
Confira alguns dos principais lançamentos da semana para atualizar a sua playlist de discos favoritos. Entre eles estão os novos trabalhos de: Nia Archives, Steve Lacy, Syd, Lido Pimienta, Tricky, Yard Act, Helado Tropical e Swapmeet.
• Nia Archives – Emotional Junglist
(Universal Music)
Nia Archives apresenta seu segundo álbum, Emotional Junglist, ampliando os limites do jungle alternativo por meio de uma abordagem mais ousada, íntima e diversificada. Desenvolvido ao longo de 2025, enquanto a artista vivia uma paixão arrebatadora seguida por uma separação dolorosa, o disco transforma essas vivências em canções que atravessam diferentes estados emocionais.
“Danger” une guitarras influenciadas pelo rock dos anos 1990 a batidas aceleradas de jungle, breakbeat e drum ‘n’ bass para representar uma conexão guiada por desejo e magnetismo. Inspirada pela música eletrônica daquela mesma década e por trabalhos de Madonna e Björk, “Vertical” descreve um vínculo profundo e a necessidade constante de permanecer perto da pessoa amada. Já “Dance With Me 2Nite” aproxima o indie pop romântico de ritmos psicodélicos e arranjos delicados de cordas, enquanto “Feelingz Go Numb” recupera graves potentes e elementos mais clássicos do gênero.
Em “Get Me Down”, os vocais sedutores de Jorja Smith se encontram com a produção eletrônica de Nia para abordar a fragilidade afetiva e a tentativa de manter vivo um laço após o fim. “There Goes Ma Head” recorre a riffs vigorosos, percussão urgente e à energia frenética do jungle para representar uma mente próxima do esgotamento. Na sequência, “Tender”, colaboração com Sampha conduzida pelo piano, registra o momento em que a realidade rompe uma fantasia amorosa.
Encerrando o repertório, “Boys In Blue”, mistura pop punk e jungle para transformar uma separação traumática, agravada pela presença da polícia, em um relato sobre decepção, solidariedade entre mulheres e estigmas raciais. O resultado é um trabalho intenso e emocionalmente plural, no qual Nia Archives converte paixão, perda e vulnerabilidade em uma expansão vibrante, criativa e profundamente pessoal.
• Steve Lacy – Oh yeah?
(RCA Records)
Após anos dedicando mais atenção às batidas do que às letras, Steve Lacy assume um tom mais confessional em Oh yeah?, disco desenvolvido a partir de sessões iniciadas depois de Gemini Rights. O trabalho reúne composições atravessadas por uma sinceridade ainda mais profunda, expondo pensamentos pessoais enquanto consolida uma identidade sonora particular, alinhada à visão criativa do músico.
A faixa-título, responsável por abrir o repertório, combina questionamentos existenciais sobre o sentido da vida, sofrimento e fragilidade com riffs de guitarra elétrica que estruturam seu pop rock psicodélico. “is it cool?”, parceria com SZA, aposta em uma sonoridade intimista, guiada por cordas percussivas e sintetizadores cósmicos, para explorar autossabotagem e vulnerabilidade afetiva. Já “the feeling” aproxima indie pop e R&B alternativo em uma composição melancólica sobre a angústia de amar sem saber se o sentimento é recíproco.
Erykah Badu participa de “pure colour”, soul nebuloso no qual os dois abordam identidade, vícios e conflitos familiares, enquanto Cecile Believe conduz “lovesexdrugbomb” por uma direção eletrônica instável, traduzindo a intensidade de uma relação caótica. “show you me” surge como um dos momentos mais frágeis e musicalmente crus do projeto ao retratar uma paixão impulsiva, enquanto “doom” apresenta um R&B progressivo de energia punk contida, no qual o artista examina desinteresse, necessidade de validação e vínculos superficiais.
Lacy expande o single “nice shoes” na suíte “nice shoes / in your world”, equilibrando ironia, desejos, frustrações e o impulso de escapar de uma ansiedade sufocante. O encerramento fica por conta de “bebe”, rock psicodélico sobre um sample de “Rusted”, do D+, que descreve uma atração repentina amplificada pela fantasia. Ao reunir confissões, contrastes musicais e participações ilustres, Oh yeah? converte as inquietações do cantor em um registro íntimo, audacioso e multifacetado de seu amadurecimento artístico.
• Syd – Beard
(Free Lunch Records/Warner Records)
Syd apresenta o terceiro álbum solo, Beard, cujo título foi inspirado nos pelos acima do lábio e transformado em metáfora para a valorização de suas particularidades pessoais e criativas. O trabalho evidencia o amadurecimento da cantora, que celebra o afeto e a felicidade com mais segurança, mostrando que também é preciso coragem para abandonar defesas, retomar a conexão consigo mesma e abraçar plenamente uma nova etapa sentimental.
“Callin”, parceria com o duo Blu June, é um R&B sofisticado sobre as frustrações provocadas por um sentimento não correspondido nos relacionamentos contemporâneos. “Jasmin 17” resgata referências do gênero nos anos 2000, enquanto “My Love” flerta com elementos de bossa nova para envolver uma paixão intensa, possessiva e protetora. Jordan Ward participa de “Always Be Mine”, faixa neo soul conduzida por piano refinado e saxofone jazzístico, na qual um casal se mostra incapaz de permanecer distante. Já “Closet”, colaboração com Cube, expressa o desejo de prolongar uma noite íntima e converter a atração em um vínculo duradouro. Impulsionada pelo violão e por referências às produções de Aaliyah, a balada “Bad Guys” sugere que até figuras vistas como vilãs já tiveram boas intenções. Em “GMFU”, linhas de baixo pulsantes, guitarras em repetição e percussão dinâmica acompanham vocais sussurrados e versos de rap sobre as consequências emocionais do término de uma relação desgastada.
“Any Time”, com a participação James Fauntleroy, começa sob uma atmosfera espiritual e influências de gospel, enquanto “2 Many Days”, por sua vez, é uma delicada composição de R&B na qual Syd revisita o começo da carreira, analisa sua trajetória e reconhece as transformações em sua compreensão do sucesso.
Beard consolida a artista em seu momento mais seguro e aberto, convertendo desejo, decepções, intimidade e autoconhecimento em um retrato sensível de seu crescimento humano e musical.
• Lido Pimienta – Caribenya
(Anti-)
A cantora e compositora colombo-canadense Lido Pimienta apresenta o álbum Caribenya. Inicialmente pensado como um lado B de seu trabalho anterior, La Belleza, o disco acabou ganhando identidade própria. Segundo a artista, o registro mergulha em temas que definem sua essência artística, como resistência, conexão humana e a vontade constante de explorar novos limites sonoros.
Caribenya combina a sofisticação clássica de La Belleza com a eletrocumbia de Miss Colombia, acrescentando ambient, pop e dembow a reflexões sobre pertencimento, cura e colonialismo. Em “Libélula”, a artista busca superar um coração partido por meio da natureza, enquanto “No Me Quiero Ir” reafirma o desejo de permanecer ao lado de seu amor e em sua terra. A cumbia intensa de “Tóxica” transforma a raiva provocada por uma amizade nociva em libertação e perdão, e a ambient tropicalia “Talento” aborda inseguranças e conflitos internos sobre suas próprias capacidades. Já “Marea” relaciona desejo, afeto, dinheiro e sobrevivência à realidade de uma jovem obrigada a se sacrificar pela família, além de denunciar a gentrificação e a exploração do imaginário caribenho, enquanto “Hoy Por Tí”, parceria com Nelly Furtado, combina um art pop envolvente com influências de cumbia e passagens etéreas que evocam a sonoridade de Enya.
Caribenya celebra a força das culturas afro-indígenas e encontra na dança, na coletividade e na alegria uma forma de enfrentar estruturas coloniais sem abandonar a experimentação.
• Tricky – Different When It’s Silent
(False Idols)
Different When It’s Silent marca o primeiro álbum de Tricky em seis anos, período no qual o músico permaneceu envolvido em outras iniciativas. Após a morte repentina da filha, em 2019, ele deixou de se interessar pela divulgação de obras assinadas com o próprio nome, mas foi convencido pelo empresário Alan McGee de que as novas composições constituíam um legítimo disco de sua carreira. O resultado apresenta 15 faixas densas, melancólicas e inquietantes, com predominância de vozes masculinas e destaque para Mitch Sanders, presente em “I Still See Me There”, “I’m Yours”, “Because I Don’t Know”, “Be Still In The Pain” e “Paris Maybe”. O repertório ainda traz uma releitura de “Marinade”, do Dope Lemon, a participação de uma cantora lírica em “Piano”, elementos de drum ‘n’ bass em “So Cold” e os vocais de Christian Pattemore em “Frontier Town”. O luto atravessa todo o projeto, sobretudo em “I’m Yours”, enquanto “Out of Place”, colaboração com Marta (com quem Tricky trabalhou no álbum Out The Way), encerra a obra com uma homenagem direta à filha e simboliza a retomada emocional e artística do compositor.
• Yard Act – You’re Gonna Need A Little Music
(Universal Music)
Em You’re Gonna Need A Little Music, o Yard Act une o pós-punk ácido de The Overload à pulsação dançante de Where’s My Utopia? em seu primeiro disco registrado ao vivo pelos quatro integrantes. Ao absorver os aprendizados das etapas anteriores e ultrapassar as influências iniciais, o grupo afirma uma personalidade singular, em uma trajetória comparada à evolução do Blur até Parklife. Mais cru e imediato, o repertório começa com a inquietação de “Empty Pledges”, atravessa a intensidade rítmica de “Redeemer” e alcança a cadência próxima ao rap de “Thrill Of The Chase”, sem abrir mão de refrões envolventes. “New Beginnings” incorpora traços do britpop dos anos 1990 ao celebrar as pequenas fontes de felicidade, enquanto a faixa-título ocupa o centro do projeto com piano e clima nostálgico da disco. “Janey Said” revela uma faceta vulnerável, ao passo que “Cherophobe Rock” e “Talky Talky People” mantêm o humor, o balanço e a sagacidade característicos da formação. Com letras mais abstratas e menos dependentes de personagens, James Smith aborda incertezas relacionadas ao êxito, à realidade e ao sentimento de pertencimento em uma obra deliberadamente caótica e segura.
• Helado Tropical – Helado Tropical
(Psychic Hotline)
Helado Negro e Reyna Tropical transformam afinidades ligadas à identidade, ao idioma e à pesquisa sonora em Helado Tropical, primeiro álbum conjunto dos artistas, concebido espontaneamente após um encontro em estúdio na Carolina do Norte, em 2024. Com nove faixas guiadas por guitarras, sintetizadores e batidas eletrônicas, o trabalho percorre ambient, ritmos latinos e paisagens intimistas, impulsionado pela improvisação, pela confiança mútua e pela noção de deslocamento físico e emocional. Ao investigar diferentes formas de vínculo, “Sensación” expande o sentido da intimidade, “Fluye” expressa entrega, renovação e continuidade, “Tocando” une fragilidade e tensão ao abordar relações afetivas, enquanto “Soledad”, gravada durante uma sessão noturna quando o repertório já parecia finalizado, conserva a força daquele processo criativo. Distante das convenções frequentemente associadas à música latina, o disco captura um período de autonomia artística, mudança pessoal e profunda sintonia entre dois músicos conectados menos por um diálogo explícito do que por uma percepção compartilhada.
• Swapmeet – Mount Zero
(Winspear)
A banda australiana Swapmeet apresenta Mount Zero, seu primeiro álbum, em uma jornada conduzida por guitarras que revisita e atualiza o alt-rock e o slowcore das décadas de 1990 e 2000. Sucessor do EP Oxalis, de 2024, o projeto chega após a assinatura com o selo Winspear e uma série de reconhecimentos conquistados pelo quarteto em seu país. Ao longo do repertório, o grupo transforma paixões, decepções, embaraços e inseguranças da juventude em composições que equilibram suavidade, ruído e atmosferas surreais. Produzido de forma colaborativa, com alternância de instrumentos e arranjos inicialmente construídos em múltiplas camadas antes de serem reduzidos ao indispensável, Mount Zero registra a intensidade das transformações pessoais, lamenta trajetórias que jamais serão vividas e celebra as possibilidades que permanecem abertas.



