momentos mais impactantes, ao tensionar beleza e crítica social em uma construção crescente. Entre episódios de esperança, conflito e autoconhecimento, Annahstasia transforma Tether em um manifesto pessoal, rompendo expectativas externas para afirmar, com honestidade e sofisticação, a própria voz.

• Coloque para tocar: “Villain”

16. Alex G
(Headlights)

Alex Giannascoli (a.k.a. Alex G) apresenta Headlights, álbum que sucede o celebrado God Save The Animals e marca sua estreia pela RCA, reunindo doze faixas gravadas entre Filadélfia e Nova Iorque com produção de Jacob Portrait, colaborador recorrente do artista. O disco aprofunda a identidade singular do músico ao transitar com naturalidade por diferentes linguagens sonoras, combinando narrativas oníricas, intimistas e confessionais com arranjos que vão do folk delicado ao indie rock contido, passando pelo alt-country, shoegaze e pop experimental. Canções como “June Guitar” evocam nostalgia afetiva em instrumentações orgânicas, enquanto “Real Thing” e “Afterlife” exploram oportunidades perdidas, transições de vida e reflexões existenciais em climas sutis e contemplativos. Faixas como “Beam Me Up” e “Spinning” revelam urgência emocional e melancolia, expondo conflitos humanos, relações desgastadas e buscas por sentido, ao passo que “Louisiana” e “Bounce Boy” ampliam a intensidade sonora com texturas mais densas e sintetizadores pulsantes. Momentos mais calorosos surgem em “Oranges”, enquanto “Far and Wide” se destaca pela carga emotiva das cordas e pela interpretação frágil e confessional. A faixa-título traduz solidão e deslocamento em camadas reverberadas, e “Is It Still You In There?” questiona identidade e intimidade com produção refinada e vocais femininos de apoio, incluindo Molly Germer. Encerrado com “Logan Hotel (Live)”, registro cru do cansaço e das contradições da vida em turnê, Headlights reafirma Alex G como uma das vozes mais originais e influentes do indie contemporâneo, capaz de transformar vulnerabilidade pessoal em experiência musical universal.

• Coloque para tocar: “Afterlife”

15. Obongjayar
(Paradise Now)

O artista nigeriano Steven Umoh (a.k.a. Obongjayar) lança seu segundo álbum de estúdio, Paradise Now. O trabalho mergulha em temas como identidade, resiliência, solidão e a busca por significado, tudo envolto em uma sonoridade eclética que passeia entre o eletrônico, o soul, o afrobeat, o punk e orquestrações grandiosas. A travessia começa com “It’s Time”, de tom contemplativo, e ganha tensão em “Life Ahead”, onde guitarras afiadas acompanham questionamentos sobre solidão e heranças emocionais. O disco alterna delicadeza e confronto em faixas como “Peace In Your Heart” e a balada romântica “Moon Eyes”, enquanto “Holy Mountain” aborda espiritualidade com leveza rítmica. O viés mais crítico surge em “Jellyfish”, um ataque synth-punk à hipocrisia, e em “Talk Olympics”, parceria com Little Simz que ironiza discursos vazios. O corpo do álbum se expande com o charme perigoso de “Sweet Danger”, a libertação noturna de “Not In Surrender” e a fúria transformadora de “Instant Animal”, antes de reafirmar força em “Strong Bone” e introspecção criativa em “Just My Luck”. No encerramento, “Happy Head” sintetiza aceitação e equilíbrio, confirmando Paradise Now como uma obra plural, corajosa e decisiva na trajetória do artista.

• Coloque para tocar: “Not In Surrender”

14. Heartworms
(Glutton For Punishment)

Em Glutton For Punishment, Heartworms, projeto solo de Jojo Orme, estreia com um disco intenso e autoral, produzido por Dan Carey (Fontaines D.C.black midi), que articula pulsões góticas, batidas motorik e tensão pós-punk para investigar vínculos quebrados, instabilidade emocional e a sedução do conflito. O clima se instala com o prelúdio enigmático “In The Beginning” antes da dramaticidade direta de “Just To Ask A Dance”, onde desejo e confronto caminham juntos. A agressividade rítmica de “Jacked” e o impulso dançante distorcido de “Mad Catch” traduzem relações à beira do colapso, enquanto “Extraordinary Wings” assume um tom cinematográfico e introspectivo, revelando dilemas internos com força lírica. Em “Warplane”, baixo pulsante e percussão marcial sustentam um discurso contundente de viés antiguerra, contrastando com a delicadeza sombria que permeia o álbum. O trabalho culmina no impacto de “Smugglers Adventure” e na faixa-título, que encerra o trabalho de forma contida e reflexiva, confirmando uma estreia marcante, guiada por identidade própria, coragem estética e grande intensidade emocional.

• Coloque para tocar: “Extraordinary Wings”

13. Sudan Archives
(THE BPM)

Em The BPM, a cantora, compositora e multi-instrumentista Brittney Parks (a.k.a Sudan Archives) transforma o movimento em manifesto ao criar um álbum concebido para tirar corpos da inércia e colocá-los em sintonia coletiva, nascido da decisão de se expressar de forma mais autêntica por meio da persona “Gadget Girl”. O disco funciona como uma jornada futurista em que tecnologia e humanidade se chocam e, aos poucos, encontram equilíbrio, mas também reflete um período emocionalmente delicado após um rompimento, resultando em uma obra tão dançante quanto confessional. A abertura com “DEAD” já sinaliza essa fusão ao unir violino orquestral e pulsação techno, enquanto faixas como “COME AND FIND YOU” e “YEA YEA YEA” misturam afropop, dancehall, jazz, R&B e house psicodélico para falar de conexão e memória afetiva. O álbum avança com momentos de autoafirmação sensual em “TOUCH ME”, reverência à house de Detroit em “A BUGS LIFE” e “THE NATURE OF POWER”, explosão rap futurista em “MY TYPE”, retratando uma mulher segura de sua sexualidade, e experimentação emocional em “SHE’S GOT PAIN”. Entre reflexões sobre tecnologia em “A COMPUTER LOVE”, a energia máxima da faixa-título e a irreverência de “MS PAC MAN”, Parks encerra com “HEAVEN KNOWS”, reafirmando sua humanidade. The BPM apresenta uma artista renovada, capaz de unir inovação sonora, vulnerabilidade e celebração física em um mesmo gesto criativo.

• Coloque para tocar: “DEAD”

12. Perfume Genius
(Glory)

Em Glory, sétimo trabalho de Perfume Genius, Mike Hadreas aprofunda sua escrita confessional ao lado de Alan Wyffels e do produtor Blake Mills, apoiado por uma banda robusta que amplia o alcance emocional do disco. Entre rock, art-pop e ecos country, o álbum transforma imagens sombrias e ironia em reflexões sensíveis sobre afeto, medo e amadurecimento. “It’s a Mirror” expõe uma relação marcada por conflitos e lembranças persistentes, enquanto “Clean Heart” evolui de delicadeza quase infantil para uma explosão expansiva que sugere cura com o passar do tempo. A parceria com Aldous Harding em “No Front Teeth” traz tensão e catarse ao tratar das cicatrizes deixadas pelo passado, ao passo que “Me & Angel” e “Left For Tomorrow” revelam vulnerabilidade diante da perda e da incerteza. Em faixas como “Full On”, “Capezio” e “In a Row”, Hadreas explora fragilidade, desejo e aprisionamento emocional por meio de arranjos inquietos e narrativas simbólicas. No encerramento, “Glory” surge como um momento de aceitação serena, onde voz e orquestração conduzem a uma sensação de reconciliação íntima, consolidando o álbum como um retrato intenso de humanidade em meio ao caos.

• Coloque para tocar: “It’s a Mirror”

11. Jessica Winter
(My First Album)

Em My First Album, Jessica Winter estreia de forma afirmativa no alt-pop ao transformar experiências de abuso e reinvenção em um projeto majoritariamente autoproduzido, vibrante e diverso, que cruza indie, industrial e dance com referências ao pop icônico dos anos 80 e 2000. Inspirada por figuras como Kylie Minogue, Madonna e Prince, ela constrói um repertório que alterna euforia e vulnerabilidade: “Nirvana” abre o disco em clima psicodélico rumo à catarse eletrônica, “L.O.V.E” desmonta dinâmicas afetivas nocivas sobre batidas dançantes, enquanto “Aftersun” e “Feels Good (For Tonight)” celebram o hedonismo com um brilho melancólico. A busca por reconhecimento aparece em “Big Star”, a autocrítica vira hino em “Worst Person In The World”, e a inquietação existencial pulsa em “All I Ever Really Wanted” (imagine uma parceria do New Order com Kylie Minogue e Grimes da era Art Angels) e “Wannabe”. Já “Got Something Good” tensiona pop e rock industrial como gesto de superação, “Only Lonely” encara a persistência do apego, e “To Know Her” sela o álbum como um manifesto de autonomia e autoaceitação. O resultado é um trabalho confessional, ousado e libertador, onde Winter consolida sua identidade ao converter dor em energia criativa e celebração pessoal.

• Coloque para tocar: “All I Ever Really Wanted”

10. Erika de Casier
(Lifetime)

Lançado de surpresa apenas um ano após Still, Lifetime marca o retorno confiante de Erika de Casier com um trabalho totalmente escrito e produzido por ela, concebido como um mosaico afetivo de referências assimiladas com personalidade. Antecipado de forma enigmática por fitas cassete anônimas que se esgotaram rapidamente no Bandcamp, o álbum nasce, segundo a própria artista, do prazer de criar sem cobranças, o que se reflete em uma sonoridade livre e envolvente. Inspirada pelas madrugadas da MTV dos anos 90, Erika constrói um universo onde pop, R&B e hip hop se cruzam com naturalidade, evocando desde atmosferas oníricas à la Bedtime Stories (Madonna) até ecos de trip hop e downtempo sofisticado. Em “Delusional”, o uso inesperado de um sample de “Insane in the Brain” do Cypress Hill serve de pano de fundo para uma narrativa sobre desejo e idealização, exemplificando como o disco homenageia o passado sem perder frescor. Lifetime se afirma, assim, como uma obra nostálgica e atual ao mesmo tempo, guiada por sensibilidade, coesão estética e forte carga emocional.

• Coloque para tocar: “Delusional”

09. Amaarae
(BLACK STAR)

Em BLACK STAR, a produtora, cantora e rapper Ama Serwah Genfi (a.k.a. Amaarae) faz um retorno triunfal às suas raízes ao transformar a herança ganesa em ponto de partida para um pop global ousado, hedonista e profundamente pessoal. Após afirmar sua identidade em The Angel You Don’t Know e Fountain Baby, a artista amplia esse universo com um disco que mistura funk brasileiro (“Girlie-Pop!”), R&B, house e dembow. A abertura com “Stuck Up” já estabelece o clima escapista e noturno, enquanto faixas como “Fyneshit” e o single “S.M.O.” exibem glamour, autoconfiança e controle absoluto da pista. Em BLACK STAR, o corpo vira pista de dança, perceptível em canções como “Starkilla” e “She Is My Drug”, onde prazer, vulnerabilidade e excesso se entrelaçam. A colaboração com Naomi Campbell em “ms60” cristaliza o tema da contradição entre poder, desejo e controvérsia, enquanto momentos mais contemplativos surgem em “Dream Scenario” e ganham novo fôlego rítmico em “100DRUM”. Vibrante e consciente de si, BLACK STAR consolida Amaarae como uma artista em constante reinvenção, capaz de criar experiências que equilibram euforia, reflexão e liberdade.

• Coloque para tocar: “S.M.O.”

08. Bad Bunny
(DeBÍ TiRAR MáS FOToS)

Em DeBÍ TiRAR MáS FOToS, Bad Bunny entrega um trabalho profundamente enraizado em Porto Rico, transformando memória, afeto e identidade em eixo central do disco ao priorizar ritmos tradicionais como reggaeton, salsa, jíbaro, plena e dembow. Longe da estética mais voltada ao trap e às pistas, Benito constrói narrativas sobre amor, saudade, deslocamento e pertencimento, conectando passado e presente com sensibilidade. Faixas como “NUEVAYoL” evocam a diáspora porto-riquenha ao dialogar com a salsa setentista, enquanto “BAILE INoLVIDABLE” e “TURiSTA” revelam vulnerabilidade romântica. Em “EL CLúB” e “KETU TeCRÉ”, sentimentos mal resolvidos surgem embalados por fusões entre house, folk e reggaeton, ao passo que “PIToRRO DE COCO” e “CAFé CON RON” resgatam tradições populares para comentar desigualdades sociais. Reflexões políticas e familiares atravessam “LO QUE LE PASÓ A HAWAii” e “LA MuDANZA”, reafirmando uma ligação inquebrável com sua terra. Ao lado de colaborações como “WELTiTA”, “PERFuMITO NUEVO” e “VeLDÁ”, o álbum se consolida como uma declaração de amor cultural, projetando Porto Rico para o mundo sem abrir mão de suas raízes.

• Coloque para tocar: “DtMF”

07. Little Simz
(Lotus)

A cantora e rapper britânica Little Simz lança o álbum Lotus, sucessor de NO THANK YOU e do EP Drop 7. Para a artista, o título simboliza renascimento e crescimento, refletindo não só a evolução de sua música, mas também a temática do projeto, que navega pelas complexas fases da vida humana. Produzido por Miles Clinton James, o disco mescla influências do punk, jazz, soul e até samba, criando um cenário sonoro para letras profundas e imagens poéticas. Juntas, as faixas traçam um retrato emocionante da trajetória de Simz como mulher e artista. A jornada se inicia de forma confrontacional em “Thief” (uma crítica direta a um ex-aliado que a traiu – possivelmente uma alusão ao processo judicial contra o produtor Inflo), explode em tensão quase ritualística em “Flood” (com Obongjayar e Moonchild Sanelly) e abraça a rebeldia juvenil com a energia crua de “Young”. Em contraste, “Only” revela elegância jazzística para narrar sua ascensão, enquanto “Free” amplia o lirismo em arranjos cinematográficos. O disco também encontra introspecção espiritual em “Peace”, teatralidade melancólica em “Hollow” e afirmação poderosa em “Lion”, onde Simz reivindica seu espaço com batidas afrocentradas. “Enough” surge como um manifesto de autovalorização dançante, antes de a faixa-título mergulhar no gospel e no soul para expor fragilidades da fama. Nos momentos finais, “Lonely” traduz incertezas com sofisticação R&B, e “Blue”, ao lado de Sampha, encerra o álbum com delicadeza e esperança, consolidando Lotus como uma obra de expansão artística e honestidade emocional.

• Coloque para tocar: “Flood”

06. Boko Yout
(GUSTO)

Após performances arrebatadoras no Reino Unido, ao lado do Viagra Boys, o grupo sueco Boko Yout confirma a chegada de seu aguardado álbum de estreia, GUSTO. Musicalmente, a banda, idealizado por Paul Adamah, artista sueco de origem togolesa-mocambicana, cruza pós-punk frenético e psicodelia distorcida para traduzir a ansiedade desse colapso, enquanto o universo visual do projeto reforça a ideia de um mundo surreal onde identidade, trabalho e ilusão se confundem. Se faixas como “IGNORED” e “IMAGINE” exploram conflitos internos e buscas espirituais, “9-2-5” amplia o olhar para a crítica social ao narrar, com humor ácido e estética surreal, a trajetória de Mordecai, alter ego do artista, perdido entre mantras motivacionais e a precariedade do mercado laboral. O disco se estrutura como uma jornada conceitual, quase terapêutica, onde cada música confronta medos, traumas e contradições pessoais, misturando pós-punk frenético, psicodelia distorcida e experimentação livre. Inspirado por referências que vão do vodun à psicologia junguiana, GUSTO se afirma como um manifesto sonoro sobre aceitar as próprias sombras para alcançar algum tipo de cura, equilíbrio e esperança.

• Coloque para tocar: “DEMOLITION MAN”

05. Ribbon Skirt
(Bite Down)

Em Bite Down, álbum de estreia do Ribbon Skirt  (antes conhecido como Love Language), projeto de art-rock liderado por Tashiina Buswa, a herança Anishinaabe se manifesta de forma sensível e afirmativa, conectando espiritualidade, natureza, autoconhecimento e identidade sem recorrer a confrontos panfletários. A jornada começa com a atmosfera reflexiva de “Deadhorse”, que estabelece o tom íntimo do disco, enquanto “Cellophane” alterna impulso instintivo e inquietação dançante para expor críticas ao apagamento cultural. Faixas como “Off Rez” canalizam a urgência pós-punk em reflexões irônicas sobre liberdade, ao passo que “Wrong Planet” traduz o sentimento de não pertencimento em uma explosão emocional crua. O repertório ainda se expande com a melancolia densa de “Mountains”, o recolhimento delicado de “Cut” e a energia indie incisiva de “Look What You Did”. No ápice, “Earth Eater” reúne distorções massivas e a voz quase ritualística de Buswa, consolidando o disco como um rito sonoro de resistência e continuidade, ao mesmo tempo em que projeta um novo e promissor capítulo para o Ribbon Skirt após a fase Love Language.

• Coloque para tocar: “Wrong Planet”

04. Hannah Cohen
(Earthstar Mountain)

Reconhecida por sua voz delicada e por canções de forte caráter introspectivo, Hannah Cohen apresenta Earthstar Mountain, seu quarto álbum de estúdio, concebido entre 2020 e 2024 no acolhedor Flying Cloud Studio, localizado nas montanhas de Catskills, região onde a artista vive. Produzido em colaboração com Sam Evian, conhecido por seus trabalhos com Kate Bollinger, o disco nasce como uma homenagem direta ao território que a inspira e vai além do formato de um álbum convencional, funcionando como um conjunto de lembranças claras e nebulosas que celebram afetos, cenários naturais e o fluxo inevitável do tempo. A jornada se inicia com “Dusty”, uma balada que evoca o jazz e o pop setentista para criar uma atmosfera nostálgica e refletir sobre mudanças internas, seguida por “Draggin’”, que aposta em um folk pop envolvente para abordar os vínculos familiares e a dor de observar as batalhas de quem se ama. Em “Mountain”, Cohen se aproxima do country com ecos de Fleetwood Mac e a participação especial de Sufjan Stevens nos vocais, transformando a faixa em uma homenagem comovente a um amigo ausente. “Earthstar” constrói paisagens etéreas com sintetizadores suaves e melodias amplas, levantando questionamentos sobre o real conhecimento do outro, enquanto “Una Spiaggia”, releitura minimalista de Ennio Morricone para o filme ‘A Noite da Vergonha’, surge como um delicado interlúdio sustentado apenas pelas vozes entrelaçadas de Cohen e Clairo. Esse momento de sutileza contrasta com a energia de “Summer Sweat”, que incorpora grooves de funk e coros intensos, inspirados tanto por Morricone quanto por Chico Buarque. Já “Shoe” explora texturas folk mais densas, com guitarras distorcidas e reflexões sobre pertencimento, ao passo que “Baby, You’re Lying” começa despida, apenas com piano e voz, antes de crescer com baixo, bateria e trompete para traduzir a inquietação da desconfiança amorosa. Encerrando o álbum, “Dog Years” funde bossa nova e arranjos de cordas elegantes para meditar sobre a brevidade da existência e a intensidade dos instantes passageiros. Em Earthstar Mountain, Hannah Cohen reafirma sua singularidade artística e entrega um trabalho que soa como um retrato afetivo de um lugar e, ao mesmo tempo, uma reflexão sensível sobre as relações humanas.

• Coloque para tocar: “Draggin'”

03. Smerz
(Big city life)

O duo norueguês de art-pop Smerz, formado por Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt, apresenta Big city life, o tão esperado sucessor de Believer, reafirmando sua identidade singular em um álbum que transita com naturalidade entre dream pop, eletropop, shoegaze e trip hop. Desenvolvido ao longo de quatro anos, o disco nasce como um mosaico de emoções intensas e narrativas reais e imaginadas, abordando apatia, solidão, conflitos internos, amor e uma sensação de liberdade quase descontrolada. A faixa-título aposta em pianos digitais e batidas fragmentadas para ironizar o esvaziamento da vida urbana, enquanto “But I Do” mergulha em texturas dub distorcidas para expor a tensão de uma relação paralisada pela indecisão. “Roll the dice” constrói um clima hipnótico com minimalismo rítmico, sintetizadores contidos e um piano sutil, desenhando o retrato de uma mulher confiante que domina a cidade, ao passo que “Feisty” combina chimbais marcados, cordas dramáticas e vocais falados para evocar a euforia libertadora de uma noite após o fim de um relacionamento. Em “A thousand lies”, pianos reverberantes e eletrônica envolvente sustentam um diálogo vocal que traduz as ambiguidades afetivas, enquanto “Close” explora uma atmosfera densa e sedutora para falar de alienação e perda de identidade. Um dos pontos altos do álbum, “You got time and I got money” revisita o doo wop sob uma ótica cósmica e contemporânea, com arranjos ricos e vozes etéreas que sugerem um desejo íntimo, enquanto “Dreams” se expande em camadas intensas de sintetizadores, transformando seus versos quase em feitiços dançantes. No conjunto, Big city life se impõe como uma experiência sensorial que captura o caos, a beleza e a melancolia da vida contemporânea, selada pela assinatura sonora inconfundível do Smerz.

• Coloque para tocar: “You got time and I got money”

02. ROSALÍA
(LUX)

A cantora e compositora ROSALÍA inaugura a era LUX, sucessora de MOTOMAMI, apresentando um álbum que transforma espiritualidade e desilusão em matéria sonora e visual. Fortemente inspirado por símbolos do catolicismo e pela dramaticidade barroca, LUX propõe uma reflexão sobre fé, pureza e queda, enquanto musicalmente sinaliza uma nova fase ao unir música clássica, eletrônica contemporânea e ecos do flamenco que marcou El Mal Querer. Gravado com a London Symphony Orchestra, o disco se estrutura como uma sinfonia em quatro movimentos, cada um explorando estados emocionais distintos. No primeiro, faixas como “Sexo, Violencia y Llantas”, “Reliquia” e “Mio Cristo” abordam devoção e excesso; no segundo, canções como “Berghain” (com Björk e Yves Tumor), “La Perla” e “De Madrugá” (apresentada em Campanha da Calvin Klein) investigam desejo e redenção; o terceiro movimento intensifica a ousadia conceitual com títulos como “Dios Es Un Stalker” e “La Yugular”; enquanto o encerramento traz reconciliação em “La Rumba Del Perdón”, “Memória” e “Magnolias”. Mais do que um álbum, LUX se afirma como um ritual sonoro em que o sagrado e o humano se cruzam, reafirmando ROSALÍA como uma artista em constante reinvenção.

• Coloque para tocar: “La Perla”

01. FKA twigs
(EUSEXUA)

Em EUSEXUAFKA twigs se inspira na cena underground de techno rave de Praga – que vivenciou durante as filmagens de ‘O Corvo’ – e canaliza “o auge da experiência humana”, como define, ao longo do registro. A faixa-título, que abre o disco, traz uma sonoridade techno e ambient trance, evocando uma fusão das produções de BjörkAphex Twin e Madonna nos anos 90, ao explorar sentimentos de conexão e transcendência, reforçados pelo termo “Eusexua”.

“Girl Feels Good” mistura guitarras elétricas e sintetizadores de forma sensual e moderada, com uma vibe eletrônica que lembra William Orbith e seu trabalho em Ray of Light, abordando a importância do bem-estar feminino como uma força transformadora. “Perfect Stranger” mescla dance pop, techno e R&B de maneira contida (evocando nomes como Kylie Minogue, com uma batida que remete a “Can’t Get You Out of My Head”, e Janet Jackson), explorando o perigo e a oportunidade de conhecer alguém novo.

“Drums of Death” é um chamado para abandonar inibições e se entregar aos desejos sem limitações, com uma sonoridade energética de glitch pop, composta por batidas rápidas intercaladas com cortes de áudio do sample de “One of a Kind”, de G-Dragon“Room of Fools”, com seu ritmo acelerado e um instrumental pulsante de house, soa como se Madonna e Björk tivessem feito algo juntas nos anos 90, tratando de liberdade e conexão em um ambiente caótico. “Sticky”, sobre se libertar da dor emocional e ansiar por amor, e “24hr Dog”, que explora uma dinâmica de submissão, são baladas etéreas trilhadas pelos sussurros autotunados da artista.

“Childlike Things”, que apresenta um rap em inglês e japonês de North West, destaca um mundo de poderes supersônicos, desejos infantis e contrastes entre sonhos e tragédias. “Striptease” é uma faixa sensual de R&B, reminiscente do trabalho inicial de twigs, que faz uma transição para o drum ‘n’ bass nos minutos finais, expressando o desejo intenso de se entregar emocionalmente, comparando o processo de se abrir a um striptease. A faixa que encerra o disco, “Wanderlust”, é sonhadora e atmosférica, impulsionada por uma batida drum ‘n’ bass e vocais emotivos, transmitindo frustração ao tentar lidar com as expectativas e as próprias inseguranças.

EUSEXUA oferece uma jornada sonora que transcende gêneros, explorando emoções profundas e complexas através de uma mistura de influências eletrônicas, pop e (até menos) experimentais, tornando-se um testemunho do poder da música como uma expressão única de identidade e desejo.

• Coloque para tocar: “Striptease”

Playlist com as faixas selecionadas de cada disco.