Os 50 melhores discos de 2022

Este foi o ano de Beyoncé celebrar a cultura dos clubes dos dias de Studio 54 às festas dos anos 90. ROSALÍA reinventar-se com com um pop eclético e motorizado. SZA e Alvvays retornarem aos holofotes após anos de espera. E nomes promissores como Ravyn Lenae, ena mori, Hyd e Shirley Hunter brilharem com os trabalhos de estreia.

Confira os 50 Melhores Discos de 2022:

50. ena mori
(DON’T BLAME THE WILD ONE)

A cantora e compositora nipo-filipina de synthpop Ena Patricia Mori Villa (a.k.a. ena mori) brilha com o disco de estreia DON’T BLAME THE WILD ONE. Ela encontra inspiração em Cocteau Twins, Björk e Talking Heads. Mas, o seu som é uma mistura impressionante entre o clássico e o contemporâneo, traçando paralelos com os trabalhos de Grimes, Charli XCX, Robyn, The Weeknd e Rina Sawayama para citar alguns. Em DON’T BLAME THE WILD ONE, detalha sentimentos de impotência durante a pandemia (“VIVID”), rompe regras convencionais estabelecidas pela sociedade e opta por lutar no que acredita (“SOS”), cicatrizes do bullying adquiridas na juventude (“KING OF THE NIGHT!”), questões universais (“OH, BLEEDING HEARTS?”), orgulho e ego (“A HIGHER PLACE”), dúvidas do próprio valor (“WHITE ROOM”) e a busca por uma libertação – abandonando a culpa e a vergonha por ser ela mesma (“DBTWO!”) – com uma euforia musical deslumbrante.

• Coloque para tocar: “SOS”

49. WILLOW
(˂COPINGMECHANISM˃)

Willow Smith (a.k.a WILLOW) lança o álbum <COPINGMECHANISM> gravado com o produtor Chris Greatti (GrimesPoppy). No material, a garota abandona traços da sonoridade pop punk do registro anterior, lately i feel EVERYTHING, e traz um som mais encorpado em guitarras com foco no metal. Suas composições vulneráveis e catárticas abordam temas como relacionamentos turbulentos (“Split”“<maybe> it’s my fault”), sexualidade (“hover like a GODDESS”), saúde mental (“curious/furious”) e angústias (“No Control”) com uma performance vocal primordial que se equivale à sonoridade grandiosa, ilimitada e explosiva das composições. WILLOW entrega um trabalho visceral, introspectivo e dinâmico que passeia pelo metal, punk, pop e outros gêneros para se estabelecer como a sua melhor versão até agora e assegurar o título de estrela do rock.

• Coloque para tocar: “Split”

48. Florence and the Machine
(Dance Fever)

Escrito durante a pandemia, Dance Fever é inspirado no fenômeno russo da “coreomania” – um acontecimento social ocorrido no continente europeu entre os séculos XIV e XVIII, onde as pessoas dançavam até o colapso, ocasionalmente espumando pela boca até desmaiarem de cansaço. Embora a coreografia sempre tenha sido um dos suportes dos shows de Florence Welch, talvez esteja mais entrelaçada do que nunca no quinto disco de estúdio, uma evolução natural de How Big, How Blue, How Beautiful  e High As Hope. O trabalho retoma o lado mais hinário de Welch com tons de pop, dance, Iggy Pop dos anos 70, folk com saudade da estrada à la Emmylou Harris e mais. A artista explora seu poder ferindo a persona que criou (“Heaven Is Here”), enfrentando a escuridão e encontrando domínio na redenção (“King”). É um álbum que vê Welch no auge dos artifícios, chegando a um autoconhecimento plenamente realizado, zombando da própria personalidade criada (“Free”), ideias de identidade (“Dream Girl Evil”, com backing vocal de Maggie Rogers e lidando com os padrões duplos impostos sobre como as mulheres jovens devem agir em uma sociedade) e tormento geracional (“Daffodil”). Dance Fever é um ritual de redenção pós-pandemia para dançar nos ciclos mais sombrios.

• Coloque para tocar: “Free”

47. Sharon Van Etten
(We’ve Been Going About This All Wrong)

Sem nenhum single promocional antes do lançamento oficial de We’ve Been Going About This All WrongSharon Van Etten segue explorando as baterias eletrônicas e sintetizadores retrôs descobertos no álbum Remind Me Tomorrow. O registro se preocupa com as perguntas que fazemos a nós mesmos quando pensamos que o mundo – ou pelo menos, o nosso mundo – pode estar acabando. Será que amamos tanto quanto podíamos? Nos esforçamos o suficiente? Ao considerar essas questões e a própria vulnerabilidade diante delas (“Come Back”), a artista cria uma meditação sobre como as mudanças da vida podem ser aterrorizantes e transformadoras (“Home To Me”“Far Away”). We’ve Going About This All Wrong articula a beleza e o poder que podem ser resgatados de nossos destroços.

• Coloque para tocar: “Mistakes”

46. Tim Bernardes
(Mil Coisas Invisíveis)

O cantor, compositor, multi-instrumentista, arranjador e produtor paulistano Tim Bernardes lança o segundo disco solo após sua estreia, Recomeçar, de 2017. Mil Coisas Invisíveis nos convida de volta ao mundo singular, caloroso, intimista, emocionalmente ressonante e curativo do artista. Da curta duração da existencial “Nascer, Viver, Morrer”, a leveza romântica de “BB (Garupa de Moto Amarela)”, os versos quase abstratos e astrais de “Mistificar”, a homenagem à falecida avó (“A Balada de Tim Bernardes”) e o conto sobre o último encontro entre dois antigos amantes de “Última Vez”, Bernardes captura com beleza vivências pessoais em um material otimista, poético e reflexivo que ronda a percepção de estar vivo.

• Coloque para tocar: “Velha Amiga”

45. Aldous Harding
(Warm Chris)

A neozelandesa Aldous Harding sempre revelou-se uma artista pronta para desatender os limites de qualquer estilo musical. Com três álbuns elogiados no currículo, seu trabalho perambula pelo jazz, chamber pop e folk com uma compaixão singular. Em Warm Chris, reitera sua classe com um registro de excelência despretensiosa e instrumentais reduzido à uma paleta espaçosa de violões acústicos, pianos simples e trompas psicodélicas (“Fever”). Trabalhando, novamente, com o produtor John Parish (PJ Harvey) é maravilhoso ouvir um material tão sossegado cercado por letras íntimas e enigmáticas (“Lawn”“Passion Babe”) sobre desprezo e solidão.

• Coloque para tocar: “Fever”

44. Oliver Sim
(Hideous Bastard)

O álbum de estreia solo de Oliver Sim, vocalista e baixista do The xx e com produção do colega de banda e amigo Jamie xx, é uma jornada honesta de medo e vergonha inspirada nos filmes de terror que ama. Com sons sinistros e cinematográficos (“Unreliable Narrador”) cercados por uma atmosfera dos anos 1980, em sintetizadores distorcidos e batidas metronômicas, o registro é uma obra corajosa e pessoal – especialmente quando canta: “tenho vivido com HIV / desde os 17 anos / eu sou horrível?” em “Hideous” – levada pelo vocal emotivo e vulnerável do artista. Hideous Bastard vê Oliver enfrentando demônios do passado e presente, celebrando a identidade queer (“Fruit”), criando uma afirmação contra a ideia de se romantizar (“Romance With A Memory”), amores à distância (“GMT” – com samples e interporlacões de “Your Sweet Love” de Lee Hazlewood“Sensitive Child” de Del Shannon e “Smile” de Brian Wilson) e identificação com vilões queer das telonas (“Run The Credits”).

• Coloque para tocar: “Run The Credits”

43. Hyd
(CLEARING)

CLEARING é o álbum de estreia da multiartista Hayden Dunham (a.k.a. Hyd – que deu vida à personagem criada por A. G. Cook e SOPHIE no single “Hey QT”). O registro percorre um acerto de contas após um período de medo (“Breaking Ground”), perda (“So Clear”) e destruição, onde a artista escolhe paciência e um toque suave para aceitar a obscuridade. O álbum incorpora uma restauração através da vulnerabilidade ao combinar elementos do pop eletrônico com particularidade, explorando a natureza cíclica do crescimento, tanto pessoal e comunitário. Com contribuições de amigos íntimos e colaboradores de longa data – entre eles, SOPHIE (“Fallen Angel”), A. G. Cook, Caroline Polachek (“Afar”) e Jónsi (“Oil + Honey”) -, o disco é uma conciliação de cura e refúgio para transformar um sentimento de carência em algo revigorante. Como se a artista soubesse que mesmo chegando ao fundo do poço, alguém estará lá para a confortar.

• Coloque para tocar: “So Clear”

42. Steve Lacy
(Gemini Rights)

Assim como o próprio Steve LacyGemini Rights, o sucessor da estreia solo Apollo XXI, é descrito como uma combinação de referências e influências – de Caetono Veloso a André 3000 da era The Love Below, de Beatles a Sly Stone, os colegas do The Internet e muito mais. O registro encontra o artista recolhendo os cacos de um coração partido após o fim de um relacionamento. Canta sobre o término (“Static”), a angústia da perda (“Bad Habit”), o cuidado ao investir num novo amor (“Helmet”), a convivência com a própria solidão (“Buttons”“Mercury”) e cogita a existência de um sentimento (“Sunshine” com vocais gloriosos de Fousheé) para um possível retorno (“Give You the World”). Gemini Rights é o processo de uma separação (e, talvez, um renascimento) apresentado de forma legítima por Lacy.

• Coloque para tocar: “Helmet”

41. Charli XCX
(CRASH)

Com CRASH, o sucessor de how i’m feeling now e o último álbum de um contrato com a Atlantic – Charli XCX decidiu fazer “um álbum de grande gravadora da maneira que realmente é feito e jogar tudo o que a vida de uma figura pop tem a oferecer”: fama, obsessão e sucessos nostálgicos. E está tudo ali. “Good Ones” tem a sonoridade ameaçadora e sintetizada de “Sweet Dreams (Are Made of This)” do Eurythmics“New Shapes” (com Caroline Polachek e Christine and the Queens) riffs luminosos inspirados em “Jump” do Van Halen“Beg For You” (com Rina Sawayama) é uma versão reformulada de “Cry for You” do September“Used to Know Me” resgata “Show Me Love” de Robin S. e “Lightning” parece vir de um disco de Madonna dos anos 80. Nessa onda de influências e resgates, Charli motiva um pop ínsito nas explorações e inovações ao lado de produtores competentes como A. G. Cook e Oneohtrix Point Never (“Every Rule”), Mike Wise, Oscar Holter e Ariel Rechtshaid.

• Coloque para tocar: “Lightning”

40. Amber Mark
(Three Dimensions Deep)

O álbum de estreia de Amber Mark chega quase quatro anos após o lançamento do EP Conexão. Com 17 faixas no repertório, Three Dimensions Deep é dividido em três atos que seguem o arco de desenvolvimento pessoal e musical de Mark: WithoutWithheld e Within. No primeiro reflete as inseguranças como artista e rompimentos amorosos; no segundo foca sobre negação e a necessidade de superação; e encerra evidenciando traumas e negatividade em busca de respostas numa escala cósmica (“Competition”). É um trabalho conceitual profundo e uma carta de amor para ela mesma numa jornada (“What It Is”“Foreign Things”) pela insegurança, confiança e encontrar o lugar no mundo numa combinação celestial e eclética de pop, afrobeat, reggae, neo soul, R&B e eletrônica.

• Coloque para tocar: “FOMO”

39. Grace Ives
(Janky Star)

Janky Star é o segundo disco de estúdio de Grace Ives, artista alt pop inspirada por nomes como Rihanna e Britney Spears – mas com uma estrutura pop fora do convencional. As faixas estão sobrecarregadas de sintetizadores e ritmos inusitados em que ela ostenta espaços tranquilos para refletir honestamente sobre a luta contínua em busca de estabilidade e felicidade (“Lullaby”), bem como as tentativas de acertar ou errar ao rastrear um senso de propósito e otimismo quando as probabilidades parecem aglomeradas contra ela (“Angel Of Business”). Tocando na sobriedade, overdoses e no desejo de escapar da realidade da vida moderna (“Loose”), Janky Star concentra-se nas recompensas de desacelerar e, finalmente, encontrar um lar para si num mundo em constante mudança.

• Coloque para tocar: “Loose”

38. Fontaines D.C.
(Skinty Fia)

Depois de lidar com aspectos da fama no segundo disco de estúdio, A Hero’s Death, os roqueiros irlandeses do Fontaines D.C. encontram inspiração na vida longe da terra natal (“In ár gCroíthe go deo” – ‘em nossos corações para sempre’) em Skinty Fia. Parte romance agridoce (“I Love You”) e paranoico (“Skinty Fia”), parte triunfo político sombrio (“Roman Holiday”), as músicas acabam por formar uma carta de amor de longa distância (“How Cold Love Is”), enquanto recriam novas vidas em outros lugares com um espírito post-punk no som irregular de riffs sublimes (“Nabokov”) e vocais taciturnos.

• Coloque para tocar: “Jackie Down The Line”

37. Yeah Yeah Yeahs
(Cool It Down)

Após nove anos do álbum Mosquito, o Yeah Yeah Yeah retorna com Cool It Down e apenas oito faixas no repertório. Mesmo com um pouco mais de meia hora de duração, cada momento do registro carrega uma mensagem clara na sonoridade confiante e cirúrgica da banda. Temas como a crise climática e a desolação que as futuras gerações herdarão (“Spitting off the Edge of the World” com Perfume Genius), a busca por uma salvação num terreno desordenado (“Wolf”), as ansiedades do mundo moderno (“Fleez” com sua atmosfera à la Blondie), os incêndios a pairar sobre a cidade de Los Angeles (“Burning”) e o poema inspirado no filho de Karen O com o baterista Brian Chase (“Mars”) ilustram o material. Com momentos estridentes projetados para as pistas nas guitarras de Nick Zinner, arranjos eletrônicos nostálgicos em sintetizadores e um toque moderno de garage punk, o trio fabrica uma trilha sonora de alerta a ser ouvida atentamente para um possível e irreversível caos a ser instaurado no mundo (“Different Today”).

• Coloque para tocar: “Wolf”

36. Primer
(Incubator)

Primer, projeto da vocalista e produtora Alyssa Midcalf, busca inspiração na eletrônica dos anos 80 para encontrar refúgio de uma sequência de desilusões amorosas. Incubator é uma reflexão e estardalhaço para dançar com uma lágrima escorrendo pelo rosto com um sorriso no rosto (“Just a Clown”), acatar feridas de um coração partido e recuperar-se de um relacionamento tóxico (“Warning”). O álbum como um todo nos leva ao colapso do relacionamento de cinco anos de Midcalf com o companheiro com músicas também escritas no final da adolescência e reimaginadas (“Anything”). Coproduzido com Noah Prebish, do grupo psych pop Psymon Spine, ela cria uma obra sentimental borbulhante envolta de synthpop, new wave e eletropop – que pode trazer à mente nomes como CHVRCHESRobynM83Molly Nilsson e Jessie Ware – para enfrentar as próprias emoções com uma desenvoltura necessária.

• Coloque para tocar: “Just a Clown”

35. Soccer Mommy
(Sometimes, Forever)

Em seu terceiro álbum de estúdio, o Soccer Mommy, projeto da cantora e compositora Sophie Allison, aprimora o estilo dos trabalhos anteriores (Clean e color theory), unindo-se ao produtor eletrônico Daniel Lopatin – conhecido pela alcunha de Oneohtrix Point Never e parcerias com The Weeknd, ANOHNI, FKA twigs -, para entregar o trabalho mais criativo, coeso e experimental até agora. Inspirada no conceito de que nem tristeza e nem felicidade são permanentes, Allison visita novos gêneros e tons. São elementos do gótico (“With U”), trip hop (“Unholy Affliction” – com a sua atmosfera de Portishead abraçada pelo Nine Inch Nails), shoegaze (“Don’t Aske Me”) e indie rock (“Bones”) embrulhados em sintetizadores hostis e instrumentações reverberadas mágicas (“newdemo”“With U”) e umbrosas (“Still”). O registro é uma expansão na assinatura eufórica grunge dos anos 90 da artista (“Following Eyes”) nas canções confessionais que confrontam e fazem as pazes com demônios próprios. Sometimes, Forever é um sinal de que o Soccer Mommy persistirá numa indústria em constante transição.

• Coloque para tocar: “Shotgun”

34. Tomberlin
(i don’t know who needs to hear this…)

Sarah Beth Tomberlin (a.k.a. Tomberlin) retorna com i don’t know who needs to hear this…, o sucessor da estreia At Weddings e do EP Projections. Explorando temas como sonhos, desilusões (“born again runner”), crises existenciais e romances caóticos (“happy accident”), as canções são edificadas em uma musicalidade folk gentil e delicada. São violões acústicos, sintetizadores à deriva, percussão pincelada, notas soltas de piano, saxofones e clarinetes, permitindo que o principal instrumento seja o vocal cativante e afinado da artista.

• Coloque para tocar: “happy accident”

33. SASAMI
(Squeeze)

Squeeze martela um sentimento de “positividade antitóxica” e mostra sua honestidade viciosa e visão brutalmente intransigente, parcialmente inspirada pelo espírito folclórico japonês yōkai chamado Nure-onna (mulher molhada), uma divindade vampírica que tem a cabeça de uma mulher e o corpo de uma cobra. No trabalho, Sasami Ashworth (a.k.a. SASAMI) examina a brutalidade do nu-metal (“Skin A Rat” e no cover de “Sorry Entertainer” de Daniel Johnston), a poluição do industrial (“Say It”), a atitude punk (“Make It Right”), a franqueza do country pop, folk rock (“Tried to Understand”) e o romantismo dramático da música clássica. É um disco de contrastes para discorrer raiva, desejos e desespero como se houvesse um encontro insólito do Nine Inch NailsSheryl Crow (“Call Me Home” é inspirado na artista), Megadeth (Dirk Verbeuren assume a bateria na maioria das faixas) e Liz Phair em estúdio.

• Coloque para tocar: “Make It Right”

32. Ibibio Sound Machine
(Electricity)

A fusão da música africana, soul, funk, disco e elementos eletrônicos do Ibibio Sound Machine conquista um impulso extra na produção do Hot Chip que percorre os instintos pop do grupo. Os sintetizadores selvagens de Al Doyle e a entrega vocal da nigeriana Eno Williams garantem um ritual de proteção (“Protection From Evil”) numa meditação sombria da vida contemporânea com vibrações de LCD Soundsystem (“All That You Want”), Grace Jones (“17 18 19”), Giorgio Moroder (“Wanna See Your Face Again”“Electricity”) e as heranças próprias do projeto com “Afro Ken Doko Mien” e “Casio (Yak Nda Nda)” cantadas na língua nativa do povo nigeriano de Ibibio de Akwa Ibom e Abia.

• Coloque para tocar: “Electricity”

31. Perfume Genius
(Ugly Season)

O brilhante Mike Hadreas (a.k.a. Perfume Genius) apresenta o álbum Ugly Season, o sucessor do aclamado Set My Heart On Fire Immediately, como uma trilha sonora encomendada para a peça de dança imersiva da coreógrafa Kate Wallich, ‘The Sun Still Burns Here’. O material, mais um trabalho ambicioso na carreira do músico, é um grande exercício de composições predominantemente instrumentais (“Just a Room”“Teeth”) e experimentais (no dub reggae de “Ugly Season”, industrial noize jazz de “Hellbent” e a épica “Eye in the Wall”) na abundância de sons triunfantes coordenados pelo vocal em falsete e murmurado de Hadreas. Cada canção é escoltada de uma emoção enigmática ao evitar a narrativa convencional. Desde a instrumental “Scherzo” ao título imediato de “Pop Song”Ugly Season simboliza uma obra notável e ousada para o legado do artista.

• Coloque para tocar: “Pop Song”

30. Tulipa Ruiz
(Habilidades Extraordinárias)

Tulipa Ruiz lança o álbum Habilidades Extraordinárias, o primeiro de inéditas em sete anos. Segundo a própria, este é um disco “pós-confinamento, com os hematomas e as dores decorrentes de tanta violência social, política, ambiental, nos relacionamentos e trabalhista”. Da mulher que se relaciona com a natureza das coisas e o próprio corpo (na funky soul “Samaúma”), violência física e emocional (“Estardalhaço”), expectativas e frustrações sexuais (na psych rock “Acho Que Hoje Mesmo Eu Dou”), indignações universais (na punk rock “Vou Te Botar no Pau” e no funk paulista “Não Pira” com Jonas Sá), o duelo feminino-masculino (“Kamikaze Total”, canção co-escrita com Liniker) e ode feminista (“O Recado da Flor”), o trabalho abrange temas atuais num retrato plural com um recado para pessoas cada vez mais dispersas. Com uma sonoridade MPB eclética e refinada, auxiliada de canetadas poderosas e inventivas, Tulipa é como canta na última faixa: “uma flor que supera a própria primavera”.

• Coloque para tocar: “Vou Te Botar no Pau”

29. black midi
(Hellfire)

Hellfire é um pacote absoluto de músicas exaltadas e deturpadas. O registro baseia-se nos elementos melódicos e harmônicos de Cavalcade, enquanto expande a brutalidade e intensidade do álbum de estreia, Schlagenheim. Se as histórias de Cavalcade foram contadas em terceira pessoa como um filme de drama, Hellfire é apresentado em primeira pessoa e retrata personagens moralmente suspeitos de forma épica. Uma ópera rock caótica e criativa (“Welcome To Hell”) enredada por guerras, doenças, assassinatos, exploração, cinismo e pecados capitais que abrangem prog-rock, pós-punk, pop, psicodelia, funk, jazz (“Sugar/Tzu”), música clássica, flamenco (“Eat Me Eat”) e tudo que pode ser abraçado pela banda e os vocais histéricos de Geordie Greep.

• Coloque para tocar: “Eat Men Eat”

28. Shirley Hurt
(Shirley Hurt)

Ao longo de nove canções do disco de estreia, a cantora e compositora Sophia Katz, detentora do projeto Shirley Hurt, atravessa por universos do indie folk, pop, country e americana na criação de um som elegante e autoconfiante. Os arranjos esqueléticos apresentam-se com beleza em torno da voz categórica de Katz, um instrumento por si só que lembra grandes artistas (de Carole King à Joni Mitchell Aldous Harding) num conjunto de meditações (“Problem Child”), desejos e complexidades melancólicas (“Empty Hands”). Há um ar de facilidade e simplicidade em Shirley Hurt que desmente sua complexidade inerente. Uma atemporalidade que faz o disco parecer que sempre existiu, como se fosse para estar aqui. Este é claramente o começo de uma longa história artística, que provavelmente será pontilhada de muitos capítulos imprevisíveis.

• Coloque para tocar: “Problem Child”

27. Art d’Ecco
(After the Head Rush)

O canadense conhecido como Art d’Ecco lança After the Head Rush, o sucessor do álbum conceitual sobre entretenimento In Standard Definition, uma ode sem remorso à audácia e ao cinismo chistoso de crescer. Infundido com a sabedoria do amadurecimento tardio, ele acende o alvorecer de uma nova era – abandonando o visual andrógeno e as maquiagens do projeto anterior que rendeu uma das melhores faixas de 2021 (“Head Rush”) – inspirado por uma mudança para sua cidade natal e a emoção de redescobrir a música de sua juventude. Manifestando o amor pela new wave dos anos 80 (“Midlife Crises” é quase uma homenagem ao The Cars), fantasia glam (“Only Ones”) e art rock dos anos 70 (“Palm Slave”), o artista transporta na bagagem referências como BowieRoxy MusicThe CureSparks e outros para reprocessar a atual fase. After the Head Rush é um conto de advertência sobre a obsessão e como uma busca equivocada de significados e propósitos pode nos levar à lugares assombrosos e, ao mesmo tempo, libertadores.

• Coloque para tocar: “Only Ones”

26. Alvvays
(Blue Rev)

Já se passaram cinco anos desde que o mundo foi presenteado por um disco do AlvvaysBlue Rev não apenas reafirma o que sempre foi sublime sobre ele, mas o reimagina. As faixas, produzidas com Shawn Everett (The KillersAlabama Shakes), tornam não apenas o álbum mais ampliado e eclético – tocado direto para a fita – da banda, mas também o mais harmonicamente rico e liricamente provocativo. As dinâmicas clássicas de indie pop levam o som do grupo para fronteiras mais sonhadoras, urgentes e barulhentas (“Pharmacist”) em camadas de guitarras ruidosas e efeitos psych-rock. As composições são aprofundadas em narrativas docemente sombrias sobre amores passados (“After The Earthquake”), fúria (“Very Online Guy”) e memórias (“Belinda Says”). A banda nunca teve a intenção de levar meia década para terminar o terceiro registro – a composição e gravação foi interrompida e atrasada quando as demos da vocalista Molly Rankin foram roubadas de sua casa e o equipamento da banda quase inundou em dois dias -, mas o passeio nervoso, explosivo e imediato que é o absolutamente adorável em Blue Rev.

• Coloque para tocar: “After the Earthquake”

25. Charlotte Adigéry & Bolis Pupul
(Topical Dancer)

Topical Dancer é um manifesto dance pop através das mentes criativas inatas de Charlotte Adigéry e Bolis Pupul. Apropriação cultural e racismo. Vaidade nas redes sociais (“Esperanto”). Pós-colonialismo (“Blenda”) e correção política. Estes não são pontos de discussão que você normalmente ouviria na pista de dança, mas Charlotte e Bolis quebram as regras e provam ser uma força a ser reconhecida tanto nas festas quanto em atos de rebelião.

• Coloque para tocar: “Blenda”

24. Angel Olsen
(Big Time)

O sexto disco de estúdio de Angel Olsen, o sucessor de Whole New Mess e do EP Aisles, é um trabalho introspectivo, franco e libertador que aponta um novo capítulo na carreira da artista. Big Time retrata um período de trânsito na vida pessoal de Olsen em letras honestas e sonoridade alt-coutry dramática e intimista inspirada em nomes como Roy OrbisonEmmylou Harris e Patsy Cline. Nos meses depois que ela se assumiu gay para os pais, ambos morreram. Ela começou a gravar três semanas após o funeral da mãe. A dor do período (“This Is How It Works”) e as crises de confiança (“Go Home”) estão compiladas no repertório do registro, mas também há uma perspectiva modificada do amor – e, consequentemente, a primeira desilusão (“Big Time”) – com a liberdade conquistada. Recompensando tristeza e felicidade (“Ghost On”), Olsen constata que para ter um grande amor – inclusive o próprio – é necessário acatar com grandes perdas para olhar para frente (“Through The Fires”).

• Coloque para tocar: “Go Home”

23. The Weeknd
(Dawn FM)

Dawn FM conta com colaborações de Jim Carrey como um apresentador de uma rádio ficcional de rock e um interlúdio falado por Quincy Jones (“A Tale By Quincy”) que entregam o tom sombrio, autêntico e reflexivo de The Weeknd ao explorar o universo synthpop dos anos 80 inspirado em Giorgio Moroder, Michael Jackson, Depeche Mode na companhia de nomes como Tyler, The Creator (“Here We Go… Again”), Calvin Harris e Lil Wayne (“I Heard You’ve Married”). É um projeto enigmático ao mesmo tempo que contém temas comuns na obra do artista, como: amor, sexo, drogas e até morte. O formato inovador e a narrativa que nos leva através deste purgatório é tão intrigante que é improvável não se prender ao que o álbum nos sintoniza.

• Coloque para tocar: “Gasoline”

22. Ravyn Lenae
(Hypnos)

Quatro anos depois do elogiado EP Crush, a cantora e compositora Ravyn Leane lança o aguardo disco de estreia. Hypnos é uma coleção de números hipnóticos (“Venom”“M.I.A.”), charmosos (“Skin Tight”“Light Me Up”) e animados (“Xtasy”) com o neo soul como base para acompanhar o vocal acolhedor da artista que soa como uma combinação de Minnie Ripperton e Janet Jackson. O registro conta com o trabalho magistral dos produtores Booker, Steve Lacy, KAYTRANADA e Luke Titus, além de parcerias com Fousheé (“Mercury”), Mereba (“Where I’m From”), Smino (“3D”) e, também, o próprio Lacy no single principal (“Skin Tight”).

• Coloque para tocar: “Xtasy”

21. Hatchie
(Giving The World Away)

O segundo disco de estúdio do Hatchie, projeto indie pop da australiana Harriette Pillbeam, é uma reinvenção da estreia. Com produção de Jorge Elbrech (Sky FerreiraJapanese Breakfast), Giving The World Away aventura-se pela sonoridade cinematográfica do new wave, dream pop, acid house e uma ideia distorcida do shoegaze dos anos 90 (“This Enchanted”). A artista recupera emoções, expande a paleta sonora, confronta desilusões (“Quicksand”, escrita com Dan Nigro e que coloca a artista nos trilhos do pop de Olivia Rodrigo) e relacionamentos tumultuados (“Lights On”) numa carta de amor à vulnerabilidade e melancolia.

• Coloque para tocar: “Lights On”

20. Destroyer
(LABYRINTHITIS)

Destroyer, projeto do cantor e compositor Dan Bejar, apresenta LABYRINTHITIS como uma argumentação à desorientação social causa pela pandemia. Repetindo a parceria com o produtor John Collins (de Have We Met), a pista de dança é o estímulo do projeto focado na cena disco, New Order e Art of Noise, mas com um toque intrínseco da banda com um álbum definido pelo som dos anos 80 (“June”) e o clima sutil de desânimo com a vida. Com uma carreira de 20 anos, Bejar ainda é um espírito criativo inquieto – da faixa-título instrumental com samples de vozes de crianças e pássaros à irreverência disco de “Eat the Wine, Drink the Bread” com uma melancolia ajustada a um piano desolador – ao oferecer o registro mais direto e dançante do Destroyer.

• Coloque para tocar: “Eat the Wine, Drink the Break”

19. Little Simz
(NO THANK YOU)

Com 10 músicas em 50 minutos, NO THANK YOU é menos extenso e mais suave musicalmente (“Control”) que o registro anterior, Sometimes I Might Be Introvert. Mas, o escopo da produção ainda é ambicioso e amplo nas seções de cordas épicas (“Heart On Fire”), linhas de baixo vibrantes (“Gorila”) e corais. Nas faixas, Little Simz compartilha as experiências e emoções com as quais cercou-se nos últimos meses, algumas das quais incluem a ideia de matar seu ego, enxergar através de corporações ávidas por dinheiro (“Angel”), trauma geracional (“Broken”) e navegar em relacionamentos enquanto permanece enraizada em sua fé (“Who Even Cares”).

• Coloque para tocar: “Gorilla”

18. Björk
(Fossora)

Björk retorna com o décimo álbum de estúdio. Um trabalho espirituoso, concebido durante a pandemia, que explora temas como conexões humanas, traumas, sobrevivência, matriarcado, morte e meditação ecológica no contexto de um mundo subterrâneo de cogumelos. A islandesa revela uma obra surpreendentemente complexa e sensível para curar cicatrizes ao comparar as interações entre humanos com as redes pelas quais os fungos se comunicam abaixo da terra (“Atopos”). A perda da mãe (“Sorrowful Soil” e “Ancestress”), instigações amorosas (“Ovule”) e feminilidade (“Victimhood”) ganham vida num processo (des)controlado de cantos, clarinetes, experimentos orquestrais e batidas gabber (“Trölla-Gabba”). O disco conta com contribuições dos filhos da artista (Sindri Eldon e Ísadóra Bjarkardóttir Barney), o indonésio Kasimyn (do Gabber Modus Operandi), o sexteto de clarinete Murmuri, o coro Hamrahlid, o cantor serpentwithfeet (“Fungal City”) e a cantora Emilie Nicolas (“Allow”). Em Fossora, Björk entrega-se de corpo e alma para destrinchar um universo mágico e doloroso particular criado à sete palmos abaixo da terra.

• Coloque para tocar: “Fossora”

17. Mitski
(Laurel Hell)

Trabalhando com o colaborador de longa data Patrick Hyland, Mitski permite que seus arranjos e texturas pop vaguem por novos rumos e mirem clássicos dos anos 80 para clarificar turbulências pessoais. As canções levam temas como depressão, noites de insônia (“Heat Lightning”), perda de criatividade (“Working for the Knife”), dependência e separação para uma pista de dança com melodias synthpop polidas e exultantes (“The Only Heartbreaker” e “Love Me More” com uma substância de “Maniac” de Michael Sembello). Até mesmo ao deparar-se com assuntos delicados como infidelidade (“Should’ve Been Me” com ares de “Maneater” do Daryl Hall & John Oates e teclados à la ABBA), a artista busca conforto em melodias resplandecentes e ressignifica um trabalho muitas vezes sombrio (“That’s Our Lamp”). É um material fora da curva no repertório de Mitski, mas potente como os antecessores.

• Coloque para tocar: “Should’ve Been Me”

16. Arctic Monkeys
(The Car)

Após Tranquility Base Hotel & Casino e sua ópera space rock futurista inspirada nos anos 1960, o Arctic Monkeys avança uma década em The Car correndo solto em uma nova e suntuosa paisagem musical, na maioria das vezes, silenciosa. Com produção do parceiro de longa data James Ford (Jessie WareFoals), o registro apresenta algumas das performances vocais mais ricas e gratificantes da carreira de Alex Turner que soa como um destemido dramaturgo ao cantar inquietações (“The Ballad of What Could’ve Been”), amores (“Body Paint”) e prazeres esquecidos (“There’d Better Be A Mirrorball”) que o escoltam. Numa sonoridade retrô e enigmática, com pianos em primeiro plano e seções de cordas cinematográficas de Bridget Samuels (que trabalhou na música de ‘Midsommar – O Mal Não Espera a Noite’), a riqueza sonora remonta trilhas vintage de Burt Bacharach, o arranjador Paul Buckmaster (parceiro musical de David Bowie em “Space Oddity”) e Scott Walker. Além, o material é gratificado pelo funky (“I Ain’t Quite Where I Think I Am”), sintetizadores ameaçadores (“Sculptures of Anything Goes”), yatch rock (“Jet Skis on the Moat”), spaghetti western (“The Car”) e até bossa nova (“Mr. Schwartz”). O que torna The Car distinto é como a banda aborda a essência conceitual da própria criatividade numa experiência imersiva.

• Coloque para tocar: “I Ain’t Quite Where I Think I Am”

15. Special Interest
(Endure)

Special Interest, grupo de punk no wave de Nova Orleans, lança o terceiro disco de estúdio. A música deles é trilha sonora para dançar a dor tanto quanto para se embravecer contra o sistema. Reunidos pela inventiva cena DIY local, eles encontram uma nova maneira de definir a “banda de rock”, uma verdadeira unidade coletiva em vez da visão ditada de um único membro. Seu som é sempre fluido e continua a progredir. As músicas lembram o art rock do Sparks e The B-52’s, o dance punk do Death From Above 1979 e a fúria do Yeah Yeah Yeahs com mentalidade política (“Foul”“Concerning Peace”) e revolucionária (“(Herman’s) House”), enquanto que em “Midnight Legend”, o grupo está mais aberto ao pop do que nunca – entregando algo divertido durante um período de tristeza frequente que se tornou prioridade central. Mas isso não significa que nada seja simples ou superficial, com uma escuridão muitas vezes atropelando a produção. Por mais que a banda toque com dissonância, o enérgico trabalho de guitarra de Maria Elena e as linhas de baixo de Nathan Cassiani se entrelaçam sem esforço e obscurecem a paisagem sonora caótica e urgente trazida à existência pela presença vocal dominante de Alli Logout.

• Coloque para tocar: “Midnight Legend”

14. SZA
(S.O.S.)

Após cinco anos do álbum de estreia, CTRLSZA vem ao nosso resgate com S.O.S.. Assim como no trabalho anterior, a artista mantém a sonoridade confiante ao cantar amores destrutivos (“Seek and Destroy”), perdas (“F2F”), ideias de vingança (“Kill Bill”), abandono (“Gone Girl”), autoestima (“S.O.S”), sensualidade (“Conceited”), rejeição (“Far”), esquecer o passado (“Good Days”) e resgatar uma confiança para o futuro (“Forgiveless”). Além das clássicas e exuberantes baladas R&B, a cantora explora terrenos do folk em “Nobody Gets Me” – que evoca “Fade Into You” do Mazzy Star -, pop punk em “F2F” ao relatar a busca de conforto em corpos de outras pessoas e uma versão, praticamente, atualizada de “Creep” do Radiohead nos versos de “Special”. Entre as colaborações, temos nomes como: Travis Scott (retomando a parceria iniciada em “Love Galore”) com rimas piedosas em “Open Arms” e que encerra com uma espécie de ritual tribal musicalmente, Don Toliver em “Used”Phoebe Bridgers em “Ghost in the Machine” e Ol’ Dirty Bastard em “Forgiveless” que traz o sample de “Hidden Place” de Björk.

• Coloque para tocar: “Kill Bill”

13. Big Thief
(Dragon New Warm Mountain I Believe In You)

Big Thief parece estar numa missão: atestar seu posto como um dos grupos mais surpreendentes dos últimos anos. Depois de lançar dois álbuns elogiados em 2019 (U.F.O.F. e Two Hands) e seus integrantes experimentarem projetos solo, o grupo de Adrianne Lenker regressa com um material fluído, espontâneo e impecável. Em 2020, a banda decidiu escrever e gravar um relato errante de crescimento como indivíduos, músicos e família em quatro sessões de gravação distintas e despretensiosas – trabalhando com sons e sensações diferentes, com quatro engenheiros distintos em estúdios no norte do estado de Nova Iorque, Topanga Canyon, Rocky Mountains e Tucson, Arizona. Andarilhando por gêneros – com uma gama mais ampla de influências do que nunca para o seu indie folk primordial -, a banda deixa-se levar com entusiasmo por multiplos temas que passam por mortalidade (“Time Escaping”), otimismo (“Change”) e experiências pessoais (“Simulation Swarm”) para nos transportar numa aventura de novos ambientes – geográficos e líricos – sem um roteiro prescrito.

• Coloque para tocar: “Red Moon”

12. Beth Orton
(Weather Alive)

Muitos músicos se voltam para dentro quando o mundo ao seu redor parece caótico e não confiável. Reestruturar a percepção de si mesmo muitas vezes pode revelar novas verdades pessoais desconfortáveis e profundas. Para a britânica Beth Orton, a música ressurgiu nos últimos anos como uma força de amarração, mesmo quando sua própria vida parecia mais tumultuada do que nunca. De fato, as bases das músicas de Weather Alive, nada mais são do que sua voz e um piano surrado instalado em um galpão em seu jardim, conjurando uma atmosfera profundamente meditativa e experimental de sintetizadores atmosféricos (“Forever Young”) e a paleta caseira do baterista Tom Skinner (do The Smile e Sons Of Kemet) no romantismo, existencialismo (“Lonely”) e individualidade das canções (“Weather Alive”).

• Coloque para tocar: “Forever Young”

11. FKA twigs
(CAPRISONGS)

FKA Twigs lança a mixtape CAPRISONGSprojeto realizado durante a quarenta, para expressar angústias que muitos sentiram durante o isolamento social. Na faixa de abertura, “ride the dragon”, a artista começa sussurrando: “ei, eu fiz uma mixtape para vocês / porque quando eu sinto você, eu me sinto, e quando eu me sinto, é bom”. No geral, o trabalho traz uma sonoridade mais acessível, dinâmica e divertida na companhia de artistas como Pa Salieu (no trap latino “honda”), o astro pop The Weeknd (“tears in the club”), Shygirl (no dancehall “papi bones”), o rapper nigeriano Rema (no afrobeat envolvente “jealousy”), Daniel Caesar (na doçura R&B de “careless”), Jorja Smith (“darjeeling” com versos do hit dos anos 90, “You’re Not Alone”, do Olive), entre outros, além da coprodução executiva de El Guincho (ROSALÍA). Mas, ainda que tenha um direcionamento mais pop, FKA twigs mantém uma série própria de estranhas sonoras em CAPRISONGS.

• Coloque para tocar: “pamplemousse”

10. Sudan Archives
(Natural Brown Prom Queen)

Natural Brown Prom Queen é o segundo álbum da cantora, produtora e violinista Brittney Parks (a.k.a. Sudan Archives) após a estreia elogiada, Athena, em 2019. Ao longo das 18 faixas épicas e ousadas, o registro apresenta uma faceta confiante de Britt. Explora temas de empoderamento negro (“Selfish Soul”), feminilidade (“OMG BRITT”), família, romantismo (“ChevyS10”) e sexo (“Freakalizer”“Milk Me”) num leque de sons versáteis que transaciona pelo hip hop, jazz, R&B, breakbeat, house, tradições da África Ocidental e cordas em loop (“NBPQ (Topless)”).

• Coloque para tocar: “NBPQ (Topless)”

09. The Smile
(A Light For Attracting Attention)

O supergrupo The Smile, de Thom Yorke e Jonny Greenwood do Radiohead com o baterista Tom Skinner, lança o disco de estreia com produção de Nigel Godrich (Arcade FirePaul McCartney). Há um resgate das paisagens e bagagens sonoras do Radiohead: nos sintetizadores de Kid A (“The Same”), no art rock despretensioso de Hail to the the Thief (“We Don’t Know What Tomorrow Brings”), nos números orquestrais e acústicos de A Moon Shaped Pool (“Free in the Knowledge”“Pana-vision”) e guitarras arpejadas e reverberadas de In Rainbows (“Skrting On The Surface”). São canções de letras enigmáticas de desconforto e alienação construídas no vocal distinto de Yorke que se completam nos metais, cordas da Orquestra Contemporânea de Londres (“Speech Bubbles”) e na percussão efetiva de Skinner (“Thin Thing”“A Hairdryer”). É um material com som familiar, longe de ser algo ruim, que corresponde a ausência de seis anos desde o último disco do Radiohead.

• Coloque para tocar: “Thin Thing”

08. Weyes Blood
(And In The Darkness, Hearts Aglow)

Weyes Blood lança And in the Darkness, Hearts Aglow, o segundo álbum de uma trilogia iniciada com Titanic Rising. Enquanto o anterior foi uma observação da desgraça por vir, And in the Darkness, Hearts Aglow é sobre estar no meio do conflito: a análise por uma fuga para se libertar dos algoritmos, do caos ideológico e do isolamento. Na escuridão, o disco influenciado pelo folk rock dos anos 1960 e 70 e o chamber pop, abre com a melancólica e cativante “It’s Not Just Me, It’s Everybody”, uma música sobre a interconectividade de todos os seres, apesar do desgaste da sociedade ao redor. Outras faixas seguem o modelo. A canção de ninar “Grapevine” narra a desintegração de uma conexão entre amantes. O canto fúnebre sobrenatural “God Transform Me into a Flower” serve como alegoria sobre a arrogância coletiva embalada por sintetizadores new age de Daniel Lopatin (a.k.a. Oneohtrix Point Never), sons de violino elétrico de Charlie Bisharat e samples de pássaros. E “The Worst Is Done” é um recado temível e pessimista, sobre a tentativa de restabelecer a normalidade, contra uma melodia pop em arranjos belíssimos no estilo The Carpenters. Mesmo destoando angústia existencial com instrumentações gloriosas, And in the Darkness, Hearts Aglow não é um manifesto ou uma solução, mas um arremesso de luz sobre a nossa desilusão contemporânea.

• Coloque para tocar: “It’s Not Just Me, It’s Everybody”

07. Kendrick Lamar
(Mr. Morale & The Big Steppers)

Mr. Morale & The Big Steppers é um diário da vida de Kendrick Lamar, aparentemente, ou uma sessão de terapia (“United in Grief”) unindo o atual sucesso com a infância em letras sinceras e pessoais. As experiências ao longo da trajetória do rapper (“Rich Spirit”, “Silent Hill”) ao lidar com abuso (“Crown” com sample de “Through The Night” de Duval Timothy), o vício na própria luxúria (“Mother I Sober” com Beth Gibbons do Portishead), a relação com o pai (“Father Time” com Sampha) e ao tornar-se um (“Mirror” com sample de “16” de Baby Keem), o discurso sobre a aceitação gradual de dois membros transgêneros da família (“Auntie Diaries”) e questões sociopolíticas (“Savior”) passam ao longo do registro duplo. No fim, Kendrick é apenas humano e está sujeito a cometer erros e reconhecê-los como aprendizado.

• Coloque para tocar: “N95”

06. Nilüfer Yanya
(PAINLESS)

A britânica Nilüfer Yanya se desfaz da ambiguidade temática do primeiro álbum, Miss Universe, e admite os próprios sentimentos e vulnerabilidades no coeso PAINLESS. É um disco que força o ouvinte a se acomodar com o desconforto que acompanha os maiores desafios da vida (“the dealer”), sejam eles: rupturas de relacionamentos, solidão (“stabilise”) ou a busca pelo eu interior. Evocando nomes como Radiohead (“midnight sun” soa como uma parente de “Weird Fishes/Arpeggi”), Nirvana e Elliott Smith, a artista modela uma sonoridade própria pelos caminhos do rock, grunge, indie, folk e synthpop. São melodias sublimes e cruas construídas em guitarras angulares, sintetizadores discretos e drum beats rígidos sustentadas pelo vocal maleável – rouco e brando – de Yanya.

• Coloque para tocar: “stabilise”

05. Alex G
(God Save The Animals)

“Deus é meu designer / Jesus é meu advogado…”. Em God Save The Animals, cujo título precisa imagens de intervenção divina em desastres ecológicos, Alex G desfruta de referências religiosas e busca da fé, não como uma entidade religiosa objetiva, mas como um sinal de um senso generalizado de fé (em algo ou qualquer coisa) e moralidade que o fortaleça ou os personagens oprimidos que aborda. Além de vocais muitas vezes adulterados (“SDOS”“Immunity”), o registro traz uma série de números inquietamente distorcidos e hipnóticos nas camadas de texturas que saboreiam do folk acústico (“Miracles”) ao power pop, do yatch rock (“Early Morning Waiting”) ao rock melódico (“Runner”) e lo-fi (“Cross the Sea”), do industrial (“Blessing”) ao hyperpop (“No Bitterness”). Giannascoli foi atraído nos últimos anos por artistas que equilibram o público e o hermético, o oblíquo e o íntimo, e que apresentam a fé mais como uma linguagem social compartilhada do que como doutrina religiosa.

• Coloque para tocar: “Miracles”

04. Jockstrap
(I Love You Jennifer B)

O eclético duo britânico Jockstrap, projeto com nome memorável do produtor Taylor Skye e da cantora Georgia Ellery (violinista do Black Country, New Road), lança o tão esperado álbum de estreia após uma série de EPs cultuados. Com uma sonoridade caótica e, igualmente, melódica, a dupla combina o frenesi techno das pistas de dança (“50/50”), sons clássicos dos anos 1960 e 1970 (“What’s It All About?”), rock progressivo (“Opener Neon”), pop celestial (na nostálgica “Concrete Over Water”), cordas luxuosas (“Glasgow”“Angst”) e experimentalismo (“Debra” é bollywood no ácido) com desembaraço. Através da produção impaciente de Skye e vocais afetuoso de Ellery, como um imaginado e improvável encontro de Skrillex com Joni Mitchell, o resultado é um material exagerado, criativo e singular pronto para romper qualquer regra de gênero.

• Coloque para tocar: “Concrete Over Water”

03. Kilo Kish
(AMERICAN GURL)

AMERICAN GURL é uma mistura fabulosa de pop industrial, new wave, drum ‘n’ bass, disco, dance punk, rap e trip hop para Kilo Kish experimentar diferentes papéis e compreender nossa realidade distorcida. Sucesso, a cena deturpada do entretenimento (“NEW TRICKS: ART, AESTHETICS, AND MONEY” com o rapper Vince Staples), consumismo (“DISTRACTIONS III: SPOILER ROTTEN”), expectativas socioculturais, poder de escolha, questões individuais (“DEATH FANTASY” com Miguel), autoconfiança (“NO APOLOGY!”), entre outros temas fazem a artista beneficiar-se da arte experimental – desde a faixa inicial “PLAY” que dá início a um jogo caótico ao som de uma máquina de fliperama e vozes dizendo “eu vou vencer” – para assimilar a própria existência numa jornada contínua para a liberdade pessoal.

• Coloque para tocar: “AMERICAN GURL”

02. ROSALÍA
(MOTOMAMI)

MOTOMAMI, o terceiro disco de estúdio de ROSALÍA, é revelador na natureza dualista que o inspirou. ‘MOTO’ remete ao lado agressivo da feminilidade, enquanto ‘MAMI’ toca em uma energia mais amorosa e conectada da artista espanhola. O trabalho transporta um pouco de tudo nas produções progressistas mansas (“HENTAI”) e selvagens (“BIZCOCHITOS”) rascunhadas pelo reggaeton (“SAOKO”“CHICKEN TERIYAKI”), flamenco (“SAKURA”, “DIABLO” com vocais de apoio de James Blake), bachata (“LA FAMA” com The Weeknd), salsa (“DELIRIO DE GRANDEZA”, um cover do cubano Justo Betancourt com sample dos versos de Soulja Boy em “Delirious” do Vistoso Bosses) e batuques de samba (“CUUUUuuuuuute”). Há uma instigação de fazer lastimar, dançar e devanear com aventuras eróticas e romances em uma série de músicas pilotadas por um conjunto magistral de influências que se fundem em uma fantasia pop revolucionária e cultural impetuosa.

• Coloque para tocar: “CUUUUuuuuuute”

01. Beyoncé
(RENAISSANCE)

Depois de seis anos, Beyoncé está de volta com seu disco mais dançante até agora. RENAISSANCE é uma celebração da cultura dos clubes na música disco, house, cultura ballroom e sons funky. Flutuando pelos estilos dos dias de Studio 54 às festas dos anos 90, o registro conta com uma lista de colaboradores invejáveis: de Grace Jones (“MOVE”) a Nile Rodgers (com uma guitarra sedutora na disco groovy “CUFF IT”) ou Skrillex (“ENERGY”) a Pharrell Williams, Honey Dijon (“COZY”) e BloodPop (“PURE / HONEY”). Além disso, há samples icônicos como “Show Me Love” de Robin S. em “BREAK SOUL”“Cocaine (America Has a Problem)” de Kilo Ali em “AMERICA HAS A PROBLEM”, “Center Of Thy Will” do Clark Sisters e “Where They At” do DJ Jimi na gospel rap “CHURCH GIRL”“Mystery of Love” do Mr. Fingers (“PURE / HONEY”) e “I Feel Love” de Donna Summer e Giorgio Moroder na disco house “SUMMER RENAISSANCE”. Largando em parte o discurso político e a fúria do último álbum, LemonadeRENAISSANCE é um convite – desde a primeira faixa “I’M THAT GIRL” – para festejar a vida pós-pandemia e celebrar a existência de Beyoncé entre nós. É um registro que ultrapassa os limites do protagonismo, celebra a história da música preta e transforma a pista de dança em um ambiente de resistência. “Aplausos, uma salva de palmas” é o que a artista pede no final do disco. E merece.

• Coloque para tocar: “ALIEN SUPERSTAR”

Playlist com as faixas selecionadas de cada disco.