7 discos para ouvir hoje: hemlocke springs, Charli XCX, Cardinals, PONY e mais

hemlocke springs / Shervin Lainez

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: hemlocke springs, Charli XCX, Danny L Harle, Ásgeir, Jill Scott, Cardinals e PONY.

hemlocke springsthe apple tree under the sea
(AWAL)

A artista de pop alternativo Hemlocke Springs, nome artístico de Isimeme Udu, que ganhou projeção com um dos EPs mais aclamados de 2023, going…going…GONE!, marcado por sua abordagem inventiva e excêntrica ao pop, apresenta seu álbum de estreia, the apple tree under the sea. Inspirado por atmosferas de contos de fadas e reflexões sobre sua formação cristã, o projeto ressignifica símbolos tradicionais para construir uma jornada íntima de emancipação e amadurecimento.

“the red apple” introduz temas como tentação, autoconhecimento e mudança, enquanto “the beginning of the end” alterna sintetizadores tensos, passagens melódicas mais leves e explosões roqueiras ao abordar vícios, inseguranças e a busca por conexão. Em “head, shoulders, knees and ankles”, a cantora mergulha em um eletropop vibrante guiado por batidas pulsantes e interpretação dramática que remete à estética de Marina and the Diamonds, incorporando ainda um senso performático com ares medievais e ecos de Kate Bush.

“w-w-w-w-w” combina percussões marcantes que nos instantes iniciais flertam com o samba e teclados sombrios para construir um pop incisivo que retrata, de forma direta, coerção e violência em um relacionamento abusivo. Já “moses” apresenta energia contagiante ao investir em bases de drum ’n’ bass com balanço que remete às produções de Timbaland, entrelaçando referências bíblicas à narrativa.

Um de seus primeiros sucessos virais, “sever the blight” transforma a saudade em declaração apaixonada ao unir teatralidade quase renascentista a uma crescente explosão de batidas oitentistas inspiradas por Depeche Mode, Kate Bush e Phil Collins. Em “set me free”, a combinação de elementos do R&B com nuances marcantes de synthpop sustentam questionamentos sobre educação conservadora, casamento e desejos reprimidos. Já a faixa final, “be the girl!”, evoca as baladas eletropop épicas dos anos 80 para refletir sobre renovação e simbolizar a despedida de uma antiga versão de si mesma, consolidando uma estreia ousada que entrelaça fantasia, crítica social e confissões pessoais como um manifesto de liberdade, transformação e afirmação artística.

Charli XCXWuthering Heights
(Atlantic)

Charli XCX assina a trilha sonora original da nova adaptação cinematográfica de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, dirigida por Emerald Fennell, em um projeto que surgiu como reação ao esgotamento após a era BRAT e ganhou profundidade com a leitura do roteiro inspirado na obra de Emily Brontë. O que começou como ideias pontuais evoluiu para um álbum completo desenvolvido em parceria com Finn Keane, tendo como fio condutor a relação intensa e conflituosa entre Cathy e Heathcliff. Ao longo do disco, Charli constrói paisagens sonoras densas e narrativas emocionais.

“House”, ao lado de John Cale, aposta em um clima sombrio e cinematográfico sobre isolamento e autoengano. “Wall of Sound” une arranjos dramáticos a versos carregados de angústia, enquanto “Dying for You” mergulha em desejo obsessivo com estética pop vibrante. “Always Everywhere” recorre a sintetizadores sutis e camadas expansivas para retratar sentimentos que não se dissipam, “Chains of Love” explora dor e dependência emocional com produção grandiosa e “Altars” une batida hipnótica e simbolismo religioso para questionar devoção e idealização. “Eyes of the World”, com Sky Ferreira, aborda julgamento externo e afirmação pessoal em tom obscuro, “My Reminder” mescla peso industrial e orquestrações ao tratar de vínculos familiares complexos, enquanto “Funny Mouth”, escrita com Joe Kerry (a.k.a. Djo), revisita impasses amorosos com energia eletrogótica. No conjunto, o trabalho marca uma guinada criativa expressiva na trajetória da artista.

Danny L HarleCerulean
(XL Recordings)

O músico, produtor e compositor Danny L Harle apresenta Cerulean, seu primeiro álbum de estúdio, trabalho que define como seu verdadeiro debut após o projeto imersivo Harlecore, de 2021, encarando-o como seu grande momento artístico. O disco percorre paisagens sonoras expansivas e futuristas, combinando graves intensos e sintetizadores trance luminosos com harmonias de inspiração clássica, texturas sonoras detalhadas e gravações de campo feitas pelo próprio artista, como o som das ondas no litoral, posicionando-se entre o sonho e a realidade e explorando uma euforia melancólica de escala monumental, mas essência profundamente humana. Em busca de melodias marcantes interpretadas por vozes expressivas, Harle reúne colaboradores como Dua Lipa, Caroline Polachek (em “Azimuth” e “On & On”), Clairo, PinkPantheress (“Starlight”), OklouMNEK (em “Crystallise My Tears”), Julia Michaels (“Raft In The Sea”) e kacha, além de participações de sua filha. As influências de Harle, que vão do rave hedonista aos videogames ‘Dark Souls’, passando por “Einstein on the Beach”, a ópera de Philip Glass, e por compositores renascentistas e elisabetanos como Monteverdi, Thomas Tallis e William Byrd, sustentam a visão expansiva do álbum, que atravessa estilos e épocas.

Ásgeir – Julia
(One Little Independent Records)

No quinto álbum de estúdio, Julia, o cantor islandês Ásgeir assume pela primeira vez a escrita integral das próprias letras, afastando-se das colaborações com John Grant e da poesia de Einar Georg Einarsson, e entrega um trabalho introspectivo e nostálgico que revisita arrependimentos e projeta novos começos sob a aura da personagem-título. Com produção orgânica ao lado de Guðmundur Kristinn Jónsson, o disco privilegia simplicidade e vulnerabilidade, evidentes em faixas como “Quiet Life”, que abre o álbum com delicadeza contemplativa, “Against the Current”, que cresce em afirmação com arranjos de Samuel Jón Samúelsson, e “Smoke”, marcada pela melancolia da perda da voz interior; há ainda o otimismo sereno de “Ferris Wheel”, enriquecida pelas intervenções do violoncelista Nathaniel Smith, o tom trágico e cinematográfico de “Universe Beyond” e da faixa-título, além da inquietação rítmica de “Sugar Clouds”, da reflexão identitária em “Stranger”, do confronto com o passado noturno em “In the Wee Hours” e do fechamento luminoso de “Into the Sun”, compondo um retrato honesto de amadurecimento que dialoga com referências como Daniel Lanois, Leonard Cohen, Nick Drake, Adrianne Lenker, Dina Ögon, Gregory Alan Isakov e Saya Gray.

Jill ScottTo Whom This May Concern
(Human Re Sources/The Orchard)

Após mais de uma década sem lançar material inédito, a cantora de R&B Jill Scott marca seu retorno com To Whom This May Concern, um trabalho intenso e comovente, repleto de texturas, ritmos envolventes e verdades emocionais. Inspirado pela vivência coletiva (“Beautiful People”), pela introspecção e pela experimentação sonora, o álbum combina melodias marcantes, arranjos de metais e batidas pulsantes para criar uma experiência imersiva, que convida o público a sentir sem reservas, refletir com liberdade e absorver aquilo que mais ressoa em cada um. Com 19 faixas, o projeto começa com uma colaboração impactante ao lado da artista de spoken word e soul Maha Adachi Earth, e segue com destaques como “Norf Side”, em parceria com Tierra Whack, o single principal “Pressha” e “Me 4”, que incorpora um sample de “What Happened To That Boy”, de Birdman e Clipse. O trabalho ainda reúne participações de nomes de peso como Trombone Shorty, Too $hort, JID, Ab-Soul, DJ Premier e Adam Blackstone, entre outros convidados especiais.

CardinalsMasquerade
(So Young Records)

A banda Cardinals apresenta seu aguardado álbum de estreia, Masquerade. O trabalho equilibra grandiosidade e delicadeza, mergulhado em romantismo e imagens quase sagradas, consolidando de vez o potencial que o grupo demonstra desde os primeiros passos. As canções transitam por emoções intensas: algumas carregam tensões marcadas por violência contida, cinismo e inquietação ardente, como em “Anhedonia”, “The Burning of Cork” e “Barbed Wire”, enquanto outras revelam uma vulnerabilidade luminosa e sincera. A primeira metade do disco, mais vívida, contrasta com uma segunda parte mais sombria, estruturando o projeto como se tivesse lado A e lado B, em referência à paixão do grupo pelo vinil, além de dialogar com influências que vão da franqueza crua do folk ao dramatismo teatral do goth rock. Formado pelos irmãos Euan e Finn Manning, ao lado do primo Darragh e dos amigos de escola Oskar Gudinovic e Aaron Hurley, o quinteto se firma como um dos nomes mais promissores do rock independente irlandês e, com Masquerade, rompe qualquer amarra para afirmar uma identidade própria e definitiva.

PONYClearly Cursed
(Take This To Heart Records)

A banda PONY retorna com Clearly Cursed, um álbum que desafia previsões místicas e leva seu grunge pop a um nível mais maduro e plenamente desenvolvido. Segundo Sam Bielanski, integrante fundadora e principal compositora, o disco nasceu da primeira experiência que teve com uma vidente aos 21 anos. Ela leu suas cartas de tarô e afirmou que seu namorado a traía, o que de fato era verdade. Também disse que havia um espírito sombrio ligado a ela e que poderia eliminá-lo por 1500 dólares. Como o valor estava muito além do seu orçamento, Bielanski decidiu ir embora e brincar com a ideia de que teria de conviver com essa “presença obscura” pelo resto da vida. Em Clearly Cursed, Bielanski e Matty Morand, membros fundadores do grupo, contam com a colaboração dos músicos de turnê Christian Beale e Joey Ginald. Juntos, trabalharam ao lado do produtor Alex Gamble, expandindo a sonoridade e a composição da banda até alcançar a identidade musical que buscavam desde a formação, há mais de dez anos. O resultado mantém o brilho do power pop característico do PONY, agora enriquecido por referências de perdas, erros, paixões e recomeços que ampliam ainda mais seu universo sonoro.