
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Ibeyi, Beth Orton, Harmony Tividad, ill peach, Tasha, Chanel Beads, Gold Panda, Muse e JJerome87.
• Ibeyi – Offering
(IBEYI Records)
A dupla franco-cubana Ibeyi apresenta Offering, seu primeiro álbum de estúdio em quatro anos, sucessor de Spell31, marcando também o início de uma nova etapa independente na carreira. Ao longo de 12 faixas, o projeto aborda desapego, autodescoberta e crescimento pessoal, refletindo um período de renovação criativa no qual Naomi Diaz e Lisa-Kaindé Diaz expandem seus horizontes musicais ao lado de novos produtores e colaboradores. Apesar de terem vivido em países diferentes nos últimos anos, vivências semelhantes fortaleceram novamente o vínculo entre as irmãs, influenciando diretamente o desenvolvimento do trabalho. Interpretando canções em inglês, francês, espanhol e iorubá, a dupla constrói uma identidade sonora que une percussões afro-cubanas, ritmos de bata e cajón, além de influências de soul, R&B, jazz, hip hop e música eletrônica. O resultado representa um novo capítulo guiado pela vulnerabilidade, pela maturidade e pela liberdade artística.
“Olokun” traz cânticos dedicados à divindade do oceano, alternando momentos de exaltação e tensão. “Aset” inspira-se na deusa Ísis (Aset) e em sua trajetória de amor, sacrifício e transformação, enquanto “Offerings” acompanha uma jornada que vai da busca por respostas à aceitação, inspirada por uma visão de Yemayá. Já “Moshpit” mergulha em uma atmosfera eletrônica industrial e repleta de distorções para abordar conflitos ligados à identidade.
Em “Baba”, que combina vocais em tom de encantamento com uma linha de baixo oscilante, as artistas evocam Eleguá e transformam um lamento em uma poderosa declaração de autoconhecimento e autonomia criativa. “Focus”, com sua construção delicada e gradualmente intensa, retrata um processo de renascimento interior, no qual o amor e a conexão consigo mesma superam os medos e conduzem à libertação. “Hurry Hurry” revela o anseio por construir um relacionamento duradouro, enquanto “Good Life” encerra o percurso celebrando a gratidão e a capacidade de enxergar beleza mesmo nos momentos de tristeza. Como um manifesto de transformação e reconexão com suas raízes, Offering reafirma o Ibeyi em sua fase mais livre, madura e artisticamente ousada.
• Beth Orton – The Ground Above
(Partisan Records)
Há mais de três décadas, Beth Orton transforma experiências humanas e sentimentos profundos em canções marcantes, construindo uma trajetória artística singular. Em The Ground Above, a cantora entrega seu álbum mais honesto e confessional, reunindo faixas intensas que equilibram espontaneidade criativa e uma escrita de caráter atemporal. Sua interpretação percorre diferentes nuances, alternando delicadeza e força, enquanto os versos refletem sobre sobrevivência, renascimento, maternidade, identidade, questões políticas e a decisão contínua de permanecer aberta ao amor, à criação e à própria existência.
Assim como em Weather Alive (2022), Orton assume a produção, preservando a essência das gravações ao vivo e lapidando o repertório ao longo de um ano. A faixa-título apresenta uma atmosfera épica, sustentada por arranjos sutis e etéreos que destacam a expressividade de sua voz ao abordar amor e luto. Em “Cigarette Curls”, a artista relembra uma amizade marcante da juventude que despertou sua paixão pela música. Já em “I’ll Miss You”, retrata um relacionamento à beira do fim, mostrando que o amor deixa de ser suficiente quando exige abrir mão de si mesmo, enquanto “Love You Right” oferece a perspectiva oposta, defendendo a escolha consciente de cultivar o amor e a gentileza apesar dos desafios das relações. “Waiting” revela uma sonoridade emotiva, inspirada de forma sutil por Laura Nyro, Carole King e pelo antigo colaborador Terry Callier, conduzindo uma reflexão sobre superar a dor e reconhecer que a felicidade sempre esteve no presente, ao lado de quem se ama. Em “Celestial Light”, Beth contempla a mortalidade com serenidade e sensibilidade, entregando uma das interpretações vocais mais marcantes de sua carreira, enquanto em “Otherside”, inspirada no canto dos pássaros ao amanhecer e noites de insônia, é uma balada que se manifesta em um símbolo de resistência, esperança e reconstrução após as perdas.
• Harmony Tividad – Lifetime
(KRO Records)
A cantora e compositora Harmony Tividad apresenta Lifetime, seu segundo álbum de estúdio e sucessor de Gossip. As canções foram escritas em diferentes momentos de sua trajetória, desde o período anterior ao hiato da antiga banda Girlpool até a conclusão do projeto. Com produção executiva de Yves Rothman (Kelsey Lu, Blondshell), o disco mergulha nas transformações constantes da vida, na busca por liberdade e no desejo de viver com autenticidade, mesmo em meio às incertezas.
“Mulholland Drive” resgata a sonoridade do pop rock dos anos 1990 para retratar um relacionamento tóxico marcado por dependência emocional, escapismo e autodestruição. Já “Best Dressed” bebe da estética do rock dos anos 1960 e utiliza a personagem Norma Desmond (do clássico filme ‘Crepúsculo dos Deuses’) como metáfora para discutir a obsessão por beleza, juventude e aprovação social. “Apple Pie” revisita um relacionamento abusivo em uma delicada balada indie rock, enquanto a faixa-título cresce em intensidade para abordar, com ironia, as mudanças da vida adulta, a ilusão da perfeição e a rápida passagem do tempo. Já “I’m Still Learning How To Leave You” combina violões acústicos e arranjos orquestrais para retratar a dificuldade de romper os laços emocionais deixados por um relacionamento, encerrando um álbum marcado pela vulnerabilidade, amadurecimento, espiritualidade e reflexões sobre as experiências que moldaram a trajetória de Tividad.
• ill peach – EAVESDROPPING
(Handwritten Records)
O trio de indie pop ill peach apresenta o segundo álbum de estúdio EAVESDROPPING. O trabalho marca uma nova fase da banda ao explorar as complexidades das relações humanas por meio de conversas ouvidas por acaso, reflexões internas e momentos de intimidade, enquanto transforma experiências pessoais em um processo criativo catártico, especialmente após a perda do pai da vocalista Jess Corazza em 2024. Com dez faixas, o disco equilibra caos e renovação, apostando em experimentação e autenticidade.
“CRASH COURSE DUMMY” é um grit-pop sobre aquela pessoa em ambientes sociais se esforça demais para se encaixar, a ponto de isso se tornar visivelmente desconfortável, “SMALL TALK” é uma combinação de alt-pop, post-punk e indie que busca inspiração em diálogos cotidianos escutados em lugares públicos. “MOLLY’S NOT A FRIEND” converte o luto e a imprevisibilidade da vida em uma canção intensa, “CULT DADDY” é um explosivo encontro entre alt-rock e caos sonoro, enquanto “RODEO” combinando clima leve, atmosfera onírica e um groove contagiante que convida para dançar.
• Tasha – You Are Spring!
(Bayonet Records)
Em You Are Spring!, a musicista e poeta Tasha abandona o cenário invernal e cinzento para embarcar numa atmosfera de renovação, repleta de cores vivas, luz e sensação de renascimento. O trabalho sucede All This and So Much More e evidencia uma evolução estética em que sua linguagem indie ganha amplitude cinematográfica sem perder proximidade emocional. Logo em “Spring”, com harmonias vocais que incluem Jamila Woods e Taja Cheek (a.k.a. L’Rain), estabelece a ideia central de transformação e continuidade. Em “Clarion”, a viagem e a mudança de cidade surgem como metáfora de deslocamento e amadurecimento, enquanto a artista reflete sobre estar “metade em casa” durante transições entre Chicago e Nova Iorque. Já “Ending” interrompe qualquer euforia ao expor, de forma crua, angústias ligadas a colapsos globais, mudanças climáticas e instabilidade social, tensionando beleza e colapso em versos quase litúrgicos.
Na sequência, “Lucky” traz uma contemplação silenciosa da existência, onde até enxergar o céu se torna motivo de gratidão frágil, enquanto “Actor” observa relações esvaziadas e gestos automáticos do afeto em ruínas. Em “Special”, a produção se expande com arranjos sofisticados, reforçando camadas de delicadeza. O encerramento em “Quick!” acelera a percepção do tempo, questionando a passagem da beleza com urgência quase teatral, até retornar a um estado mais sereno. No conjunto, o álbum propõe celebrar o florescimento pessoal como algo precioso justamente por conviver com a consciência da perda, lembrando que toda primavera é provisória, mas sempre retorna.
• Chanel Beads – Your Day Will Come
(Jagjaguwar)
Chanel Beads, projeto do artista Shane Lavers, conhecido por um indie rock expansivo atravessado por ruídos experimentais, lança seu segundo álbum de estúdio, Your Day Will Come. O trabalho, que reaproveita o título do disco de estreia, não se configura como repetição nem releitura, mas como uma obra inteiramente nova. A decisão de reutilizar a expressão vem da sua carga simbólica persistente, associada a um embate interno entre certeza e dúvida que marcava seus pensamentos.
O álbum se inicia com “Drums Only”, construída a partir de camadas etéreas e vocais quase celestiais. Em seguida, “Song for the Messenger” une interpretações intensas a uma base instrumental fluida, com bateria ao vivo, cordas e guitarras distorcidas, explorando um estado psíquico em tensão entre revelação, autossabotagem e o desejo ambíguo de fuga emocional. “The Coward Forgets His Nightmare” aborda uma memória instável e uma sensação de conforto incerto, enquanto “JBL in the Fireplace” aposta em piano sensual e batidas inspiradas no trip hop para expressar um amor que resiste em meio ao caos e à pressão social. Já “Dust in the Wind”, com participação de Isaac Eiger, surge como uma delicada balada lo-fi guiada por guitarras e violinos sutis, refletindo a tentativa de preservar a esperança diante da dor, da desilusão e de lembranças que ainda persistem. No conjunto, Your Day Will Come se constrói como um retrato fragmentado e sensível de conflitos internos, onde beleza e ruína coexistem em constante tensão emocional.
• Gold Panda – TON UP
(Studio Barnhus)
O produtor britânico Gold Panda lança o álbum TON UP, sequência de The Work, reunindo oito faixas voltadas para a energia das pistas e duas vinhetas curtas de atmosfera etérea. O projeto mescla batidas vigorosas inspiradas no hip hop clássico com a cadência da house music, evidenciando a habilidade de Derwin Dicker na manipulação de samples. Em vez de optar por uma abordagem mais contida ou refinada, o artista reafirma sua identidade sonora, investindo em ritmos acelerados, grooves hipnóticos e repetições envolventes que reforçam o impacto físico e pulsante da música nas pistas de dança. Alternando entre trechos de alta energia e seções mais suaves e envolventes, o registro reúne um conjunto de faixas dinâmicas, acessíveis e, por vezes, inesperadamente emotivas, reforçando a capacidade do artista de construir uma música eletrônica pulsante, criativa e marcada por forte identidade própria.
• Muse – The Wow! Signal
(Warner Records)
Em agosto de 1977, o radiotelescópio Big Ear, da Universidade Estadual de Ohio, registrou uma emissão de rádio com 72 segundos de duração proveniente das profundezas do cosmos, vinda da direção da constelação de Sagitário. O episódio não voltou a se repetir e desapareceu sem qualquer explicação conhecida. A força do sinal chamou a atenção do astrônomo Jerry R. Ehman, que escreveu “Wow!” na margem da impressão, batizando assim o fenômeno. O álbum The WOW! Signal resgata essa sensação de enigma e procedência incerta, como se suas sonoridades emergissem de lugar algum e, ao mesmo tempo, de todos os lugares, enquanto o Muse atua em um patamar de criatividade ainda mais amplo e expansivo.
A faixa de abertura, “The Dark Forest”, aparece como uma composição retrofuturista inspirada no universo de James Bond, com arranjos sinfônicos exuberantes, sintetizadores em cascata e um coro grandioso, evidenciando uma banda claramente entretida ao elaborar peças excessivas e de grande escala. Matt Bellamy, em particular, parece completamente imerso no processo, como se tivesse absorvido referências do synthwave oitentista à la Carpenter Brut, convertendo músicas “Nightshift Superstar” em uma disco de ficção científica. Há também momentos mais delicados, como a balada “Shimmering Scars” e a eletrônica delicada de “Unravelling”, que contrastam com a energia mais pesada do rock, como em “Cryogen”, que recupera ecos do riff de “Plug In Baby”, enquanto “The Sickness In You & I” e “Hush”, parceria com Ellie Goulding, apostam em guitarras de grande impacto que remetem a fases anteriores da banda.
The WOW! Signal se estrutura como uma travessia sonora pelo desconhecido e pelo monumental, traduzindo o mistério cósmico em uma experiência que alterna entre colapso emocional e êxtase estelar.
• JJerome87 – The Canyon
(Mushroom Music/Virgin)
The Canyon, o álbum de estreia solo de JJerome87, alter ego de Joe Newman (vocalista do alt-j), constrói uma proposta de forte caráter cinematográfico, combinando narrativas inventivas com uma sensibilidade do cotidiano, inspirada por lembranças pessoais, referências de Los Angeles e experiências recentes do artista, incluindo a paternidade. Gravado na cidade norte-americana e coproduzido por Carlos de la Garza (Paramore, The Linda Lindas) ao lado de músicos de estúdio locais, o trabalho reflete um cruzamento entre a estética vintage americana e um olhar britânico contemporâneo, organizando uma sequência de histórias sonoras íntimas e quase fílmicas.
Em “Mr. Alligator”, de atmosfera marcada pelo blues, surge um protagonista ambíguo e manipulador que admite sua própria falta de confiabilidade enquanto lida com impulsos intensos, aversão e obsessão em um enredo sombrio e desconfortável. Já “Brush Me Like A Horse”, com influências de Motown, blues e gospel, apresenta a trajetória incomum de um homem emocionalmente vulnerável que, de forma gradual e simbólica, se transforma em um cavalo. “Track And Field” aposta em um indie pop radiante com toques de americana e gospel para retratar um romance nostálgico atravessado por inseguranças e pelo desejo de recuperar a intensidade do início da relação, além da sensação de ser escolhido. Em “Green Velvet” aparecem texturas de art-rock mais leves, guitarras com groove e um refrão de impacto, enquanto “Quaaludes” (uma substância sedativa e hipnótica) mergulha em uma atmosfera psicodélica guiada por uma melodia hipnótica e envolvente.
No conjunto, o disco se afirma como uma estreia solo criativa e coesa, na qual JJerome87 converte vivências pessoais e imaginação em canções de identidade marcante, equilibrando experimentação sonora e apelo melódico em uma obra de forte unidade narrativa e estética.



