
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Arca, DOMi & JD BECK, Lucia & The Best Boys, Family Stereo, PNAU, Mallory Hawk e Fracisca Valenzuela.
• Arca – XXXXX
(XL Recordings)
A musicista, produtora, DJ, vocalista e artista visual Arca sempre tratou a criação sonora como uma extensão do próprio corpo, fazendo de cada lançamento uma etapa de reconstrução pessoal. Após os cinco volumes da série Kick, marcados por rupturas e metamorfoses, XXXXX surge como o registro do que permaneceu desse processo. Com 16 faixas, o disco nasceu como uma mixtape, mas mudou de formato durante a produção, refletindo o desejo da venezuelana de romper expectativas e abandonar comportamentos automáticos.
Mais sombrio, intenso e agressivo, o repertório recupera elementos de trabalhos extensos como @@@@@ e &&&&&, ao mesmo tempo que se distancia do pop direto para explorar contradições, impulsos e instintos brutos. Narrações sussurradas, graves submersos, distorções e referências ao hip hop alternativo, trap, grime e à eletrônica underground conduzem a experiência.
“Willow” mergulha em uma atmosfera nebulosa, enquanto “Eidolon” reúne graves oscilantes, vocais reverberantes em espanhol e uma produção eletrônica desconstruída. A provocativa “Taconeando”, termo do flamenco que descreve o impacto dos saltos contra o chão, transita entre sonoridades de pista e a house experimental para celebrar o desejo e a liberdade sexual. Já “Fxck” se aproxima do pop ao unir percussão cintilante, batidas pesadas, erotismo explícito e violência em um confronto com o poder, a autoridade e o patriarcado, ao passo que “Enraptured” traduz a vontade de se entregar plenamente ao amor.
“Raver” preserva a tensão com ritmos arrastados e explosões de ruído, “Finisher” une cordas clássicas, ambient e trap, enquanto “Throb” investe em arranjos espaçosos e fragmentos vocais. “Everything” se constrói em torno de falhas digitais frenéticas que evocam um nascimento sonoro e remetem às criações de Aphex Twin, enquanto “Sueño” leva essa sensação ao limite por meio de intervenções cruas e repentinas.
XXXXX apresenta uma forma temporariamente mais estável de Arca, transformando o caos em matéria de reinvenção e reafirmando sua capacidade permanente de mutação.
• DOMi & JD BECK – WHO ASKED?
(APESHIT)
Após conquistarem reconhecimento pela técnica impressionante, pelo humor irreverente e pela fusão imprevisível de jazz, hip hop e pop apresentada em NOT TiGHT, DOMi & JD BECK retorna com WHO ASKED?, segundo álbum produzido quase integralmente pela dupla em seu estúdio caseiro. Sem grandes participações, o trabalho investe em arranjos orquestrais cuidadosamente elaborados, estruturas próximas do pop, harmonias sofisticadas e vocais presentes na maior parte do repertório. Com o apoio de instrumentistas clássicos, os artistas expandem sua linguagem em composições como “ÉPiPHANiE”, “CONCERTiNO (FOR PiANO, DRUMS & ORCHESTRA)”, “EXiT” e “PUZZLE PiECES”. Já “HAD ENOUGH”, com letra de Anderson .Paak, reúne bateria veloz, baixo sintetizado e imagens relacionadas à memória e à renovação, enquanto “GROWiNG OLDER”, “PHANTOM THREAD” e “SMALL EYES” abordam amadurecimento, afetos, criatividade e vivências pessoais. O desfecho une a energia crescente de “CLiMBiNG HiGH” à delicadeza cinematográfica de “ÉPiLOGUE”, marcada por vozes, sopros e baixo, reafirmando a habilidade dos músicos em transformar virtuosismo, experimentação e apelo melódico em uma obra mais acessível, sem abrir mão da ambição.
• Lucia & The Best Boys – Picking Petals
(Communion)
Após uma estreia afetada por atrasos causados pela pandemia e pelo extenso processo de criação de Burning Castles, a banda de indie rock Lucia & The Best Boys, liderada pela cantora e compositora Lucia Fairfull, encontra uma direção mais coesa em Picking Petals. Produzido por Yves Rothman, o álbum foi escrito durante períodos de isolamento em abrigos remotos na Escócia. “Back Inside My Heart” abre o repertório com a atmosfera intensa de uma balada pop à la Kate Bush. Já a sofisticada “Big Romance”, parceria com Abigail Morris, do The Last Dinner Party, estabelece a ambição do trabalho por meio de uma dramaticidade gótica, enquanto “Lonely Girl”, colaboração com Lauren Mayberry, do CHVRCHES, destaca a determinação das artistas em manter os vínculos com o país natal sem abandonar seus sonhos. O sentimento de pertencimento também surge em “You Look Like Somebody In Love” e na faixa-título, cuja ponte remete ao HAIM e utiliza a imagem de um cardo murcho como símbolo de amadurecimento e transformação. Os arranjos delicados da balada “Forgot the Arrow” valorizam a interpretação de Fairfull e revelam músicos mais seguros e emocionalmente maduros. “Better For The Worse”, por sua vez, transforma um início acústico em uma explosão dramática sobre o término de uma relação marcada pela manipulação. Enquanto isso, “Ephemeral” sintetiza a proposta do projeto ao combinar vulnerabilidade, produção exuberante e intensidade, impulsionadas pela voz singular da vocalista. Picking Petals consolida Lucia & The Best Boys em uma etapa mais confiante, expansiva e emocionalmente vigorosa, convertendo inquietações pessoais em composições de forte caráter cinematográfico.
• Family Stereo – The Thread
(Bella Union)
Em seu álbum de estreia, The Thread, Blake Watt, músico londrino que assina como Family Stereo, apresenta um folk delicado, cinematográfico e conciso, construído mais por sugestões e imagens do que por narrativas literais. Filho de Tracey Thorn e Ben Watt, do Everything but the Girl, o artista amadurece a sonoridade dos primeiros EPs ao unir composições contidas a arranjos expansivos. “Remedy” abre o disco com piano minimalista e sintetizadores discretos, enquanto a melancólica balada folk rock com influências country “Waiting on Nina”, “Sea Change” e “Fault Lines” exploram descobertas pessoais, transformações afetivas e o distanciamento entre indivíduos. A faixa-título reúne referências a espaços abertos, túneis e paisagens remotas para retratar um relacionamento à distância, ao passo que “Removed” cria uma atmosfera fantasmagórica inspirada em ‘O Homem de Palha’. O repertório também percorre o clima assombrado de “Collapsing”, o folk rock vibrante de “DLR”, o crescendo dramático de “Silhouette on the Hill” e o desfecho contemplativo formado por “Three Moon Trail” e “Tunnels”. Gravado ao longo de nove meses, o trabalho incorpora violino, banjo, bandolim, mellotron e sintetizadores para desenvolver um universo orgânico, envolvente e introspectivo, consolidando Family Stereo como um compositor interessado em contar histórias com precisão, simplicidade e abertura para diferentes interpretações.
• PNAU – AHHCade
(etcetc)
A dupla australiana PNAU apresenta seu sétimo álbum, AHHCade, inspirado na nostalgia dos fliperamas da infância e no encontro entre tecnologia contemporânea, emoção humana e a atmosfera acolhedora das pistas de dança. Com sintetizadores luminosos e batidas pulsantes, o disco reúne influências do synthpop dos anos 1980, da house dos anos 1990 e da eletrônica atual, equilibrando referências do passado e uma abordagem moderna. O repertório conta com participações de The Warning, MEDUZA, Master Peace, EARTHGANG, The Flints, Marieme, Kungs e Kurtis Wells, sem perder a identidade marcante do projeto. “Crash” e “Chemistry” estabelecem o clima eufórico, enquanto “Nirvana” carrega uma atitude punk à proposta dançante. “Tu Corazón (Your Heart)” transforma sintetizadores vibrantes e guitarras intensas em um hino ao amor e à comunidade, e “Rollin” aproxima a produção expansiva do PNAU da elegância sombria do MEDUZA. Já “Serotonin” avança com ritmo frenético e clima de rave à beira do caos, ao passo que “Rockette” incorpora funk retrô-futurista à energia contagiante dos australianos. Ao longo do trabalho, o PNAU utiliza recursos tecnológicos sem abrir mão da sensibilidade, reafirmando a criatividade humana como eixo central de sua música. Impecável nos arranjos e versátil o suficiente para conquistar grandes públicos, AHHCADE preserva a capacidade do grupo de surpreender.
• Mallory Hawk – Chinook
(Many Hats)
Em seu álbum de estreia, Chinook, Mallory Hawk revisita a infância em uma família ligada ao Exército, nas proximidades de Fort Bragg, na Carolina do Norte, para elaborar traumas, conflitos de identidade e recordações marcadas pelo som constante de helicópteros e canhões. Gravado em estúdios da Filadélfia, o trabalho reúne dez faixas e combina influências de grunge, punk, new wave e dark wave do Leste Europeu. A dance punk “D’Anger”, conduzida por um rock acústico de atmosfera noventista, retrata o fim de um relacionamento abusivo e a decisão de se preservar, enquanto “Revolver” aborda a experiência de ser amado nos piores momentos e encontrar nesse vínculo forças para mudar e se sentir vivo. A vagarosa “Low Rise” reflete sobre cristianismo, sexualidade e medo religioso durante a adolescência, ao passo que “Four O’Clocks” recupera lembranças da antiga casa da família, demolida para a construção de uma estrada ligada à base militar. “Caretaker” transforma a raiva em guitarras intensas e energia punk, e o folk pop de “Felicity”, estruturado por bateria eletrônica e acordes distorcidos, expressa o desejo por alguém emocionalmente distante. Já “Superhighway” reformula uma antiga composição de sua banda Customer em uma faixa nebulosa e eletrônica, enquanto o oscilante country rock de “Rotten Man” critica um homem ingrato, incapaz de reconhecer o amor e os sacrifícios da mãe. Chinook transforma experiências dolorosas e inquietações íntimas em um retrato intenso de sobrevivência, amadurecimento e reconstrução emocional.
• Francisca Valenzuela – MALDITA
(Frantastic Records)
Poucos meses após se tornar mãe, a cantora e compositora chilena Francisca Valenzuela começou a idealizar um álbum festivo inspirado em Raffaella Carrá, mas o esgotamento e a depressão pós-parto a levaram a transformar MALDITA em um relato honesto de sua crise emocional. Na faixa-título, a artista canaliza raiva, caos e frustração em uma composição intensa e catártica, conduzida por uma melodia contagiante e cordas cinematográficas. Entre o pop alternativo, o indie e nuances eletrônicas, “SOS” aborda ansiedade, alienação e busca por reconhecimento em uma reflexão lúdica e visceral sobre a pressão para se adequar a uma sociedade obcecada por perfeição e aprovação. “MALACARA” transforma a indignação feminina em potência por meio de um art-pop teatral, enquanto “NO TE ABURRAS DE MÍ” expõe o receio de que o parceiro se canse da rotina compartilhada. Já “DEBERÍA TOMAR MÁS AGUA” surge como um poema musicado sobre culpa e inseguranças relacionadas à maternidade, ao passo que “BUGAMBILIA”, guiada por piano e cordas elegantes, registra a confusão e o isolamento enfrentados no puerpério, conectando sua vivência à de mulheres historicamente julgadas por não atenderem às expectativas sociais. Após atravessar esse período turbulento, Valenzuela encontra afeto e serenidade em “NACÍ NECESITÁNDOTE”, dedicada à filha, e em “KOMOREBI”, encerrando o trabalho como uma jornada de dor, transformação e renascimento.



