7 discos para ouvir hoje: Arca, DOMi & JD BECK, Mallory Hawk, Francisca Valenzuela e mais

Arca / Saint aka Cassandra Antoniades

Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Arca, DOMi & JD BECK, Lucia & The Best Boys, Family Stereo, PNAU, Mallory Hawk e Fracisca Valenzuela.

ArcaXXXXX
(XL Recordings)

A musicista, produtora, DJ, vocalista e artista visual Arca sempre tratou a criação sonora como uma extensão do próprio corpo, fazendo de cada lançamento uma etapa de reconstrução pessoal. Após os cinco volumes da série Kick, marcados por rupturas e metamorfoses, XXXXX surge como o registro do que permaneceu desse processo. Com 16 faixas, o disco nasceu como uma mixtape, mas mudou de formato durante a produção, refletindo o desejo da venezuelana de romper expectativas e abandonar comportamentos automáticos.

Mais sombrio, intenso e agressivo, o repertório recupera elementos de trabalhos extensos como @@@@@ e &&&&&, ao mesmo tempo que se distancia do pop direto para explorar contradições, impulsos e instintos brutos. Narrações sussurradas, graves submersos, distorções e referências ao hip hop alternativo, trap, grime e à eletrônica underground conduzem a experiência.

“Willow” mergulha em uma atmosfera nebulosa, enquanto “Eidolon” reúne graves oscilantes, vocais reverberantes em espanhol e uma produção eletrônica desconstruída. A provocativa “Taconeando”, termo do flamenco que descreve o impacto dos saltos contra o chão, transita entre sonoridades de pista e a house experimental para celebrar o desejo e a liberdade sexual. Já “Fxck” se aproxima do pop ao unir percussão cintilante, batidas pesadas, erotismo explícito e violência em um confronto com o poder, a autoridade e o patriarcado, ao passo que “Enraptured” traduz a vontade de se entregar plenamente ao amor.

“Raver” preserva a tensão com ritmos arrastados e explosões de ruído, “Finisher” une cordas clássicas, ambient e trap, enquanto “Throb” investe em arranjos espaçosos e fragmentos vocais. “Everything” se constrói em torno de falhas digitais frenéticas que evocam um nascimento sonoro e remetem às criações de Aphex Twin, enquanto “Sueño” leva essa sensação ao limite por meio de intervenções cruas e repentinas.

XXXXX apresenta uma forma temporariamente mais estável de Arca, transformando o caos em matéria de reinvenção e reafirmando sua capacidade permanente de mutação.

DOMi & JD BECKWHO ASKED?
(APESHIT)

Após conquistarem reconhecimento pela técnica impressionante, pelo humor irreverente e pela fusão imprevisível de jazz, hip hop e pop apresentada em NOT TiGHT, DOMi & JD BECK retorna com WHO ASKED?, segundo álbum produzido quase integralmente pela dupla em seu estúdio caseiro. Sem grandes participações, o trabalho investe em arranjos orquestrais cuidadosamente elaborados, estruturas próximas do pop, harmonias sofisticadas e vocais presentes na maior parte do repertório. Com o apoio de instrumentistas clássicos, os artistas expandem sua linguagem em composições como “ÉPiPHANiE”, “CONCERTiNO (FOR PiANO, DRUMS & ORCHESTRA)”, “EXiT” e “PUZZLE PiECES”. Já “HAD ENOUGH”, com letra de Anderson .Paak, reúne bateria veloz, baixo sintetizado e imagens relacionadas à memória e à renovação, enquanto “GROWiNG OLDER”, “PHANTOM THREAD” e “SMALL EYES” abordam amadurecimento, afetos, criatividade e vivências pessoais. O desfecho une a energia crescente de “CLiMBiNG HiGH” à delicadeza cinematográfica de “ÉPiLOGUE”, marcada por vozes, sopros e baixo, reafirmando a habilidade dos músicos em transformar virtuosismo, experimentação e apelo melódico em uma obra mais acessível, sem abrir mão da ambição.

Lucia & The Best BoysPicking Petals
(Communion)

Após uma estreia afetada por atrasos causados pela pandemia e pelo extenso processo de criação de Burning Castles, a banda de indie rock Lucia & The Best Boys, liderada pela cantora e compositora Lucia Fairfull, encontra uma direção mais coesa em Picking Petals. Produzido por Yves Rothman, o álbum foi escrito durante períodos de isolamento em abrigos remotos na Escócia. “Back Inside My Heart” abre o repertório com a atmosfera intensa de uma balada pop à la Kate Bush. Já a sofisticada “Big Romance”, parceria com Abigail Morris, do The Last Dinner Party, estabelece a ambição do trabalho por meio de uma dramaticidade gótica, enquanto “Lonely Girl”, colaboração com Lauren Mayberry, do CHVRCHES, destaca a determinação das artistas em manter os vínculos com o país natal sem abandonar seus sonhos. O sentimento de pertencimento também surge em “You Look Like Somebody In Love” e na faixa-título, cuja ponte remete ao HAIM e utiliza a imagem de um cardo murcho como símbolo de amadurecimento e transformação. Os arranjos delicados da balada “Forgot the Arrow” valorizam a interpretação de Fairfull e revelam músicos mais seguros e emocionalmente maduros. “Better For The Worse”, por sua vez, transforma um início acústico em uma explosão dramática sobre o término de uma relação marcada pela manipulação. Enquanto isso, “Ephemeral” sintetiza a proposta do projeto ao combinar vulnerabilidade, produção exuberante e intensidade, impulsionadas pela voz singular da vocalista. Picking Petals consolida Lucia & The Best Boys em uma etapa mais confiante, expansiva e emocionalmente vigorosa, convertendo inquietações pessoais em composições de forte caráter cinematográfico.

Family StereoThe Thread
(Bella Union)

Em seu álbum de estreia, The Thread, Blake Watt, músico londrino que assina como Family Stereo, apresenta um folk delicado, cinematográfico e conciso, construído mais por sugestões e imagens do que por narrativas literais. Filho de Tracey Thorn e Ben Watt, do Everything but the Girl, o artista amadurece a sonoridade dos primeiros EPs ao unir composições contidas a arranjos expansivos. “Remedy” abre o disco com piano minimalista e sintetizadores discretos, enquanto a melancólica balada folk rock com influências country “Waiting on Nina”, “Sea Change” e “Fault Lines” exploram descobertas pessoais, transformações afetivas e o distanciamento entre indivíduos. A faixa-título reúne referências a espaços abertos, túneis e paisagens remotas para retratar um relacionamento à distância, ao passo que “Removed” cria uma atmosfera fantasmagórica inspirada em ‘O Homem de Palha’. O repertório também percorre o clima assombrado de “Collapsing”, o folk rock vibrante de “DLR”, o crescendo dramático de “Silhouette on the Hill” e o desfecho contemplativo formado por “Three Moon Trail” e “Tunnels”. Gravado ao longo de nove meses, o trabalho incorpora violino, banjo, bandolim, mellotron e sintetizadores para desenvolver um universo orgânico, envolvente e introspectivo, consolidando Family Stereo como um compositor interessado em contar histórias com precisão, simplicidade e abertura para diferentes interpretações.

PNAUAHHCade
(etcetc)

A dupla australiana PNAU apresenta seu sétimo álbum, AHHCade, inspirado na nostalgia dos fliperamas da infância e no encontro entre tecnologia contemporânea, emoção humana e a atmosfera acolhedora das pistas de dança. Com sintetizadores luminosos e batidas pulsantes, o disco reúne influências do synthpop dos anos 1980, da house dos anos 1990 e da eletrônica atual, equilibrando referências do passado e uma abordagem moderna. O repertório conta com participações de The Warning, MEDUZA, Master Peace, EARTHGANG, The Flints, Marieme, Kungs e Kurtis Wells, sem perder a identidade marcante do projeto. “Crash” e “Chemistry” estabelecem o clima eufórico, enquanto “Nirvana” carrega uma atitude punk à proposta dançante. “Tu Corazón (Your Heart)” transforma sintetizadores vibrantes e guitarras intensas em um hino ao amor e à comunidade, e “Rollin” aproxima a produção expansiva do PNAU da elegância sombria do MEDUZA. Já “Serotonin” avança com ritmo frenético e clima de rave à beira do caos, ao passo que “Rockette” incorpora funk retrô-futurista à energia contagiante dos australianos. Ao longo do trabalho, o PNAU utiliza recursos tecnológicos sem abrir mão da sensibilidade, reafirmando a criatividade humana como eixo central de sua música. Impecável nos arranjos e versátil o suficiente para conquistar grandes públicos, AHHCADE preserva a capacidade do grupo de surpreender.

Mallory HawkChinook
(Many Hats)

Em seu álbum de estreia, Chinook, Mallory Hawk revisita a infância em uma família ligada ao Exército, nas proximidades de Fort Bragg, na Carolina do Norte, para elaborar traumas, conflitos de identidade e recordações marcadas pelo som constante de helicópteros e canhões. Gravado em estúdios da Filadélfia, o trabalho reúne dez faixas e combina influências de grunge, punk, new wave e dark wave do Leste Europeu. A dance punk “D’Anger”, conduzida por um rock acústico de atmosfera noventista, retrata o fim de um relacionamento abusivo e a decisão de se preservar, enquanto “Revolver” aborda a experiência de ser amado nos piores momentos e encontrar nesse vínculo forças para mudar e se sentir vivo. A vagarosa “Low Rise” reflete sobre cristianismo, sexualidade e medo religioso durante a adolescência, ao passo que “Four O’Clocks” recupera lembranças da antiga casa da família, demolida para a construção de uma estrada ligada à base militar. “Caretaker” transforma a raiva em guitarras intensas e energia punk, e o folk pop de “Felicity”, estruturado por bateria eletrônica e acordes distorcidos, expressa o desejo por alguém emocionalmente distante. Já “Superhighway” reformula uma antiga composição de sua banda Customer em uma faixa nebulosa e eletrônica, enquanto o oscilante country rock de “Rotten Man” critica um homem ingrato, incapaz de reconhecer o amor e os sacrifícios da mãe. Chinook transforma experiências dolorosas e inquietações íntimas em um retrato intenso de sobrevivência, amadurecimento e reconstrução emocional.

Francisca ValenzuelaMALDITA
(Frantastic Records)

Poucos meses após se tornar mãe, a cantora e compositora chilena Francisca Valenzuela começou a idealizar um álbum festivo inspirado em Raffaella Carrá, mas o esgotamento e a depressão pós-parto a levaram a transformar MALDITA em um relato honesto de sua crise emocional. Na faixa-título, a artista canaliza raiva, caos e frustração em uma composição intensa e catártica, conduzida por uma melodia contagiante e cordas cinematográficas. Entre o pop alternativo, o indie e nuances eletrônicas, “SOS” aborda ansiedade, alienação e busca por reconhecimento em uma reflexão lúdica e visceral sobre a pressão para se adequar a uma sociedade obcecada por perfeição e aprovação. “MALACARA” transforma a indignação feminina em potência por meio de um art-pop teatral, enquanto “NO TE ABURRAS DE MÍ” expõe o receio de que o parceiro se canse da rotina compartilhada. Já “DEBERÍA TOMAR MÁS AGUA” surge como um poema musicado sobre culpa e inseguranças relacionadas à maternidade, ao passo que “BUGAMBILIA”, guiada por piano e cordas elegantes, registra a confusão e o isolamento enfrentados no puerpério, conectando sua vivência à de mulheres historicamente julgadas por não atenderem às expectativas sociais. Após atravessar esse período turbulento, Valenzuela encontra afeto e serenidade em “NACÍ NECESITÁNDOTE”, dedicada à filha, e em “KOMOREBI”, encerrando o trabalho como uma jornada de dor, transformação e renascimento.